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Internacional

Venezuela. Caça às bruxas após “atentado” um tanto duvidoso

Membros das forças de segurança a recolher destroços do drone que terá explodido

FOTO Miguel Gutierrez/EPA

Regime da Venezuela insiste na tentativa de assassínio e acusa a oposição e a Colômbia. Está em curso megaoperação policial

Daniel Lozano, Correspondente em Caracas

O Governo venezuelano lançou uma campanha frenética para convencer o mundo de que o que aconteceu há uma semana, durante um desfile militar da Guarda Nacional, foi uma tentativa de assassínio de Nicolás Maduro, e não uma montagem sua. Um “atentado” do qual o líder bolivariano saiu ileso, graças à “eficácia” dos dispositivos de segurança e ao “escudo de amor” que, segundo as declarações do próprio, o povo venezuelano lhe proporciona.

As imagens dos drones no momento da explosão e os sete soldados levemente feridos jogam a seu favor, mas a falta de credibilidade do Governo revolucionário e a conjugação de novos elementos suscitaram mais dúvidas que certezas em relação a um incidente violento, cuja versão oficial teria sido aceite incondicionalmente, noutras partes do mundo.

Entre os primeiros a apontar buracos na versão oficial inclui-se o major-general Hebert García Plaza, figura fundamental do regime de Chávez e Maduro e hoje exilado nos EUA, no seguimento de trocas de acusações de corrupção com o Presidente. “Pensas que somos parvos, mas estás de saída e vai ser o povo a apear-te”, afirmou o militar fugitivo, depois de explicar que os sobrevoos de drones estão proibidos e que, noutras ocasiões, se tinha evitado a Avenida Bolívar, por ser insegura.

Pondo de lado, os dirigentes revolucionários e os seus apoiantes incondicionais, as confissões públicas de estranhos personagens (como Juan Carlos Monasterios, sargento reformado da Guarda Nacional e principal acusado do atentado), as gravações áudio, surgidas poucas horas depois, que pareciam resultar de uma investigação de várias semanas e os antecedentes duvidosos dos membros do “comando terrorista” — no ano passado denunciados como infiltrados chavistas na chamada “resistência” — geraram mais incertezas entre uma opinião pública que, desde o primeiro dia, não acreditava na história. E não só: esta também escarneceu da fuga apressada de centenas de militares que participavam no desfile, gravada por descuido pela televisão pública, apesar das ordens de corte da emissão.

A perseguição e detenção dos que tinham sido identificados na operação levaram também à expulsão dos hóspedes do Hotel Pestana, situado na zona leste da capital. O grupo hoteleiro português insistiu, em comunicado, na sua colaboração com as autoridades policiais, que estavam convencidas de que um dos cérebros da maquinação se encontrava num dos quartos do hotel.

A Venezuela vive uma espécie de ceticismo radical, fomentado por 20 anos de fantasia e exagero do guião revolucionário: os incríveis mil atentados, conspirações e manobras, durante cinco anos de Governo — segundo o próprio Maduro — dos quais não existe a menor prova; e as acusações inverosímeis proferidas contra o ex-Presidente colombiano, Juan Manuel Santos.

Também não ajuda o facto de a Venezuela ser o país pioneiro em fake news, o mesmo país que, em 2013, garantiu, com grande alarido, que uma comissão científica internacional (que ainda não foi constituída) demonstraria que o Império inoculou células cancerígenas em Hugo Chávez. Neste país da América do Sul, quase ninguém acredita na propaganda oficial, mas o mesmo é verdade em relação às queixas da oposição.

Ataque à oposição e Parlamento

Como se temia desde o primeiro momento, o chavismo está a usar o “atentado” para intensificar a caça às bruxas contra a oposição e contra o Parlamento, que há 31 meses é alvo do assédio governamental.

Na terça-feira, agentes dos Serviços Secretos Bolivarianos (SEBIN) detiveram, em Caracas, o deputado Juan Requesens, de 29 anos, a primeira vítima política do “atentado”. Uma detenção ilegal, visto que o dirigente do Primeiro Justiça (PJ, centro-direita) tem imunidade parlamentar e só pode ser julgado com a aprovação do próprio Parlamento de que é membro

“Hoje, posso falar aqui mas, amanhã, não sei”, disse de forma premonitória, na tribuna do Parlamento, poucas horas antes de ser preso. Requesens encabeça a nova geração de dirigentes da oposição, que fizeram a sua formação nas aulas e nas ruas. Desde que, em 2010, derrotou o protegido de Chávez na maior universidade pública do país, passou a integrar a lista negra da revolução.

Requesens é acusado de ajudar os autores materiais do “atentado” a atravessar a fronteira com a Colômbia, uma fronteira que mais de três milhões de venezuelanos que fogem à crise cruzam sem problemas. O segundo indiciado pelos mesmos motivos é Julio Borges, ex-Presidente do Parlamento exilado em Bogotá, e alvo preferencial da aversão do chavismo, depois de no início do ano, se ter recusado a assinar o Acordo de Santo Domingo, que teria legitimado as eleições presidenciais de maio.

Flagrante delito de homicídio,
diz o Supremo

O parecer do Supremo Tribunal afirma que “existem elementos que atestam a responsabilidade de Borges na tentativa de cometimento flagrante do delito de homicídio intencional qualificado” contra Nicolás Maduro. Este tribunal e a Assembleia Nacional Constituinte, órgão revolucionário sem competências e eleito após a “maior fraude eleitoral da História, na América”, segundo o secretariado-geral da OEA, apressaram-se a apoiar uma trama legal, que não é reconhecida pela maioria da comunidade internacional.

“Todos sabemos que é uma artimanha para perseguir e condenar quem se opõe à tua ditadura”, respondeu Julio Borges, da capital colombiana, onde assistiu à tomada de posse do novo Presidente, Iván Duque — e onde recebeu o apoio da grande maioria dos países da região.

“Os países devem levar a sério este atentado. Não é possível que assumam posições ambíguas perante uma tentativa de assassínio”, queixou-se o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, depois dos apoios declarados da Rússia, Cuba, Nicarágua e Bolívia, a que se juntaram outros, como o do Equador.

O Presidente Maduro foi mais longe, ao acusar o ex-Presidente colombiano, Juan Manuel Santos, de ser o autor intelectual da conspiração, no quadro do chamado eixo Bogotá-Miami. O próprio Arreaza acrescentou-lhe quarta-feira os nomes do ex-Presidente Álvaro Uribe, da procuradora rebelde Luisa Ortega, do ex-presidente do Parlamento Julio Borges e dos juízes do Supremo no exílio. Demasiadas pessoas para se manter um segredo. E demasiada propaganda que, além da verosimilhança dos factos, abre buracos na explicação oficial. É isso que acredita a Frente Ampla, que, em comunicado, afirmou “estar ainda por provar que tenha sido realmente um atentado”.