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Se falas, morres: a coragem das mães da máfia

Manifestação em Milão durante o funeral de Lea Garofalo, assassinada pelo próprio marido - que pertencia à organização mafiosa ’Ndrangheta

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Quem são e como foram as vidas de mulheres que tiveram uma importância crucial no mundo dos grupos do crime organizado italiano são a matéria prima do livro do jornalista norte-americano Alex Perry “As Boas Mães”. De férias em Portugal, o autor falou ao Expresso sobre a extraordinária história de Maria Concetta Cacciola, Lea Garofalo e Giuseppina Pesce. E de uma procuradora que decidiu dedicar a vida a combater a máfia

Luís M. Faria

Jornalista

A máfia calabresa tem menos fama universal do que a sua congénere siciliana mas há muito que a ultrapassou em importância. Com a Cosa Nostra largamente desmantelada a partir do momento em que cometeu o erro de assassinar dois magistrados em sucessão (os retratos de Giovanni Falcone e Paolo Borsellino ainda hoje se encontram bem visíveis no gabinete de todos os procuradores italianos), coube à ’Ndrangheta tomar-lhe o lugar, construindo um império que se estende a todos os recantos da economia, ilegal e legal, com tentáculos pelos vários continentes e uma receita anual estimada em 877 mil milhões de euros.

Mau grado a dimensão que atingiu, a ’Ndrangheta permanece dominada pelas mesmas famílias que a fundaram há século e meio. Um conceito tradicional de família continua a vigorar nela, com as mulheres relegadas a um lugar subordinado e frequentemente sujeitas a violência física dos seus esposos e irmãos, às vezes em plena rua.

Há anos, algumas delas revoltaram-se e falaram às autoridades. Ao fazê-lo, abriram a primeira brecha na organização mas condenaram-se a si mesmas. Alex Perry, um jornalista conhecido (“Newsweek”, “The New Yorker”) que passou anos a escrever sobre os efeitos da globalização na Ásia e em África, publica agora “As Boas Mães”, um livro que é lançado em Portugal a 3 de setembro e que conta a história de quatro mulheres extremamente corajosas.

Alex Perry

Alex Perry

d.r.

Conforme Perry escreve no fim, “se a história de ‘As Boas Mães’ nos diz algo é que definir a capacidade humana pelo acaso do género ou da cor da pele, da religião ou da nacionalidade é loucura”. Porquê? Porque “todo o mundo ficou a ganhar porque um pequeno grupo de mulheres italianas do Sul procurou um destino diferente daquele que outros tinham determinado para elas”.

Perry teve a ideia para o livro em 2015, quando estava a preparar um artigo para a revista “Newsweek” sobre o envolvimento da máfia nas redes ilegais de migração entre África e a Europa. “O maior centro de migrantes na Europa fica na Sicília”, explica. “5000 pessoas encontram-se lá alojadas, muitas delas há imenso tempo. Na Alemanha, o processo de um migrante faz-se em seis semanas. Eu conheci nigerianos que estavam naquele centro há três anos e meio. A máfia tem interesse em que eles continuem lá. São 28 euros por dia que recebem.”

Uma vulnerabilidade e um erro fatal

Nesse 2015, Perry contactou em Roma vários jornalistas especializados em máfia. Uma delas, para lhe arranjar entrevistas, exigiu-lhe 250 euros e que ele fosse ver uma peça dela então em cena. Perry aceitou. Era numa zona pobre nos arredores de Roma e os atores eram estudantes de liceu. Mas a peça era sobre Maria Concetta Cacciola, uma mulher que tinha testemunhado contra membros da sua família que pertenciam à ’Ndrangheta e acabara morta. Foi a génese do seu livro.

“As Boas Mães” centra-se em Cacciola e noutras duas outras mulheres a quem a história dela o levou: Lea Garofalo e Giuseppina Pesce. Também elas se afastaram da família e falaram às autoridades. Tal como Cacciola, Garofalo acabou por ser persuadida a deixar o programa de proteção de testemunhas e voltar para a família, embora sabendo o que arriscava. A falha aí foi sobretudo do Estado italiano, embora a existência de filhos constituísse uma vulnerabilidade essencial. Para Perry, “uma das coisas mais aflitivas da história foi ver as mães a fazer chantagem emocional com as filhas para as trazerem de volta, mesmo estando cientes do que as esperava”.

No caso de Garofalo, o erro fatal foi aceitar o convite do marido - que ela tinha denunciado à polícia - para uma saída de reconciliação. Após um passeio agradável na companhia da filha de ambos, Denise, acabou morta pela família dele. Quando disseram a Denise que a mãe tinha desaparecido, ela soube imediatamente o que se passava mas continuou a conviver com o pai e com a família dele, como se nada tivesse acontecido - à espera de uma oportunidade para escapar.

Tendo Perry passado anos na companhia, por assim dizer, daquelas três mulheres, perguntamos-lhe como descreveria cada uma delas. Ele não hesita. “Lea é uma força da natureza. Não segue nenhum exemplo que conheça. Age por si mesma. Mas devido à sua personalidade, não pode deixar de se revoltar. É uma rebelde nata. Acho que há um elemento de predestinação no seu destino”, descreve. “Giuseppina é muito mais calculista. É um membro de nível inferior na ’Ndrangheta. A certa altura descreve os benefícios dessa vida, os privilégios e o respeito, e é uma operadora astuta. Talvez por isso, é a única que sobrevive”, prossegue Perry. “Maria Concetti Cacciola é a mais trágica das histórias. Há algo nela que nos faz perceber desde o início que está condenada. Ela vai pela vida como alguém que está prisioneira dos eventos. Nunca parece ser a protagonista. Na única vez em que se afirma por si própria, sente-se extremamente desconfortável. E não aguenta. Há uma gravação de uma conversa com uma amiga em que ela se queixa: ‘Se eu voltar, acho que me matam. Calculo que me deem um ano, ano e meio, no máximo’. Na gravação ouve-se claramente a sua voz a quebrar. Apesar disso, ela regressa.” Morreu em 2009, em Milão: foi assassinada a tiro depois de ser torturada e o cadáver foi despejado em 50 litros de ácido. O ex-marido estava entre os elementos da ’Ndrangheta que cometeram o crime.

Alessandra, que aos 8 anos já queria ser procuradora

Além das três mulheres, a outra protagonista do livro é a procuradora Alessandra Ceretti, uma mulher corajosa que decidiu dedicar a sua vida a combater o flagelo da máfia. Oriunda da Sicília, Cerreti sempre detestou a imagem romântica que a cultura popular (incluindo os filmes) dá de uma chaga social cujos efeitos ela pôde apreciar em primeira mão desde a infância. Aos 8 anos já dizia que queria ser procuradora e atacar a máfia. O seu desejo tornou-se realidade muitos anos depois, quando a transferiram do norte de Itália para a Calábria.


“É uma narrativa espantosa. Sou um estudioso da construção de histórias”, diz Perry. “A forma como os eventos evoluíam era impossível de inventar. Como se vê no livro, há momentos de triunfo, mas são imediatamente seguidos por tragédias horríveis. Justamente quando se pensa que tudo está bem, booom... E quando se pensa que tudo está perdido, há uma ressurgência. Quando estava a montar a história, habituei-me à ideia de que pelo menos uma vez por dia eu ficaria a saber algo que me deixaria de queixo caído. Se chegasse às três ou quatro da tarde e isso ainda não tivesse acontecido, sabia que não tardaria. E nunca tardava.”