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Mulheres e crianças yazidis escondidas à vista de todos

Campo de deslocados internos. Em baixo, Dalia e Hadi Babasheik

FOTO GETTY

Perseguição Meses após Bagdade decretar a derrota do Daesh, muitas das vítimas dos jiadistas continuam reféns de alguma forma. É o caso de milhares de membros da minoria yazidi, forçados pelos extremistas a converter-se ao islão e que agora vivem ‘disfarçados’ no seio de famílias árabes em campos para deslocados internos, à espera que alguém os resgate

Judit Neurink, em Zakho e Erbil

Quase metade dos mais de seis mil yazidis raptados há quatro anos pelo grupo terrorista islâmico Daesh ainda não foi encontrada. Muitos deles estão, contudo, escondidos à vista de todos, afirmam voluntários das organizações humanitárias e ativistas yazidis. Vivem com famílias árabes refugiadas em campos para deslocados internos. Forçados a converterem-se ao islão, temem pelas suas vidas caso sejam descobertos, diz o ativista yazidi Mirza Dinaye, que pede uma busca ativa que permita restituir os yazidis às suas famílias. São vítimas do Daesh e da sua política de erradicação da fé yazidi. “São completamente assimilados pela comunidade muçulmana. Pensam que a fé yazidi foi eliminada e não raro sofrem de síndroma de Estocolmo.” Ou seja, nasceu uma relação especial entre vítimas e sequestradores.

Foi o caso de Mediha Ibrahim, uma yazidi de 13 anos raptada pelo Daesh em agosto de 2014 e que passou a viver com famílias de combatentes turcos do Daesh no bastião do grupo jiadista em Talafar. Durante esse período, converteram-na à fé islâmica. “Esqueci-me de como se fala curdo”, admite, falando em idioma turco, enquanto devora uma piza num restaurante nos arredores do campo, na região do Curdistão iraquiano onde se reuniu com os tios e com dois irmãos que receberam ajuda para fugir. Os pais e outro irmão ficaram em parte incerta, mas o último foi identificado em fotos publicadas na conta de Facebook de um combatente do Daesh. Tal como Mediha, o irmão foi levado para junto da família do jiadista e escondido.

O primeiro dono turco de Mediha em Talafar, Abu Yousef, tinha três mulheres e muitos filhos. “Batia-me e vendeu-me a outra família”, diz ela. Passou mais algum tempo com Abu Ali e a sua esposa, Fatima, oriundos de Bursa, na Turquia. Estes venderam-na, mais tarde, a Abu Ahmed e Zahida, de Konya. Foi-lhe dado um novo nome, Hadjar. Por essa altura já se ensinara a si mesma a falar turco e fora mandada para a escola para aprender árabe. Rezava cinco vezes por dia e gostava de ler o “Alcorão”.

Disseram-lhe que nunca poderia voltar para junto dos seus familiares e que o melhor seria esquecê-los por completo. “Sentia-me muçulmana, e não yazidi. Afirmaram que a minha família me mataria se soubesse que eu abandonara a nossa fé.” Ela acreditou. Os yazidis são uma comunidade coesa na qual não é permitido casar com alguém de outra fé e muito menos converter-se a outra religião. Mediha não sabia que o líder espiritual dos yazidis, o Babasheik, prometera a absolvição a todos os que regressassem do califado do Daesh e assegurou que poderiam voltar para as suas comunidades.

Foi por isso que Mediha não teve opção senão partir com a sua família turca quando esta fugiu dos combates em Talafar. Ficaram presos num campo prisional especial para as famílias de combatentes estrangeiros nos subúrbios da cidade iraquiana de Mossul. “Fiquei assustada. Não sabia ao certo se eles eram do Daesh”, explica, referindo-se aos guardas. Estava, porém, nas mãos da Polícia Federal Iraquiana, que interrogou toda a gente, inquirindo os reclusos sobre a presença de yazidis nas suas famílias.

“Também me interrogaram. Neguei que fosse yazidi”, diz numa voz suave. Mas a sua “mãe adotiva”, Zahida, sucumbiu à pressão. “Aquela não é minha”, confessou à polícia, referindo-se a Mediha, que teve de dizer o nome do seu pai à polícia. Quando um tio chegou para a recolher, porém, esqueceu todos os receios. “Reconheci-o, mas o seu bigode tornara-se branco. Fiquei tão feliz por vê-lo!”

Vergonha de regressar a casa

Mediha sabe de outras meninas yazidis no campo, que, como ela, se mantiveram em silêncio quanto ao seu passado. Hadi Babasheik, irmão e porta-voz do líder religioso, foi capaz de localizar algumas crianças, como Dalia, de 6 anos, que descobriu no antigo bastião do Daesh em Sargat, graças a uma dica. “Dalia sabia que o seu nome verdadeiro não era Zeineb, e que era yazidi.” Muitas das crianças mais novas, contudo, terão esquecido quer o seu nome quer a sua religião.

Tal como Mediha, Dalia teve pavor de fugir quando Babasheik a detetou. Temeu estar, por fim, a ser vendida como escrava sexual. É um facto que muitas mulheres forçadas a ter essa vida já deram à luz os filhos dos seus captores. Hoje sentem demasiada vergonha para regressarem a casa.

É por isso que Mirza Dinaye tentou procurar por elas nos campos de deslocados que albergam civis das terras libertadas do Daesh. Embora tivesse uma equipa pronta, não conseguiu a aquiescência da agência especial para assuntos yazidis, um departamento do Ministério da Religião do Curdistão. Isso acontece porque há yazidis que se oferecem para procurar crianças e mulheres a troco de dinheiro, justifica o chefe do departamento, Kheiri Bozani. Não consente, pois, que indivíduos externos à sua agência encetem buscas.

Também afirma que o Daesh conseguiu levar para outras paragens muitas das suas vítimas, pois o exército avisava com muita antecedência antes de iniciar a libertação de cada povoação. Mas o argumento cai por terra num momento em que a maior parte dos territórios que o Daesh controlou lhe foi arrebatada, sem que os yazidis desaparecidos tivessem sido encontrados.

A agência não está, todavia, a procurá-los ativamente. Quando lhe perguntamos porquê, Bozani indica as forças de segurança no interior dos campos, que respondem perante o Conselho Provincial de Ninive e não permitem que a sua agência conduza as investigações. No entanto, bastou um telefonema do Expresso para o chefe do Conselho, Bashar Kiki, para conseguir que os documentos em causa fossem enviados para o gabinete de Bozani passados alguns dias.

Muitos yazidis estão insatisfeitos com o trabalho da agência e queixam-se de corrupção, mas o superior de Bozani no gabinete do primeiro-ministro do Curdistão, Nechirvan Barzani, diz que não existem quaisquer provas disso. Sami Ergoshi atribui a responsabilidade pelo escasso número de yazidis descobertos nas cidades recém-libertadas às autoridades iraquianas, a quem acusa de falta de cooperação. “Para eles não é importante.”

Testes para descobrir quem são

Mas os yazidis não podem esperar que as autoridades resolvam os seus conflitos internos e não têm alternativa senão tentar contorná-las. Como Hadi Babasheik, que utiliza a autoridade do posto de porta-voz do líder espiritual para visitar campos de deslocados e seguir as pistas que lhe chegam. Descobriu assim uma série de mulheres e crianças. Surgiu, não obstante, um novo problema, agora que muitas famílias voltaram a cidades outrora ocupadas pelo Daesh, como Talafar e Hawija, levando consigo mulheres e miúdos yazidis.

Com apoio europeu e trabalhando de perto com um líder tribal árabe, Babasheik empreendeu uma campanha para pagar às famílias árabes que venham informar que têm escondido um yazidi. “Vamos ter com as famílias e perguntamos: quem tem uma criança yazidi? E depois pagamos-lhes.” Alguns ainda sabem os nomes dos pais ou de outros parentes e podem confirmar a sua identidade. Outros são submetidos a testes de ADN.
A importância deste trabalho é evidente para quem ouve a história de Mediha, que mostra que os yazidis podem não ter perdido a confiança em que o salvamento virá um dia. “Não, nunca pensei que ia ficar com eles o resto da vida”, responde quanto lho perguntamos. “Até porque eles eram muito sujos, tal como as suas casas! Graças a Deus que aqui estou!”