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Internacional

Traições, mentiras e mulheres enganadas. Como um restaurante serviu de isco na guerra diplomática entre as duas Coreias

Yanji, a cidade chinesa onde muitos cidadãos norte-corenos trabalham para ajudar a financiar o regime

China Photos/Getty

Esta história envolve um funcionário do regime norte-coreano que decidiu passar-se para o lado inimigo, um grupo de mulheres que apanhou um avião sem saber para onde ia, chantagens e segredos à mesa de um restaurante e um pagamento de milhões que nunca chegou a entrar numa conta bancária. E, no final, muito arrependimento

Yanji é uma cidade no nordeste da China, já muito perto da fronteira com a Coreia do Norte. Apesar de estar situada em território chinês, tem a particularidade de estar repleta de restaurantes norte-coreanos. É uma forma encontrada pelo regime de Kim Jong-un de fazer algum dinheiro e de ajudar, assim, a contornar os constrangimentos das sanções internacionais impostas ao país por causa do desenvolvimento do seu programa nuclear.

Não é qualquer um que vai trabalhar para um restaurante em Yanji. Tem de ser alguém da confiança do regime e este era o caso de Heo Kan-il. Heo vinha de uma família de boas relações em Pyongyang e fazia parte do Partido dos Trabalhadores desde jovem. Em 2013, o Partido destacou-o para ir trabalhar para o outro lado da fronteira. O objetivo era o de arrecadar todos os anos 100 mil dólares para financiar o regime.

Heo levou consigo 22 mulheres norte-coreanas que tinha recrutado e treinado para irem trabalhar num restaurante. Três anos mais tarde, em 2016, o norte-coreano e parte dessas mulheres abririam telejornais na Coreia do Sul, por terem aterrado em Seul como desertores do regime de Kim Jong-un. Agora sabe-se que tudo não terá passado de uma mentira e de um golpe publicitário, fruto de uma história recheada de traições e enganos.

Segredos e chantagens à mesa do jantar

A história é agora contada pelo jornal The New York Times. Enquanto geria o staff do restaurante em Yanji, Heo Kan-il começou a afastar-se do regime norte-coreano. Chegavam-lhe histórias de amigos que estavam a ser enviados para campos de detenção e de sucessivas purgas no interior do partido. Por isso, certo dia decidiu aproximar-se de um cliente que ele sabia que teria uma vasta rede de contatos e perguntou-lhe se este não conhecia ninguém dentro dos serviços secretos sul-coreanos. Poucos meses depois, já estava a passar informações à mesa do restaurante a um alegado agente secreto sobre o programa de desenvolvimento de mísseis e submarinos da Coreia do Norte.

Mas as coisas começaram a correr-lhe mal. O cliente que inicialmente o pôs em contacto com os serviços secretos de Seul decidiu começar a faz chantagem: exigiu-lhe 100 mil dólares para manter o silêncio e não revelar ao regime da Coreia do Norte que ele era um traidor. Heo decidiu então fugir com as mulheres e ir trabalhar num outro restaurante perto de Shangai. Não lhe serviu de nada porque acabaria por ser encontrado. Sentindo-se pressionado, pediu ajuda ao seu contacto nos serviços secretos sul-coreanos para fugir para Seul.

Abril de 2016. O homem que alegadamente trabalha para os serviços secretos diz a Heo que ele e as 19 mulheres norte-coreanas, que por essa altura trabalhavam no restaurante, tinham 48 horas para sair dali. Ter-lhe-á prometido duas coisas: que ele receberia milhões de dólares e que a chegada do grupo a Seul seria mantida em segredo para não pôr em risco os familiares que ainda viviam na Coreia do Norte. Mas, vinte e quatro horas depois, as caras deles estariam em todas as televisões.

As fugitivas que nunca quiseram fugir

O plano de Heo Kan-il, conta o jornal norte-americano, seria o de levar as mulheres primeiro para a Malásia e deste país, então, para Seul. Comprou vinte bilhetes de avião, com partida de Shangai, e disse apenas às mulheres que iriam trabalhar para outro local, mas não revelou onde. Cinco acabariam por fugir sem deixar rasto, provavelmente desconfiando das intenções do patrão. Heo pegou nas restantes 14 e enfiou-as em vários táxis para o aeroporto. E é aqui que a história ganha ainda mais contornos de filme de acção e espionagem.

O chinês dono do restaurante para o qual estavam a trabalhar perto de Shangai, provavelmente furioso por ter sido enganado e por perder o seu investimento, decidiu fazer uma perseguição de carro. Acabou por abalroar um dos táxis que se dirigiam para o aeroporto. Duas mulheres ficaram para trás.

Heo e as restantes 12 empregadas norte-coreanas que ainda restavam conseguiram apanhar o voo para Kuala Lumpur, capital da Malásia. Uma vez chegados lá, dirigiram-se para a embaixada da Coreia do Sul, perante a surpresa das mulheres. “Não sabíamos de nada. Pensávamos apenas que iríamos trabalhar para outro restaurante”, afirmaria mais tarde uma das ludibriadas, numa entrevista a um canal de televisão sul-coreano. Perante o medo e o olhar horrorizado das mulheres que temiam as possíveis consequências por estarem a desertar do regime de Pyongyang, Heo apenas lhes disse que já não havia volta a dar. “Se voltarmos agora para o Norte, morremos todos”.

Nessa mesma noite, a embaixada sul-coreana em Kuala Lumpur arranjou forma de colocar os elementos do grupo num voo para Seul, onde aterrariam na manhã seguinte. Foram levados para um centro dos serviços secretos, onde iriam ser entrevistados, e as suas vidas investigadas, um processo que normalmente pode demorar semanas ou meses. Foi nesse centro que as mulheres viram as suas próprias caras na televisão nacional. As lágrimas começaram a cair-lhes pela cara, conta hoje Heo. Ao contrário do prometido, o governo sul-coreano não só não manteve a chegada do grupo de “desertores” em segredo, como ainda usou esse acontecimento como um golpe publicitário, a poucos dias de importantes eleições parlamentares no país.

As mulheres foram enganadas e Heo diz ter sido igualmente traído. Garante nunca ter recebido o dinheiro que lhe tinha sido prometido pelos serviços-secretos sul-coreanos. Diz, também, que não sabe o que é feito da sua família que ainda vive na Coreia do Norte: pais e irmã terão desaparecido.

Hoje, garante ter apenas uma certeza: “Se pudesse voltava atrás no tempo”.