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Morreu Joël Robuchon, o chef com mais estrelas Michelin e que cozinhava para criar emoções

ROSLAN RAHMAN/ Getty images

Aos 73 anos, aquele que era um dos mais conhecidos chefes franceses – e também mentor do famoso chef britânico Gordon Ramsay – morreu vítima de cancro no pâncreas

“Cozinhar é criar emoções”, disse Joël Robuchon. E foi a cozinhar que o chef com mais estrelas Michelin (32) criou emoções: abriu mais de uma dezena de restaurantes por todo o mundo, pensou e aplicou novos conceitos, foi um visionário e, mais recentemente, começou a evitar os açucares e as gorduras nas suas criações. Robuchon morreu esta segunda-feira aos 73 anos, vítima de cancro no pâncreas contra o qual lutava há cerca de um ano.

Apesar da doença, trabalhou sempre. Prova disso mesmo foi que ainda durante a primavera abriu em Paris um salão de chá e pastelaria, com inspiração japonesa – o Japão era um dos seus países preferidos.

Quanto mais velho estou, melhor percebo que a verdade está na comida simples, que pode ser do mais extraordinária. E é extremamente difícil. Fazer algo muito sofisticado e com ingredientes de enorme qualidade é muito fácil, mas cozinhar algo simples que seja extraordinário é onde está a maior dificuldade, é das coisas mais complicadas que se pode fazer numa cozinha”, explicava Robuchon ao jornal britânico “The Guardian” durante uma visita ao seu restaurante em Las Vegas, nos EUA. no ano passado. Entre salões de chá, bares e restaurantes, atualmente, tinha 26 estabelecimentos abertos (cinco em Tóquio, três no Mónaco, três em Londres, três em Hong Kong, dois em Paris, dois em Nova Iorque, dois em Taipé, dois em Las Vegas, um em Banquecoque, um em Macau, um em Montreal e outro em Xangai). Nunca tento combinar mais do que três sabores diferentes no mesmo prato.”

Segundo “Le Figaro”, que fala de Joël Robuchon como um “génio da gastronomia”, era um dos mais famosos chefs do país e mudou a cozinha francesa quando trouxe um novo conceito de cozinhar, servir e satisfazer quem queria provar a sua comida. Inspirado pelas viagens ao Japão, nos bares de tapas espanhóis surgiu o “Atelier”, onde a cozinha está aos olhos dos clientes e cada um dos processos pode ser observado. “Uma cozinha que oferece produtos de qualidade num espírito de convívio”, descreve a página do chef. Estava farto da alta cozinha, das técnicas complexas e da exaustão do dia-a-dia, escreve o jornal “El País”. Assim, em 2003, abria em Paris o primeiro “L`Atelier de Joël Robuchon”.

“Procurava uma fórmula que unisse clientes e cozinheiros.” Não havia reservas e, por isso, à porta a fila era sempre longa.

Aos 29 anos liderava uma cozinha com 90 cozinheiros

Quando Robuchon começou a usar a jaqueta preta, ainda não era normal fazê-lo. Para completar, usava quase sempre uns ténis vermelhos. Aos 29 anos, assumiu pela primeira vez a liderança de uma cozinha, onde tinha 90 cozinheiros sob sua ordem.

“O seu profissionalismo, rigor, segurança e criatividade trouxeram-lhe uma bonita reputação”, lê-se na sua biografia. Meia dúzia de anos depois - e já distinguido com estrelas Michelin - Robuchon abre o primeiro restaurante, o “Jamin”. “Recebeu a primeira estrela, no ano seguinte a segunda e no ano depois desse, a terceira. Três anos, três estrelas, um feito nunca antes visto na gastronomia.”

Ao longo dos anos, o sucesso como chef e empresário continuou. Quando fez anos disse-se cansado e começou a planear a reforma. Mas isso não viria a acontecer e no final dos anos 90 estreou um programa de televisão que bateu recordes de audiência e longevidade. Queria que a arte de cozinhar fosse acessível a qualquer um. Publicou livros e até converteu um mosteiro da cidade onde nasceu (a 7 de abril de 1945 em Poitiers, no centro de França e a cerca de 350 km de Paris) numa escola de culinária.

“Quando era novo, diziam-me que no futuro iríamos tomar um comprimido e nunca mais teríamos de comer. Isso nunca vai acontecer.” Nos últimos tempos, também influenciado pelo diagnóstico de cancro, procurou aprender com cientistas e nutricionistas. Queria comer melhor e dar a comer também melhor. “Perdi imenso peso em quatro meses a comer maravilhosamente. Comer de forma saudável é o futuro”, afirmava ao jornal “The Guardian” numa entrevista em 2017. Menos açúcar, menos gorduras e também carne e peixe em menor quantidade. Os vegetais e a cozinha a vapor ganharam protagonismo nas suas escolhas.

No final do ano passado, estavam previstas as inaugurações de uma série de novos restaurantes, que não se concretizaram.