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Há mar e mar

Nos grandes oceanos, ventos e fluxos marítimos circulares dão origem aos “giros”, centros que estão cada vez mais cheios de resíduos, sobretudo plásticos. Há quem os apelide de “ilhas de lixo”, uma imprecisão que não apaga o essencial: os oceanos estão poluídos, porque produzimos muito, reutilizamos pouco e, assim, matamos de mais

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Apesar do sol, as baixas temperaturas obrigam o chá a ser servido quente. Os dois convivas sorriem ao compasso de palavras circunstanciais, que mostram como estão dispostos a falar a mesma língua e pôr fim às partes frias da relação. É então que um deles, Theresa May, primeira-ministra britânica de visita à China, faz jus ao epíteto de conservador e estende ao homólogo Xi Jinping um objeto prestes a ser elevado à categoria de relíquia. Em tempos de streaming, ali estava um DVD com os sete episódios de “Blue Planet II”, segunda temporada da premiada série documental da BBC, que no início do século descobriu lugares, animais e comportamentos até então ignorados.O “Planeta Azul” regressou para falar dos efeitos da ação humana e dos plásticos na vida marinha, quase 17 anos depois da estreia e ao fim de mais de seis mil horas de gravação subaquática. Os cientistas continuam a saber mais da superfície da Lua do que das profundezas dos oceanos, mas o novo trabalho voltou a ter repercussão imediata. Só na China, mais de 26 milhões de pessoas assistiram ao primeiro episódio, em outubro de 2017, o que leva a crer que o próprio Xi já o conhecesse antes de ser presenteado. O chamado “Efeito Blue Planet” sentiu-se um pouco por todo o mundo, fazendo disparar as pesquisas no Google pela expressão “poluição de plástico no oceano”. No Reino Unido, a maior marca de chás passou a vender saquetas livres de plástico, houve um aumento da procura por cursos de biologia marinha e até a Rainha Isabel II baniu a loiça de plástico das residências reais. Na Organização das Nações Unidas (ONU), os 193 países-membros assinaram em dezembro uma resolução para eliminar a poluição dos mares, e em maio deste ano, a Comissão Europeia propôs a proibição total de produtos como cotonetes e palhinhas, e a ambiciosa recolha, até 2025, de 90% das garrafas de plástico descartáveis que circulam nos Estados-membros.

A cena do chá fica no meio desta cronologia. Theresa May esteve três dias na China, em fevereiro último, um mês depois de Pequim ter fechado a porta à importação de resíduos não-industriais. Era para o gigante asiático que ia a maior parte do plástico exportado pelos países ocidentais, o que representou a entrada de cerca de 106 milhões de toneladas de plástico nas fronteiras chinesas, desde 1992, segundo um estudo da Science Advances. O país que é há muito o maior responsável pelo despejo de detritos nos oceanos — ao qual se juntam os também asiáticos Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietname — está agora mais atento do que nunca e abriu a discussão sobre o que fazer com os milhões de detritos que vão ficar abandonados com esta proibição.

É difícil não ceder às cenas finais de “Blue Planet II”. Nela vemos albatrozes a alimentar involuntariamente as crias com plástico, fêmeas de golfinhos a expor os recém-nascidos a poluentes, através de leite contaminado, e ouvimos o grito de guerra do narrador David Attenborough, que aos 92 anos parece não ter perdido a esperança: “O futuro da humanidade, e de todo o planeta Terra, depende agora de nós.”

São muitos, são tantos

Vamos juntando números e, a partir de determinada soma, deixando de os entender. Os salários que Cristiano Ronaldo receberá ao longo de quatro anos na Juventus, as dívidas públicas, as dos bancos e os plásticos nos oceanos, todos parecem estar para lá da compreensão terrena. O que são exatamente cinco biliões de partículas plásticas a flutuar? Talvez uma imagem ajude: em peso, é o equivalente a uma manada de 38 mil elefantes africanos. Outra imagem: em quantidade, o plástico é tanto que dava para ir à Lua e voltar. Duas vezes. Última: são 425 voltas à Terra.

Tudo isto são estimativas, todas próximas, todas constantemente desatualizadas. O ano passado, uma campanha da ONU já falava em 51 biliões de pedaços nos oceanos, um número 500 vezes superior ao de estrelas na galáxia. É impossível quantificar exatamente plásticos dispersos por águas ainda não totalmente desbravadas. O cientista e oceanógrafo Marcus Eriksen tentou fazê-lo com a equipa de investigadores do “5 Gyres Institute” que, entre 2007 e 2013, organizou 24 expedições pelos cinco giros dos principais oceanos. Os giros são sistemas de correntes circulares criados pelos ventos e pela rotação da Terra, que absorvem os detritos à volta e os colocam no “centro da espiral”. O Atlântico tem dois, um ao norte, outro a sul, tal como o Pacífico, e ao contrário do Índico, que tem um.

Abundantes notícias sobre a chamada “Grande Ilha de Lixo do Pacífico Norte” e outras “ilhas de plástico”, misturadas com as da poluição em regiões que são de facto pedaços de terra rodeados de mar, podem prestar-se a confusões. O que se forma nos oceanos é uma espécie de “névoa” de fragmentos, alguns microscópicos, que desafiam qualquer esforço de limpeza. Essas névoas, de tal forma dispersas, não são visíveis por satélite, muito menos é possível pisá-las como a uma ilha. Basta estar próximo, como Eriksen e os colegas, para perceber que a maior quantidade de lixo é precisamente feita do que “não se vê”: os chamados microplásticos, inferiores a cinco centímetros, que podem ser pedaços partidos de plásticos maiores, ou microesferas de produtos como cremes faciais.

Muitos deles, porém, provêm de redes de pesca abandonadas, responsáveis pela morte de milhares de animais, especialmente mamíferos, como tartarugas, focas, baleias. Em alguns casos essas mortes são diretas, por estrangulamento com as redes, noutros indiretas, os animais confundem estas e outras partículas com comida, infiltrando-as na cadeia alimentar, num processo que, além de destrutivo do ecossistema, pode trazer-nos de volta o que atiramos ao lixo.

Emoção não chega

Uma tartaruga na Costa Rica aparece com uma palhinha presa numa das narinas, e um biólogo salva-a com um alicate. O animal “grita”, o sangue corre-lhe pelo rosto e o vídeo da cena atinge mais de 30 milhões de visualizações no YouTube. Uma cegonha é fotografada com um saco de plástico a envolver-lhe o corpo num aterro espanhol e a imagem torna-se viral, quase tanto como aquela que mostra um cavalo-marinho a apoiar-se num cotonete, captada na Indonésia pelo norte-americano Justin Hofman.

“As pessoas ficam muito preocupadas com essas imagens, mas no dia a dia é difícil fazer a mudança, porque o sistema não facilita”, diz Susana Fonseca, membro da direção da Associação Zero. “Imaginemos que eu até gosto de água engarrafada — não tenho hipótese de consumir numa garrafa reutilizável, porque não há.” Para a ambientalista, a informação tem corrido a bom ritmo e o que falta é mesmo “coragem política para pôr soluções no mercado”. O exemplo da Noruega mostra como “a sociedade se movimenta quando há condições no terreno”. O país adotou o deposit return system, um sistema que obriga os consumidores a pagar uma tara, espécie de caução, normalmente perto dos 10 cêntimos, que só recebem de volta quando depositam o produto numa das máquinas criadas para o efeito.

A Zero não pretende acabar com o plástico — “temos de ser realistas” —, que pode até ser útil em determinados contextos, nem acredita que os biodegradáveis resolvam o problema de fundo. Urgente é “passar de uma cultura de descartável para uma de reutilização”, em que computadores e telemóveis não são substituídos todos os anos, e assim conseguir o que Susana Fonseca considera mais importante: “Temos mesmo de diminuir a produção.”