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Recrutamento de espiões desertores está mais difícil mas continua a ser essencial para as secretas norte-americanas

O recrutamento de desertores ainda é uma da smais importantes fontes de informação para as secretas norte-americanas

Central Press/Getty

Os Estados Unidos continuam a receber espiões desertores de outros países e estes continuam a ser centrais na recolha de informação das agências de informações norte-americanas mas é mais difícil proteger estas pessoas na era das redes sociais, onde já ninguém se pode esconder à vista de todos como antigamente

Voltou-se a falar de espiões, que, por definição, são pessoas que não se apresentam como tal. O alegado conluio da equipa de Donald Trump com russos próximos do Kremlin, o caso de Maria Butina, uma jovem russa atualmente à espera de julgamento nos Estados Unidos por suspeitas de espionagem leal à Rússia e a tentativa de envenenamento do ex-espião russo Sergei Skipral e da sua filha, Yulia, no Reino Unido, têm trazido este mundo opaco à análise de alguns ex-agentes dos serviços secretos norte-americanos, inimigos antigos dos congéneres da Rússia.

O recrutamento de espiões de outros países sempre foi uma parte central de todo o trabalho da CIA - durante a Guerra Fria e não menos hoje em dia. Por um lado, há um esforço permanente dos Serviços Secretos para entender quem, de todos os trabalhadores em embaixadas, serviços públicos, universidades, laboratórios médicos, pode estar a passar informação secreta a outros países. No caso dos Estados Unidos, as preocupações recaem principalmente sobre indívíduos iranianos, chineses ou russos mas, segundo os próprios, não apenas sobre cidadãos desses países.

Na quinta-feira soube-se do caso uma agente russa, funcionária na embaixada norte-americana em Moscovo que pode ter passado informação confidencial aos Serviços Secretos russos durante mais de 10 anos. Em resposta, fontes da intelligentsia norte-americana disseram que o foco das autoridades norte-americanas quando investigam estes casos não é a Rússia, nem outro qualquer país e que a mulher, ainda não identificada, não tinha acesso a nenhuma informação que pudesse prejudicar a segurança nacional.

Como num livro de John Le Carré

A recente prisão de Maria Butina, cidadã russa de 29 anos detida sob a suspeita de espiar para os russos (o que nega), voltou a colocar a questão do perigo da infiltração de cidadãos estrangeiros nas estruturas do poder norte-americano nas páginas dos jornais.

Depois há a outra face da moeda: recolher desertores ou incentivar a deserção, coisa que também ainda se faz, apesar de fazer parte de uma memória coletiva de adaptações cinematográficas dos livros de John Le Carré. A CNN relembra, num artigo publicado esta sexta-feira, algumas dessas histórias. Uma das mais conhecidas é a de Alexander Zaporozhsky, um ex-agente do KGB, que regressou à Rússia depois de ter desertado para os Estados Unidos apenas para ser preso na Sibéria, em 2001, por ligações ao Ocidente. Zaporozhsky tinha dado às secretas norte-americanas informações que levaram à captura de Robert Hanssen, um agente do FBI que de facto espiava em favor dos russos.

Em 2010, Zaporozhsky regressou aos Estados Unidos como parte de uma troca de espiões entre a Rússia e os Estados Unidos - leva que trouxe também à Europa Sergei Skipral, o ex-duplo agente envenenado com um agente químico poderoso, o novichok, em março deste ano no Reino Unido. As suspeitas, como não podia deixar de ser, recairam sobre os russos. Apesar de sempre ter negado qualquer envolvimento naquilo que parece ser uma tentativa de assassinato de um seu ex-espião, o Kremlin foi confrontado com a maior expulsão de diplomatas e funcionários deste os tempos da Guerra Fria. Nessa troca, os Estados Unidos libertaram 10 suspeitos de espionagem que, assim, puderam regressar à Rússia.

O problema é que este homens e mulheres se tornam alvos dos países de onde desertaram, uma espécie de troféus e alvo de vinganças. E os riscos não cessam quando essas pessoas chegam aos países onde supostamente estarão em paz. Muito menos agora, que o mundo está sob o impacto da enorme rede que é a internet e muitas vezes com os serviços de localização ligados enquanto se procura, simplesmente, um restaurante para jantar.

Tecnologia torna mais difícil proteger os espiões

À CNN, Joe Augustyn, um ex-recrutador de espiões, disse que as dificuldades só estão maiores: “Dada a tecnologia disponível aos nossos adversários e a dificuldade em nos escondermos mesmo à vista de todos, os desafios que a CIA enfrenta para proteger os espiões nunca foram tão significativos. Proteger estes indivíduos que traíram os seus países para ajudar o nosso é muito mais difícil do que durante a Guerra Fria”.

O programa de proteção de desertores começou em 1949 e a primeira lei aprovava o “repatriamento” de 100 pessoas para os Estados Unidos se isso fosse “no interesse na segurança nacional ou para melhorar os esforços de recolha de informação das agências nacionais de informações”. Há centenas de espiões nos Estados Unidos com novas identidades, empregos, moradas, famílias mas essa readaptação também pode ser um problema, não bastasse a certeza de que os seus países de origem continuam “à caça”.

Muitos espiões mantém-se convencidos do seu poder militar e político, “no fundo da sua invulnerabilidade”, diz Augustyn. E os seus egos, pela mesma razão, tornam-se armas dos seus adversários. Também para as famílias pode ser uma adaptação complicada, com uma nova língua para aprender, novas escolas e relacionamentos. Além disso, nem todos os espiões voltam para trabalhar em profissões bem pagas. Augustyn deu um exemplo de um espião que se fixou nos Estados Unidos e arranjou, como solução profissional, a entrega de pizzas ao domicílio.

O ex-diretor da CIA, Michael Hayden, disse à CNN que os desertores não ajudam apenas com informações “quentes” mas que “também ajudam a entender informação já recolhida mas que os analistas ainda não tinham conseguido decifrar ou entender”.