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“Se apunhalas alguém com uma faca e depois dizes que queres falar, a primeira coisa a fazer é retirar a faca”

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Com a reintrodução das sanções económicas ao Irão, esta terça-feira, Trump cumpriu o que tinha prometido, a Europa fez promessas que pode não conseguir cumprir e Teerão voltou-se para a China e Rússia. Estará Washington a ensaiar uma mudança de regime? “É improvável.” E o modelo de aproximação à Coreia do Norte pode ser replicado no Irão? Talvez, ainda que os EUA continuem a ser “o grande Satã” para Teerão, defende um investigador

“Estou a pedir a paz mundial, nada menos!” Foi num tom de Miss Universo que o presidente dos EUA, Donald Trump, justificou a reintrodução de sanções económicas ao Irão. Mas, tratando-se de Trump, a posição aparentemente apaziguadora não podia vir sem uma ameaça: “Qualquer um que faça negócios com o Irão não fará negócios com os EUA”. Três meses depois do anúncio da retirada do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, Trump assinou um decreto executivo que volta a impor pesadas sanções à República Islâmica.

Para já, o pacote de sanções, que entrou em vigor esta terça-feira, penaliza sobretudo o sector automóvel iraniano e a compra de aviões comerciais e metais preciosos. Daqui a três meses devem ser reintroduzidas sanções sobre o sector petrolífero, mesmo a tempo das eleições intercalares americanas de novembro. O calendário não passou ao lado do presidente iraniano, Hassan Rouhani, que acusa a administração americana de usar o Irão como alavanca política doméstica.

O investigador e subdiretor do Centro de Estudos Internacionais (CEI) do ISCTE Bruno Cardoso Reis conta ao Expresso que a medida “confirma a ideia de Trump como um populista, não só na campanha mas na própria ação executiva”. Além disso, “faz parte da sua agenda apresentar-se como uma espécie de antiObama”, sendo este um acordo “emblemático da presidência anterior”. A decisão foi, como era de esperar, “unilateral”, ignorando os apelos europeus, porque “Trump é alérgico a acordos e organizações multilaterais”. Por outro lado, “o Irão tem um lugar muito especial na política externa americana e continua a ser um osso duro de roer”, pelo que “era um alvo evidente”, acrescenta o académico.

Segundo Rouhani, o regresso das sanções é o início de uma “guerra psicológica” que visa “semear a divisão entre os iranianos”. A administração Trump “virou as costas à diplomacia”, defende o presidente iraniano, que é visto como moderado e que obteve duas vitórias esmagadoras assentes na promessa de abertura da economia ao exterior. Os países europeus signatários do acordo temem que, ao abandoná-lo, os EUA descredibilizem Rouhani e abram caminho aos opositores internos mais radicais.

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MUDANÇA DE REGIME SERIA “APOSTA ALTAMENTE ARRISCADA”

E podemos estar perante uma tentativa de os EUA forçarem uma mudança de regime? Bruno Cardoso Reis começa por afastar esse cenário: “Parece-me muito improvável e seria uma aposta altamente arriscada porque o regime mostra ser bastante resiliente. Em todo o caso, se isso acontecesse, seria uma situação bastante caótica e violenta e provocaria mais uma guerra numa zona já extremamente desestabilizada”. Mas o investigador concede que “há na Europa um grande receio de que, mais uma vez, os EUA estejam interessados numa mudança de regime com consequências imprevisíveis e altamente negativas para a segurança europeia”.

Ao renegarem o acordo de 2015, os EUA foram os responsáveis pela instabilidade económica recente no Irão, acusa ainda Rouhani – daí que o regime de Teerão tenha recusado o ramo de oliveira estendido à última hora por Trump. Não há margem para negociações enquanto Washington não cumprir com o acordado há três anos, ou seja, a limitação das atividades nucleares do Irão e a porta aberta aos inspetores internacionais só acontece em troca do alívio das sanções económicas.

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RETIRAR A FACA ANTES DE FALAR

“Se apunhalas alguém com uma faca e depois dizes que queres falar, a primeira coisa a fazer é retirar a faca. Somos sempre a favor da diplomacia e de conversações. Mas as conversações precisam de honestidade”, afirmou Rouhani horas antes de as sanções entrarem em vigor. Apesar das promessas europeias de tentativa de esvaziamento do impacto, algumas empresas têm abandonado o Irão, argumentando que não podem assumir o risco de perderem os seus negócios com os EUA.

Perante este cenário, o chefe de Estado iraniano afirmou que ainda pode contar com a China e a Rússia, outros dos signatários do acordo, para manter os sectores petrolífero e bancário à tona. “Há, de facto, mais espaço de manobra para a China e, em particular, provavelmente para a Rússia, que se tem afirmado como mais ativa no Médio Oriente, aproveitando os erros e algum vazio deixado pelos EUA”, refere Bruno Cardoso Reis. Quanto à União Europeia, os esforços desenvolvidos são “mais simbólicos do que reais” porque “a tendência das empresas que já lá estão será de limitar o mais possível a sua presença”, enquanto “as que ainda não investiram já não o vão fazer porque o mercado americano é mais importante”.

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O IRÃO NÃO É A COREIA DO NORTE MAS...

Bruno Cardoso Reis não tem dúvidas de que a reintrodução das sanções “fragiliza Rouhani e os moderados” mas admite que pode haver “uma convergência de opostos”. “A ala mais radical no Irão pode reforçar-se mas acabar também por procurar algum tipo de acomodação pragmática com Trump”, equaciona. E o “sinal algo inesperado de Trump” de abertura para novas negociações até faz lembrar a recente aproximação à Coreia do Norte.

“O problema é que, para o nacionalismo identitário iraniano, os EUA são o grande Satã e há alguma dificuldade em Teerão ceder publicamente a pressões norte-americanas, o que pode eventualmente dificultar as coisas”, refere Bruno Cardoso Reis. E depois “o que é que se pode conseguir além daquilo que consta do acordo que Trump considera horrível?”, questiona o investigador, sem afastar, todavia, a possibilidade de um encontro.

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