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A história de um herói que se infiltrou no Daesh. E que morreu

ZAID AL-OBEIDI/Getty

Harith Sudani é um espião que se tornou herói nacional no Iraque. É quem deu aos Falcões, a força de elite iraquiana que se inflitra nas redes terroristas de forma a impedir ataques, toda a fama que hoje têm. Sozinho, Sudani conseguiu evitar que 30 bombas escondidas em veículos explodissem. Morreu porque, diz um dos seus irmãos, queria fazer a família orgulhosa. A história é contada pelo “The New York Times”

No Iraque, nem toda a gente vai para a universidade. Os filhos de famílias remediadas, como é a de Harith Sudani, que vive apenas dos lucros de uma pequena gráfica, são caras ainda menos comuns nos corredores. Sudani conseguiu entrar, depois de uma educação espartana às mãos do seu pai, Abid al-Sudani, que obrigava o jovem a trabalhar nas horas que lhe sobravam dos estudos.

Mas quando chegou à Universidade de Bagdade, Sudani ficou inebriado com toda a liberdade que, de repente, lhe tinha caído nas mãos e interessava-se mais por raparigas do que pelos estudos. O seu temerário progenitor faz-lhe um ultimato: ou pegava nos livros ou pegava nas malas para fora da casa da sua família.

Sudani atinou, casou-se com a rapariga que os pais escolheram para ele e voltou a estudar, primeiro língua inglesa, depois russa. Foi trabalhar para um petrolífera, como monitor dos sistemas de vigilância de uma das muitas bases de extração de crude do Iraque.

Ao mesmo tempo que olhava as dezenas de ecrãs que transmitiam as imagens de tudo o que se passava nas zonas de extração, ia também vendo, através do computador, as notícias sobre os atentados terroristas que todos os dias dilaceravam o seu país. Mais uma escola bombardeada, mais um atentado suicida num mercado cheio de inocentes, mais uma carrinha abandonada com explosivos à porta de um hotel.

Sudani tinha encontrado a sua motivação, o seu propósito

A agência especial de contraterrorismo iraquiana, a Unidade dos Falcões, é talvez a mais importante organização secreta nas linhas da frente da guerra contra o terrorismo de que já se ouviu falar apesar de pouca gente ter ouvido deles - é mesmo assim, aparentemente contraditório.

É uma célula de elite mais ou menos desconhecida, até dentro do próprio país, onde só os níveis mais altos do governo são informados sobre as missões dos Falcões. São os únicos a ter conseguido colocar dezenas de espiões dentro do Daesh. Foi criada em 2006, enquanto o governo e as forças aliadas tentavam combater a insurgência deixada pelo vazio de Saddam. Abu Ali al-Basri foi o militar encarregado de montar esta operação que tinha como objetivo localizar e neutralizar os cabecilhas dos grupos terroristas a operar no Iraque. A primeira equipa tinha 16 homens e chegavam bem para milhares de insurgentes.

“Procurei por eles com o zelo que um homem coloca na busca por uma esposa”, disse al-Basri ao “The New York Times”, que traça este fim de semana o perfil de um dos mais respeitados espiões iraquianos de sempre, Harith Sudani, o miúdo que não queria estudar, que só era bom nos jogos de computador e a passar tardes inteiras no café.

Mas tudo mudou quando um dos seus irmãos, Munaf, se juntou à tropa de elite. Munaf via o seu irmão regressar do trabalho sem grande ânimo e disse-lhe que se alistasse, que a sua experiência na área da informática e da monitorização seriam de certo valorizados. Foi isso que fez e, em 2013, começou a trabalhar nos Falcões como analista das comunicações e dos movimentos dos jiadistas na internet.

“Foi a primeira vez, em muito tempo, que eu o vi entusiasmado com alguma coisa. Estava feliz e toda a família conseguia ver isso”, relembra Munaf.

Em 2014, o cenário do terrorismo mundial mudou com a chegada de um sanguinário protagonista, o Daesh. Tomaram terras no norte do Iraque e da Síria e dali iriam expandir o seu “califado”, ameaçavam. Os Falcões começaram imediatamente a planear uma forma de se infiltrarem nas hierarquias extremistas. Sudani ofereceu-se.

O seu superior direto, o general Saad al-Falih, disse que o jovem tinha ficado chocado com as fotos das crianças mortas por todo o sítio por onde o Daesh ia passando. Sudani tinha entretanto visto nascer a sua primeira filha.

Fingir ser do Daesh

Confrontados com a brutalidade das execuções cometidas por membros do Daesh, os soldados da unidade de elite iraquiana sabiam o que os esperava se por acaso fossem descobertos a passar informação ao Estado iraquiano, por sua vez com ligações aos Estados Unidos.

O treino deixava de ser treino e passava a ser encarado como uma espécie de metamorfose, de transformação momentânea para dentro da mente, das motivações, dos hábitos, do corpo, do sotaque de um terrorista.

Quando Sudani era mais novo, a sua família tinha vivido em Ramadi, uma zona com uma presença muito forte de muçulmanos sunitas, a minoria que tinha governado o Iraque ao lado de Saddam Hussein.

Quando os americanos derrubaram o ex-ditador, a insurgência sunita cresceu, ramificou-se e uma parte dela estava agora nas fileiras do Daesh. Sudani tinha o sotaque da zona de onde vinham muitos dos combatentes do califado. Mas como era xiita, Sudani não sabia todos os rituais sunitas, que frases ou passagens do Corão eram mais importantes, que leis retiravam os extremistas destas orações, de que forma as interpretavam para terem chegado àquele nível de violência.

Primeira missão

Em setembro de 2014, Sudani dirige-se à cidade de Tarmiya, na altura uma espécie de fábrica de bombistas suicidas com um destino: Bagdade.

Sudani entrou na mesquita onde os extremistas se reuniam para planear os ataques e ficou lá dentro o dia todo. O seu irmão, parte da equipa de vigilância à operação, convenceu-se de que alguma coisa se passava. Mas não. Ao pôr do sol, Sudani dirigiu-se ao ponto de encontro pré-estabelecido mas foi apenas para informar a sua equipa que dali para frente era para ser tratado como Abu Suhaib, o desempregado frustrado de um bairro sunita nos arredores de Bagdade. A sua casa agora era ali, em Tarmiya.

Sudani rapidamente se tornou uma peça essencial da estrutura como nativo de Bagdade que era, pediam-lhe sempre que fosse ele a tentar passar por ruas secundárias da cidade de forma a colocar bombas em sítios estratégicos que, naturalmente, as autoridades iraquianas monitoravam.

De cada vez que ele tinha que guiar um veículo cheio de explosivos telefonava aos Falcões, que interceptavam o pacote de explosivos antes que este chegasse à capital. Os seus colegas mandavam-no para descampados onde pudessem desativar e se Sudani tivesse com ele algum membro do Daesh encontrava forma de o trazer para fora do carro e os Falcões atiravam a matar ou prendiam-no para recolher informação.

Depois disso, os Falcões encenavam uma qualquer explosão mais ou menos perto do local onde os extremistas tinham combinado com Sudani que fizesse a carrinha explodir e emitiam dezenas de notícias falsas para convencer os terroristas de que tinham, de facto, morto centenas de iraquianos.

Só o pai e o irmão de Sudani sabiam onde ele estava. Os períodos longos de ausência do seu marido entristeciam Raghad Chaloob, que pensava que Sudani tinha negligenciado a sua família.

As operações lideradas pelos Falcões foram cruciais para virar a maré contra o Daesh, um facto que até os analistas e ex-militares norte-americanos destacados nestes cenários admitem. As informações recolhidas por estes homens levaram à captura de sete líderes islâmicos e informaram dezenas de ataques sobre alvos específicos por parte das forças da coligação.

Quando a família é o maior perigo

Com o “sucesso” das suas missões, Sudani começou a subir na estrutura dos extremistas e já lhe era confiada a missão de escolher os cafés e outros locais suficientemente movimentados onde seriam colocadas as próximas bombas. Numa dessas missões de reconhecimento, ao cruzar uma rua perto de casa, resolveu dar um pouco de trela à sorte e foi ver a família. O seu superior ligou-lhe. Ele mentiu-lhe. O GPS denunciou-o. Sudani arranjou uma desculpa mas ficou convencido que a desconfiança em realação à sua verdadeira identidade estava a germinar na hierarquia dos jiadistas. Os ataques de ansiedade, que sempre tinha tido por andar a conduzir pelo trânsito anárquico de Bagdade, pioraram.

O Daesh perdia terreno e matava mais, tanto no Médio Oriente como na Europa, na tentativa de se manter relevante para os potenciais recrutas que estivessem a ver os ataques pela internet. Foram desenhados planos para um espetacular ataque de passagem de ano; um não, vários ataques ao mesmo tempo. O Daesh pediu a Sudani que liderasse a logística.

Passavam 16 meses desde que Sudani tinha escolhido esta vida e não tinha ficado mais fácil com o tempo.

A 31 de dezembro de 2016, voltou a sair, como sempre tinha feito, da sede dos terroristas, guiando uma carrinha carregada de centenas de quilos de explosivos militares.

Assim que virou numa estrada secundária para ir ter ao local onde, como normalmente, agentes da polícia iraquiana desmantelariam a bomba, Sudani recebeu uma chamada do seu comando jihadista dizendo-lhe que se estava a desviar do local combinado. Sudani disse que possivelmente se tinha enganado na curva e ligou imediatamente aos Falcões a dizer que era preciso arranjar um novo local para desativar a bomba, de preferência muito mais perto do local de detonação para que o seu percurso no GPS fosse o que estava combinado.

Perto do local de detonação, os agentes retiraram todos os explosivos do carro em poucos minutos. Sudani continuou até ao Cinema Central de Bagdade, onde a sua carrinha “explodiu” num grande aparato, montado e controlado pelos serviços militares iraquianos. Os meios de comunicação iraquianos deram conta do desastre e Sudani era de novo um herói para os jiadistas.

As escutas

Mas a primeira vez, aquela em que Sudani foi ver a família, tinha sido suficiente para que que as cúpulas terroristas tivessem decidido colocar escutas na carrinha que Sudani conduziu até ao centro de Bagdade. Toda a sua conversa com os seus colegas Falcões tinha sido escutada por Mosul.

Em janeiro de 2017, Sudani foi enviado para uma quinta abandonada perto de Tarmiya, para receber a sua nova missão. O local era tão remoto que nem sinal de telemóvel era possível detetar. Munaf pediu ao irmão que não fosse.

“Olhando para trás nem acredito que ele acreditou neles. Estava cego pela necessidade de trazer orgulho à família.”

O corpo de Sudani nunca foi recuperado mas o seu irmão garante que o viu a ser decapitado num vídeo do Daesh, onde vários prisioneiros vendados sofrem o mesmo destino. Munaf diz que não precisa de ver a cara do irmão para saber que Sudani é um daqueles homens.

Hoje Sudani é um herói. Há murais pintados nas paredes da casa da sua família e Munaf tem a cara do irmão tatuada no peito, mas com não há certificado de óbito a família não pode receber os subsídios que são devidos aos parentes de quem morre em serviço.