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Internacional

Quando desenterrar uma cápsula do tempo pode abrir feridas do passado

Na imagem, o exército da União comandado pelo general Ulysses S. Grant ataca os "confederados" sob a liderança de Pierre Gustave Toutant-Beauregard durante o segundo dia da Batalha de Shiloh, a 7 de abril de 1862

Hulton Archive/Getty

Uma caixa foi encontrada enterrada debaixo da base de uma estátua em Nova Orleães, nos Estados Unidos. Foi posta ali há mais de cem anos, e tem no interior objetos que remontam a um tempo que muitos americanos preferem esquecer

Pierre Gustave Toutant Beauregard. O nome é francês mas P.G.T. - as iniciais pelas quais ficaria para a história - era americano de gema, nascido em maio de 1818 no Louisiana. Foi engenheiro civil, funcionário público, político, inventor e até mesmo general. E foi esta última posição que lhe valeu uma estátua montado a cavalo erigida na cidade de Nova Orleães, que o ano passado veio abaixo no meio de um acalorado debate público sobre os chamados símbolos da Confederação. Mas antes da polémica, a história.

Apesar de a estátua ter sido derrubada há mais de um ano, só agora a base foi retirada do local. Ao escavarem por baixo, os funcionários da câmara encontraram algo imprevisto: uma caixa de cobre. Quando a abriram perceberam que se tratava de uma verdadeira “cápsula do tempo”, embora não se saiba quem a deixou no local e com que objetivos.

De acordo com os especialistas do museu estadual do Louisiana, no interior estavam uma bandeira, moedas, dinheiro e mesmo fotografias, nomeadamente do general confederado Robert E. Lee e do presidente da Confederação Jefferson Davis. De acordo com um documento encontrado no interior, a caixa foi ali enterrada a 14 de novembro de 1913, um ano antes da estátua ter sido inaugurada. Parte do conteúdo encontra-se bastante danificado pelo tempo, mas vai ser agora alvo de trabalhos de recuperação por parte dos especialistas do museu.

A estátua em honra do general P.G.T. Beuaregard foi uma de três relativas ao período da “Confederação” que foram deitadas abaixo em 2017 em Nova Orleães, depois de um longo debate público. A Confederação secessionista agrupou 11 estados do Sul dos Estados Unidos que se separaram do resto do país entre 1861 e 1865. Defendiam um modelo económico baseado na escravatura, ao contrário do que defendia a “União”, os outros 23 Estados do norte. A divisão deu origem a uma guerra civil, que ficou para a história como a “Guerra da Secessão”, e que causou mais de 600 mil mortos.

O debate sobre as estátuas e símbolos da Confederação que ainda existem um pouco por todo o sul acendeu-se em 2015, depois de Dylann Roof, um supremacista branco fascinado com a Confederação, ter morto nove afro-americanos a tiro numa igreja de Charleston, na Carolina do Sul. Desde então várias estátuas e símbolos relativos aos confederados começaram a ser retirados, mas estima-se que existam ainda cerca de 1500 espalhados por vários Estados do sul do país.

A caixa agora encontrada pode, por isso, reabrir velhas feridas e traumas históricos. Mas o governador do estado do Louisiana, Billy Nungesser, já veio avisar que a cápsula do tempo é também uma memória de que a História não pode ser branqueada. “Não podemos esquecer a História. Não podemos mudar a História. Temos de aprender com tudo isso e seguir em frente”.