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‘Denshosha’. Os guardadores das memórias de Hiroshima e Nagasaki

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A 9 de agosto de 1945 uma bomba letal atingia Nagasaki. À medida que vão morrendo os que assistiram pessoalmente ao horror dos bombardeamentos nucleares, há no Japão quem se prepare para a responsabilidade de perpetuar os seus testemunhos. São adultos, mas também há mini-contadores de histórias, já que nem as crianças ficam de fora desta missão

Há no Japão uma palavra para os nomear. ‘Denshosha’, que numa tradução literal significa ‘guardador de memórias’, é o nome dado a quem se torna fiel depositário de memórias alheias, no caso, a designação pela qual são conhecidas as pessoas que recebem por missão contar o que viveram os sobreviventes dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki. A intenção é a de que os seus testemunhos não se percam, nem acabem simplesmente como peças documentais de arquivo.

Os dias que mudaram o mundo aconteceram há 73 anos - as bombas caíram entre 6 e 9 de agosto de 1945 -, e à medida que vão morrendo os que assistiram pessoalmente ao horror, torna-se mais urgente garantir a formação de ‘herdeiros’, uma tarefa que envolve até os mais novos.

Em Hiroshima, treinam-se adultos. As autoridades locais estão empenhadas em preparar sucessores e, até à data, 117 pessoas completaram os três anos de aprendizagem, necessários para que fiquem habilitados para desempenhar a sua função como ‘denshosha’. Outros 250 voluntários estão em vias de completar a mesma formação, para em seguida espalharem a mensagem de paz que enquadra a transmissão destas memórias, falando com os estudantes que realizam visitas de estudo à localidade ou com os turistas que estão de passagem.

O tempo passa e a média de idades dos sobreviventes ronda agora os 82 anos. Mais limitados devido aos problemas de saúde ou maiores dificuldades para se deslocarem, saem menos e estão cada vez menos disponíveis para fazerem as suas apresentações.

Passar o seu testemunho é uma ideia que lhes agrada e dá esperança. “Infelizmente não acredito que viva o suficiente para ver erradicadas as armas nucleares, mas espero que na próxima geração já se avance. É por isso que sinto a obrigação e a responsabilidade de contar aos mais novos o que ouvi e vivi ainda criança – para que entendam como o bombardeamento foi horrível e desumano, e como são assustadoras as armas nucleares”, disse ao jornal “The Guardian” Setsuo Uchino, de 74 anos.

Uchino não tem memórias diretas, porque não tinha ainda 2 anos quando a 9 de agosto de 1945 uma bomba atingiu Nagasaki e foi levado para um abrigo, mas os pais fizeram questão de lhe contar o que viveram. Os cadáveres à sua volta, as queimaduras nos que sobreviveram e o desespero de quem tentava fugir, sem saber para onde.

Não é um tema fácil para crianças, refere, mas eram também crianças muitas das vítimas nesse dia.

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Na escola básica Shiroyama, em Nagasaki, morreram 1400 estudantes e 28 funcionários, entre professores e auxiliares de outros departamentos. A data nunca é esquecida. No dia 9 de cada mês, 500 alunos do estabelecimento juntam-se no auditório escolar para cantar uma canção. O hino entoado pelo coro é uma das formas de garantir que o horror não é esquecido, mas não a única.

Os estudantes do 6.º ano são também formados como “mini-contadores de histórias”, a quem compete receber as escolas visitantes. São cerca de 400 todos os anos. Os alunos da ‘casa’ são os anfitriões. Promovem uma visita guiada, que inclui uma exposição de fotografias, a passagem pelas ruínas do edifício atingido e a participação numa atividade a que chamam “Peace Navi”, em que as crianças descrevem o que aconteceu e os relatos que lhes foram transmitidos, fazendo um apelo à paz.

Os alunos levam a missão muito a sério, garante o diretor de Shiroyama. “Chegará o dia em que os sobreviventes partiram”, afirma Hiroaki Takemura, “mas as suas vozes far-se-ão ouvir”.