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Legalização do aborto fratura argentinos e afasta Papa do Presidente

Manifestantes pró-legalização em Buenos Aires

EITAN ABRAMOVICH

Na próxima quarta-feira, o Senado vai votar a lei de interrupção da gravidez. Manifestantes estão na rua

Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires 

A legalização do aborto na Argentina está a dividir a sociedade em três blocos, praticamente iguais: de um lado estão os que votam a favor, do outro os que votam contra; acresce que a coligação do governo também está dividida, que os dois argentinos que neste momento são Chefes de Estado — ou seja o Presidente Mauricio Macri e o Papa Francisco — estão em rota de colisão, apesar de ambos serem contra o aborto.

Na terra do Papa, a divisão de pensamento sobre o aborto estende-se ao Senado, e o desenlace é incerto. Na próxima quarta-feira, dia 8, o plenário estará dividido no momento de votar; mas haverá uma leve tendência à rejeição da lei, graças aos representantes no Parlamento de províncias mais conservadoras sob forte influência da Igreja.

Dos 72 senadores, 35 já se manifestaram contra, enquanto 31 garantem que votam a favor. Uma senadora deverá optar pela abstenção e outra deve faltar. Os quatro que faltam estão indecisos. Se a votação terminar empatada, a lei será rejeitada porque a responsável pelo desempate, a vice-presidente da República e presidente do Senado, Gabriela Michetti, é militante do “Não”.

Apesar das intenções de voto que já foram expressas, não se descartam surpresas, a exemplo do que aconteceu com a meia sanção na Câmara de Deputados, a 14 de junho, quando tudo indicava que a rejeição à lei tinha sete votos de vantagem, mas o resultado terminou 129 a favor e 125 contra. Para que se repita uma reviravolta nos números, seria necessário flexibilizar o projeto.

Do lado de fora do Parlamento, desfilam diariamente milhares de pessoas em manifestações intercaladas a favor e contra. Quem está a favor leva lenços verdes sob o lema de “aborto legal, seguro e gratuito”. Quem está contra, os denominados “pró-vida”, usa lenços azuis e defendem o lema “salvemos as duas vidas”, fintando o argumento de que o aborto clandestino mata.

“O único argumento que preciso é que estamos matando uma vida”, diz ao Expresso Cecilia Fernández, mãe de seis filhos. “Essa criança, seja como for que tenha sido concebida, tem direito a nascer. Pode ser dada em adoção. Todos os que falam em retirar-lhe a vida”, fazem-no porque já “nasceram”.

Na posição oposta, a advogada e militante Valeria Crespo rebate: “É uma questão de saúde pública. Não queremos que haja mais mulheres mortas por abortos clandestinos. Queremos que a mulher possa decidir sobre o seu corpo.

Tensão entre 
Governo e Papa

A lei vai ser votada no Parlamento [que é soberano nesta matéria], mas a Igreja argentina culpa o Presidente Mauricio Macri por ter aberto esta porta, orientando os deputados afetos ao Governo para resolverem o assunto. Macri diz-se contra o aborto e a favor da vida, mas defende o direito das mulheres decidirem o que querem fazer. O Presidente disse que deixaria os legisladores livres de qualquer pressão, mas a Igreja desconfia que o Governo agiu a favor da aprovação da lei do aborto na votação final, quando a iniciativa rumava a uma derrota.

Para a ex-senadora María Eugenia Estenssoro, “o Papa declarou a guerra política ao governo Macri por ter aberto essa porta”. E o jornalista argentino, Sergio Rubin, biógrafo do Papa, autor do livro “O Jesuíta” é perentório: “Uma aprovação do aborto vai criar problemas ao Papa dentro do Vaticano.”

Mas “o que mais afeta a Francisco é a sensação de estar a perder a batalha cultural. O avanço do aborto legal na Irlanda, e agora no seu próprio país, são péssimos para a intenção que tem de combater o liberalismo económico, e fortalecer o catolicismo”, diz o sociólogo e analista político argentino, Marcos Novaro.

Membros da coligação governamental e analistas políticos afirmam que Macri só permitiu o debate porque sabia que o aborto seria derrotado na Câmara de Deputados. A Igreja também acreditou nessa premissa que entretanto acabou por não se verificar.

Outro erro do Papa foi nunca ter vindo à Argentina, apesar das quatro viagens aos países vizinhos. No Vaticano, Francisco já recebeu o Presidente Mauricio Macri por duas vezes, mas manteve-se frio e distante, ao contrário do que aconteceu quando recebeu os opositores de Macri.

“Se há alguém que fez por impulsionar o debate do aborto na Argentina é o Papa. Se ele tivesse visitado a Argentina, teria sido muito mais difícil para Macri habilitar o debate. Se ele não tivesse apoiado o populismo mais radicalizado, o peronismo de esquerda e os seus aliados, esses parlamentares hoje não teriam a autoridade moral para votar de forma coesa a favor do aborto. E os peronistas moderados teriam um pouco mais de ânimo para se oporem ao aborto. Pelo contrário, hoje são os promotores da lei no Senado”, explica Marcos Novaro.

Uma sondagem da consultora Isonomia indica que 47% dos argentinos estão a favor da legalização do aborto, enquanto outros 47% estão contra. Os restantes 6% são indecisos.
Longe do papel de espetador que teve no início, a Igreja apoiou e até incentivou as marchas de organizações civis e religiosas como as que acontecem neste fim de semana em vários pontos do país. Sacerdotes celebram a Missa pela Vida e convocam os fiéis para se manifestarem publicamente contra o aborto. São muitos os que interpretam essas duras homilias como uma ordem direta do Papa.