Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Aumentou o número de pessoas a dormir em McDonald’s em Hong Kong. Maioria não é sem-abrigo

GETTY IMAGES

Problemas económicos, como não conseguir pagar a renda ou a conta da eletricidade, explicam que haja seis vezes mais pessoas a dormir nas lojas da cadeia de fast-food em Hong Kong que funcionam 24 horas por dia. Mas há outras razões, como conflitos familiares e solidão

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Descobrir que o número de pessoas a dormir em lojas da cadeia de fast-food McDonald’s em Hong Kong é seis vezes maior do que há cinco anos já coloca algumas dúvidas mas ainda suscita mais por se saber que a maioria nem sequer é sem-abrigo. “Estas pessoas têm sítio para dormir, mesmo que seja em habitações sociais, e trabalham a tempo inteiro ou parcial, mas preferem não ir para casa”, afirmou Jennifer Hung, presidente da Junior Chamber International Tai Ping Shan, a organização que conduziu o estudo sobre o número de pessoas a dormir em McDonald’s abertos 24 horas por dia em Hong Kong.

E porque é que preferem não ir para casa? Sobretudo por razões económicas, por não conseguirem ter dinheiro para pagar a renda ou a conta da eletricidade. O acesso gratuito à Internet, a comida barata e a existência de casas-de-banho também ajudam a explicar por que razão tantas pessoas (334, um número bem acima dos 57 contabilizados num estudo similar realizado em 2013) preferem as lojas da McDonald’s às suas casas.

Mas há outros motivos, porventura mais pessoais - um dos homens entrevistados disse não ter dinheiro para pagar ao seu senhorio pelo ar condicionado instalado no apartamento subdividido em que vive. Outro homem, que trabalha no setor da construção, disse não gostar de estar em casa por ter uma relação difícil com os pais. Uma mulher de 55 anos disse dormir numa das lojas da empresa para evitar confrontar-se com o marido que a maltrata e outra mulher, mais velha e sem filhos, disse ter perdido o marido e sentir-se demasiado sozinha em casa. “Estas pessoas não são apenas pobres de saúde e de dinheiro, são pobres de alma”, afirmou Jennifer Hung.

A McDonald’s não parece importar-se que as suas lojas se tenham transformado em habitações improvisadas. À CNN, que divulgou este relatório, a cadeia de restaurantes afirmou que, tendo em conta o número de lojas que funcionam 24 horas por dia - 120 - é “provável que haja clientes a permanecer lá durante a noite”. Também disse querer garantir um “bom ambiente àqueles que ficam nas lojas durante longos períodos de tempo, independentemente das razões pelas quais o fazem”. “Temos equipas preparadas para lidar com diferentes cenários”, acrescentou a empresa.

Além de números e estatísticas, o relatório da organização inclui várias recomendações ao Governo de Hong Kong, nomeadamente no que diz respeito à disponibilização de mais recursos e de mais organizações e instituições de apoio social. Mas, mais importante do que isso, será haver uma mudança de mentalidade, considera Jennifer Hung. “Hoje em dia não falamos com pessoas que não conhecemos nem nos importamos com aqueles que estão ao nosso lado. Gostaríamos de incentivar todos os cidadãos a preocuparem-se mais com aqueles que estão à sua volta”.