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Internacional

À espera da guilhotina de Donald Trump

O rial não para de desvalorizar. Para comprar um dólar é preciso um maço deles

FOTO REUTERS

Enquanto Teerão não negociar um novo acordo sobre o programa nuclear, os EUA vão “bombardear” o país com sanções. O primeiro grande pacote entra em vigor para a semana

Margarida Mota

Jornalista

A temperatura está alta em Teerão. Não apenas aquela que os termómetros acusam — e que, por estes dias, na capital iraniana, tem-se mantido constante à volta dos 40 graus Celsius —, mas também a dos corredores políticos. As sanções contra o Irão reintroduzidas por Donald Trump, após retirar os Estados Unidos do acordo internacional sobre o programa nuclear do Irão (JCPOA), a 8 de maio, estão a levar os sectores mais conservadores da República Islâmica a questionar a utilidade do diálogo com o Ocidente, e com isso a pressionar o regime no sentido de uma rutura.

Na próxima segunda-feira, 90 dias após Washington ter “saltado fora” do JCPOA exigindo a negociação de um novo acordo, entra em vigor o primeiro grande pacote de sanções. Entre os bens penalizados estão o ouro e os metais preciosos, grafite, carvão e aço, “software” industrial, tapetes e alimentos made in Iran. Os EUA vão também punir a compra de dólares por parte de Teerão.

Mais 90 dias depois, a 4 de novembro — a dois dias das importantes eleições intercalares nos EUA, em que estarão em causa os 435 lugares na Câmara dos Representantes e 35 dos 100 senadores —, a guilhotina norte-americana voltará a cair, dessa vez sobre o estratégico sector petrolífero iraniano.

França pede permissão aos EUA

Cada período de 90 dias visa dar tempo às empresas que tenham negócios com o Irão para que encerrem essas atividades e procurem alternativas. Em causa estão não apenas sociedades norte-americanas mas toda e qualquer empresa estrangeira que tenha uma relação comercial com o Irão e que, se não acatar a ordem de Trump, poderá sofrer retaliações por parte de Washington.

A Turquia já fez saber que não irá obedecer aos ditames dos EUA (ver texto ao lado). E a União Europeia — que está ao lado do Irão nos esforços para garantir a sobrevivência do acordo nuclear de 2015 — tenta cerrar fileiras em torno das empresas europeias que queiram investir no Irão. A 16 de julho, o Conselho Europeu atualizou o chamado “estatuto de bloqueio” que neutraliza os efeitos das sanções americanas sobre as empresas da UE.

Na prática, tudo é, porém, sempre mais complicado de concretizar. “Tenho esperança que os EUA nos autorizem a entregar ao Irão os [aviões] ATR. Há oito previstos para serem entregues antes de 6 de agosto”, dizia, na quarta-feira, Bruno Le Maire, ministro das Finanças de França.

Ingerência iraniana é cara

Dentro de portas, a degradação económica é um sintoma crescente nas casas da classe média. Nos últimos seis meses, o rial desvalorizou 120% e, esta semana, deu mais um trambolhão: no mercado não oficial, para comprar um dólar havia que desembolsar 111.500 rials.

A 25 de junho, em protesto contra a subida dos preços, o Grande Bazar de Teerão, por tradição um barómetro da (in)satisfação popular em relação à economia do país, fechou portas em greve. Esta semana, o centro do desagrado em relação ao custo de vida foi a cidade histórica de Isfahan (centro), com milhares de comerciantes, agricultores e camionistas a substituírem o dia de trabalho por um dia de protesto.

“Não a Gaza, não ao Líbano, a minha vida pelo Irão”, escutou-se em Isfahan. O slogan visa diretamente a política externa da República — e o sonho do ayatollah Khomeini de exportar a Revolução —, que muito pesa no erário público. Hoje, o Irão está presente e atuante em vários países vizinhos, alguns deles em situação de conflito: no Líbano (através do Hezbollah), na Síria (ao lado da Rússia, em defesa do Presidente Bashar al-Assad), no Iraque (onde a guerra desencadeada por George W. Bush catapultou a maioria xiita para o poder), na Palestina (contra Israel, através do apoio a grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica), no Iémen (municiando os rebeldes huthis contra o poder reconhecido internacionalmente, aliado da rival Arábia Saudita).

Essa teia de influências confere trunfos a Teerão que pode usar em contextos de aperto, como o atual. A três meses de ver as suas exportações de petróleo sofrerem um duro golpe (por causa das sanções previstas para novembro), Hassan Rohani levantou o véu sobre uma possível retaliação. “A República Islâmica nunca procurou tensões na região e não quer problemas nas grandes vias navegáveis, mas não vai abdicar facilmente do seu direito de exportar petróleo”, alertou, na terça-feira.

Implícito nas palavras do Presidente do Irão está a possibilidade de o país encerrar o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 30% do petróleo mundial transportado por via marítima — e, com isso, lançar o caos no trânsito de petroleiros pelo Golfo Pérsico. “O Irão tem sido, desde sempre, o garante da segurança desse Estreito. Não brinque com o fogo, você vai arrepender-se”, acrescentou, dirigindo-se a Trump.

Batalha naval

No dia seguinte, uma batalha naval começava a ganhar forma no Médio Oriente com a entrada “no debate” do primeiro-ministro de Israel. “Se o Irão tentar bloquear o Estreito de Bab al-Mandeb, estou certo de que será confrontado por uma coligação internacional determinada em impedi-lo”, alertou Benjamin Netanyahu. “E essa coligação incluirá todos os ramos militares de Israel.”

Com apenas 29 quilómetros de largura — entre o Iémen e o Corno de África (Djibuti e Eritreia) —, este outro estreito liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e é a principal rota marítima entre o Médio Oriente e a Europa. O “fantasma” do Irão sobre esta via decorre de ataques huthis (aliados do Irão), na semana passada, contra um petroleiro e um navio de guerra sauditas, que levaram Riade a suspender o envio de remessas de petróleo através daquela via — em 2016, foram escoados por ali 4,8 milhões de barris de crude diariamente.