Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“A Justiça foi atrasada mas acredito que não será negada”: quádruplo homicídio de 1984 finalmente resolvido

Jaromir Chalabala /EyeEm/Getty

Quatro homicídios por resolver, todos violentos e todos um mistério. Mas uma lei que obriga a polícia do Nevada a recolher material genético de todos os reclusos veio resolver um caso com mais de 30 anos

Foram quatro assassinatos em seis dias. Em 1984, a cidade de Denver, no estado do Colorado (EUA), assistia impotente às notícias que dia sim dia não contavam a história de mais um violento crime. Uma família assassinada, uma menina de três anos violada, uma mulher de 50 anos morta e também ela violada.

O pai da primeira família morreu com 16 golpes de martelo na cabeça e foi encontrado com a garganta cortada. Também a mãe e uma das filhas, a mais velha, com sete anos, morreram com fortes golpes na cabeça. A menina foi violada. A outra filha do casal, com três anos, também foi violada e agredida mas sobreviveu. As autoridades, que durante anos viveram atormentadas com o que presenciaram, é isso que se lê nos documentos da polícia, encontraram-na numa cama cheia de sangue, ao lado de um boneco de peluche.

Da mesma forma, com 17 golpes na cabeça, morreu ainda uma outra mulher, com 50 anos, que estava em casa a comer quando o atacante arrombou a sua porta e começou o ataque. Também ela foi violada.

Sem lógica e também sem culpado, foi assim que este crime permaneceu nos arquivos dos departamentos policiais das zonas de Aurora Lakewood, onde se deram os crimes. Teorias, pistas, suspeitas mais densas que afinal não eram nada. Durante 34 anos, detetives que estavam a investigar o caso morreram, reformaram-se, foram substituídos e nada. Até que, em julho deste ano, o ADN veio dar aos investigadores a informação que há tempo procuravam.

Há um homem, que até já está preso, cujo ADN foi encontrado nas cenas do crime. Alexander C. Ewing está preso no estado do Nevada por tentativa de homicídio mas a acusação original não está ligada a estes quatro assassinatos. “A Justiça, neste caso, chegou atrasada mas confio que não será negada” disse Peter Weir, procurador do primeiro distrito judicial do Colorado, numa conferência de imprensa para anunciar o que parece ser o fim deste caso.

Foi emitido um mandado para que Ewing, hoje com 57 anos, seja enviado para o Colorado para enfrentar acusações de homicídio, violação e roubo e todas as outras que possam advir da sua relação com os quatro homicídios.

Os documentos judiciais que detalham estes crimes parecem tratá-los como uma espécie de ataques descoordenados e aleatórios de alguém sem um plano.

A mulher de 50 anos que morreu enquanto comia, Patricia Smith de Lakewood, foi encontrada com um anel com uma moeda de ouro pendurada. Já a casa e os corpos de Bruce Bennett, 27 anos, a sua mulher, Deborah Bennett, com 26, e das suas filhas, com três e sete anos, não foram nem roubados nem utilizados para deixar qualquer mensagem. Por isso é que só em 2010, depois de análise de ADN que, nessa altura, ainda não se sabia a quem pertencia, os casos foram ligados.

Apesar de Ewing ter um extenso registo criminal em vários estados norte-americanos, nunca tinha sido condenado por homicídio. A acusação até agora mais grave é a de tentativa de homicídio por ter agredido várias vezes com um paralelo um homem do Arizona. Enquanto era transportado para uma outra prisão, Ewing escapou e agrediu mais um casal com o cabo de um machado.

Este caso só se solucionou porque o estado no Nevada mandou recolher em 2013 o ADN de todos os reclusos, quando a lei anterior tornava obrigatória a recolha de material genético apenas das pessoas que tivessem sido condenadas depois de 1997.

“Tem de haver um erro”, disse Erwing aos detetives que o confrontaram com a descoberta. As possibilidades de que a amostra de ADN recolhida não seja de Erwing é de cerca de uma em 230 mil biliões.