Oito anos depois a Grécia está de volta num “dia especial”
20.08.2018 às 12h58
Anadolu Agency/ Getty Images
Foram os primeiros a pedir ajuda financeira e os únicos que reincidiram. A Grécia termina esta segunda-feira o terceiro programa de resgate e volta a assumir sozinha a gestão das contas públicas. “Bem-vinda de volta”, felicita Mário Centeno, líder do Eurogrupo
Oito anos, quatro governos, três resgates. Esta segunda-feira é um “dia especial” para a Grécia - e quem o diz é Mário Centeno como presidente do Eurogrupo. A partir de agora Atenas é a única responsável pela gestão das suas contas públicas, o que não significa que a austeridade vá diminuir. “Com o controlo vem responsabilidade”, alerta Bruxelas, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) vai continuar por perto mas sem intervenção direta.
“Hoje é um dia especial para a Grécia. É o dia em que o resgate financeiro chega ao fim após um longo caminho com o qual todos aprendemos as nossas lições. Mas agora isso é história”, começa por dizer Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, num vídeo divulgado por Bruxelas em que arranca com um saudoso ‘kalimera‘ (que significa ‘bom dia‘ em grego). “Hoje, [a Grécia] retomou o crescimento económico. Estão a ser criados novos empregos, há um superávit orçamental e comercial e a economia foi reformada e modernizada. Sabemos que estes efeitos ainda não sentidos por toda a população, mas gradualmente vão sê-lo”, garante.
Em 2010 foi aprovado o primeiro resgate à Grécia (e também o primeiro entre os Vinte e Oito). O “problema grego” regressou em 2012 e, novamente, em 2015. Em oito anos, quatro governos gregos diferentes tiveram e pedir por três vezes ajuda à Europa.
Esta segunda-feira assinala-se o fim do terceiro programa de resgate, iniciado em 2015 e algo mediatizado com a chegada de Alexis Tsipras e da política de extrema-esquerda do Syriza ao governo, bem como a entrada e saída de Yanis Varoufakis do gabinete das Finanças.
No total dos três resgates, a Grécia recebeu mais de 288 mil milhões de euros, uma parte significativa através de empréstimos dos parceiros europeus e outra parte pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).
Depois de uma profunda recessão, que conduziu o país a níveis de históricos de desemprego e agravou as condições sociais da população, a economia grega começa lentamente a restabelecer-se. Em 2017 registou-se uma taxa de crescimento de 1,4%, espera-se que este ano se fixe nos 1,9% e que em 2020 chegue aos 2,3%, embora ainda sem conseguir recuperar para os níveis pré-crise.
A dívida pública mantém-se em níveis preocupantes, a rondar os 180% do PIB, e a taxa de desemprego continua a dar sinais das grandes dificuldades da economica helénica: pela primeira vez em sete anos o desemprego está abaixo dos 20% (depois de ter atingido os 28%), mas ainda se situa em níveis historicamente altos.
2010, 2012, 2015: mais de 288 mil milhões de euros
“O problema grego”. Foi com esta designação em cima da mesa que os líderes europeus se reuniram em 2010. Tinham um problema para tratar: a Grécia precisava de ajuda financeira. E, após algum ceticismo inicial sobretudo da Alemanha, foi aprovado em maio um empréstimo de 110 mil milhões de euros ( e mais tarde percebe-se que o défice público era, afinal, mais do dobro do valor divulgado). Era o primeiro dos Vinte e Oito a pedi-lo, seguiram uns tantos mais, incluindo Portugal,Irlanda, Espanha e Chipre.
Dois anos depois, um novo pedido. Em março de 2012, é aprovado um segundo resgate à Grécia, no valor de 130 mil milhões de euros. A maior das crises chegaria em 2015, que depois de um longo processo de negociação com Bruxelas, a Grécia conseguiria um terceiro programa e um montante máximo de 86 mil milhões de euros.
Mário Centeno e Alexis Tsipras
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Chegados a 2018, “a Grécia tem o controlo pelo qual lutou", diz Mário Centeno. Só que, "com controlo vem a responsabilidade. Os gregos pagaram fortemente as más políticas do passado, portanto recuar seria um erro. A Grécia está agora numa posição em que pode desfrutar totalmente dos benefícios de ser membro da União Europeia, com as mesmas regras de qualquer outro país”, diz o ministro das finanças português e também presidente do Eurogrupo. “Neste sentido, a Grécia regressou ao normal. Por isso, bem-vinda de volta.”
“A conclusão do programa de estabilidade marca um importante momento para a Grécia e para a Europa. Enquanto os parceiros europeus mostraram a sua solidariedade, o povo grego respondeu a todos os os desafios com uma coragem e determinação características”, disse, por seu turno, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia em conferência de imprensa, sublinhando que sempre defendeu a permanência do país na União Europeia. Em 2015, muito se especulou sobre a possível saída do país da UE. Lembra-se do Grexit?
Pierre Moscovici, comissário europeu para os assuntos económico, fala em boas notícias e assegura que a Europa vai continuar a apoiar a Grécia. “Para a Grécia e os gregos marca o início de um novo capítulo após oito anos particularmente difíceis. Para a zona euro, define um linha simbólica debaixo de uma crise existencial. As extensas reformas levadas a cabo pela Grécia prepararam o terreno para uma recuperação sustentável: isto deve ser nutrido e mantido para que a população grega seja capaz de recolher os benefícios dos seus esforços e sacrifícios.”
Por enquanto, por parte do Governo grego não há comentários oficiais. É esperado que o primeiro-ministro Alexis Tsipras faça um comunicado às televisões esta terça-feira. No entanto, após a reunião de líderes a 22 de junho 2018, quando a saída limpa já era praticamente certa, definia como prioridade o “estado social”.