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“Bom, possivelmente vou parar à cadeia, não?” Ninguém ficou ferido mas Rich morreu

Richard B. Russell, um funcionário da Alaska Airlines de 29 anos, roubou um avião do aeroporto de Seattle e durante uma hora andou às voltas no céu sem se afastar muito da baía da cidade. O diálogo que manteve com o controlador aéreo é tão comovente quanto trágico

Ana França

Ana França

Jornalista

Durante uma hora, quem o visse voar diria que estava a treinar para um daqueles espetáculos de aviação em que os pilotos fazem piruetas, loops de montanha russa, voos rasantes à água ou que sobem em direção ao céu a 500 quilómetros por hora até deixarmos de conseguir ver por causa do sol.

Mas não era o caso. Richard B. Russell, o jovem de 29 anos que sexta-feira roubou um avião do aeroporto internacional de Seattle-Tacoma e que passou cerca de uma hora a voar descontroladamente perto do aeroporto era um funcionário aeroportuário sem experiência conhecida de voo .

A CNN conseguiu recolher junto do aeroporto a transcrição da conversa entre o funcionário e os controladores de tráfego aéreo e Rich, assim lhe chama o controlador que o contacta via rádio, parece estar bastante perturbado.

“Onde estás Rich e a que altitude estás, consegues dizer-me?”, pergunta o controlador utizando um diminutivo do nome de Richard.

“Sim, ummm, isto é só números, não faço ideia do que é que tudo isto quer dizer, não saberia inserir nenhum dos códigos que me envies. Estou em piloto automático”, diz Rich.

“Estás a levar-me de encontro aos caças?”, pergunta o jovem.

“Não, não estou a levar-te para ao pé dos jatos, estou a tentar manter-te afastado dos jatos e levar-te a aterrar no Sea-Tac”, responde o controlador referindo-se à abreviatura do aeroporto de Seattle-Tacoma.

Cá em baixo, quem olhava o Q400 Bombardier, com capacidade para 76 pessoas, não fazia ideia do que se passava, porque é que o avião desenhava aquelas curvas no ar. À CNN, um casal de funcionários da Boeing, ambos agora reformados, descreveram o que foram vendo. John Waldron estava a passear perto da baía de Seattle quando viu dois caças na perseguição de um avião de passageiros. “Pensei que era um exercício de acrobacia aérea”, disse. Já Kethleen Reichel, ex-funcionária da Boeing, disse que achou “muito estranho” haver caças perto de um avião comercial e que “toda a gente ficou a olhar para o ar a ver o que se estava a passar.

Lá em cima, Rich mostrava-se preocupado com os problemas que poderia estar a causar

“Não estás? Ok, ainda bem, não quero interferir com o movimento. Não quero, sabes?, não quero lixar o dia a ninguém”, ouve-se na gravação.

“Rich, disseste que tinhas cerca de 950 litros de combustível, certo?”, pergunta o controlador.

“Sim, mas não sei como é que isto queima, qual a percentagem consumida na descolagem mas sim, já queimou um pedaço e mais rápido do que eu esperava”, responde Rich, que continua a falar mostrando algum medo do que lhe pode acontecer. “Umm, pois, eu acho que eles me apanhavam logo se eu tentasse aterrar isto. E também me parece que isso me pode correr mal e não queria fazer isso. Eles...eles possivelmente têm defesas antiaéreas”, diz o jovem.

O controlador tenta garantir que não, que ninguém vai mandar abaixo o avião. “Não, não há nada disso, dessas defesas, estamos só a tentar encontrar um sítio onde possas aterrar em segurança”.

Mas Rich ainda não estava preparado para isso. “Umm...pois, não estou ainda preparado para trazer o avião para baixo, mas caramba, tenho mesmo que parar de olhar para o tanque de combustível porque isto está mesmo a descer muito rápido”, diz Rich.

Pouco depois de ter descolado sem autorização do aeroporto de Seattle, Rich já tinha dois caças F-15 , enviados de uma base militar em Oregon, a acompanhar todos os seus movimentos. Segundo informações fornecidas aos jornalistas depois do incidente, nenhum dos jatos militares tinha autorização para disparar contra o Bombardier, apesar de já se saber na altura que o único ocupante era o próprio homem que roubou o avião.

“Os caças NORAD não dispararam sobre o avião”, disse o Comando de Defesa Aeroespacial dos Estados Unidos num comunicado enviado à imprensa no sábado de manhã, citado pela CNN. “Os F-15 mantiveram o avião fora da área de voo do aeroporto e as pessoas que estavam em terra a salvo”, lê-se ainda.

Depois de alguns cortes no áudio, o controlador pede ao homem que tente “virar à esquerda” para “sudeste”. Rich responde com mais medos: “Bom, isto que eu fiz quer possivelmente dizer que vou parar à cadeia, não? Bem, espero que seja esse o destino de um tipo como eu”.

O controlador diz que “agora não é tempo de pensar nisso” e volta a pedir que ele inicie manobras de aproximação ao aeroporto.

“Achas que se eu aterrar este avião eles me dão um emprego como piloto?”, pergunta o homem.

“Acho que te dariam um emprego a fazer o que quer que seja”, responde o controlador, que entretanto chama um piloto à torre para ajudar Rich a aterrar o avião mas Rich diz que não precisa de ajuda porque “tem experiência em jogos de computador”. O controlar dá-lhe os parabéns pelo feito e volta a pedir que ele aterre o avião.

Mas Rich não acredita e pede desculpa pelo que já parece saber que vai acontecer. “Eu tenho muita gente que gosta de mim e vai desiludi-los muito o que eu fiz hoje. Quero pedir-lhes desculpa a cada um deles. Quebrei, sou só um gajo que quebrou. Tenho uns parafusos a menos, nunca tinha reparado até agora.”

O controlador insiste na necessidade de resolver tudo sem que ninguém se magoe e pede de novo que realize as manobras que o piloto está a ditar ao telefone. Mas Rich, aí, já tinha decidido. “Umm...bom...ok...raios! Não, não sei se vou fazer isso, não quero fazer isso. Estava a pensar que isto seria o fim, sabes?”

Silêncio do controlador. Barulhos e interferências.

“Olha, dá-me as coordenadas daquela orca, sabes? Aquela mamã orca com o bebé, quero ir vê-la”, disse Rich antes de se despenhar na floresta da ilha Ketron, entre Tacoma e Olímpia. Ninguém ficou ferido mas Rich morreu.