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Internacional

NRA. A mais poderosa associação de defesa do porte de armas dos EUA em risco de colapso financeiro

Scott Barbour/Getty

A National Rifle Association é um dos mais poderosos grupos de pressão política dos Estados Unidos. Com mais de seis milhões de membros, números da própria NRA, a associação tem vindo a sofrer fortes críticas pela postura inflexíel que demonstra no debate sobre o controlo da posse das armas. A recusa de algumas instituições financeiras e de seguradoras em manter contratos ativos está a a deixar a organização perto do colapso financeiro

Ana França

Ana França

Jornalista

A National Rifle Association (NRA), a maior organização norte-americana de defesa do direito ao uso de armas, está a passar graves dificuldades financeiras e corre o risco de “deixar de existir” ou de “ter que cessar atividades de promoção da sua agenda”, lê-se num documento judicial ao qual a revista “Rolling Stone” teve acesso.

A NRA é um gigante. É um dos maiores financiadores de campanhas de políticos republicanos, tem revistas e canais de televisão, sedes em todo o país e representa os membros de uma das mais importantes indústrias dos Estados Unidos, a das armas. A própria organização diz ter mais de seis milhões de membros e, em 2016, doou cerca de 30 milhões de dólares (cerca de 26 milhões de euros) à campanha de Donald Trump. Alguns críticos das leis permissivas que regulam o porte de armas dizem que o dinheiro que a NRA investe nas candidaturas de alguns deputados e senadores republicanos é precisamente aquilo que impede que os políticos beneficiados, quando chegam ao poder, legislem no sentido de apertar as normas, por medo de ficarem sem financiamento.

Depois do tiroteio em Parkland, na Flórida, em fevereiro deste ano, tudo ficou mais complicado para a NRA. Morreram 17 alunos na liceu de Stoneman Douglas mas os que sobreviveram não se calaram e o assunto não desapareceu da agenmda mediática dado o número elevado de tiroteios escolares que acontecem nos Estados Unidos todos os anos. Minutos de silêncio, marchas em Washington, discursos zangados que culpavam diretamente a classe política pelo desastre e até uma visita ao Presidente Donald Trump. Foram vários os dias em que o desespero daqueles alunos e daqueles pais entrou pelas televisões de todo o mundo. A NRA tornou-se o alvo de notícias, investigações e boicotes à escala nacional - e é aqui que a associação começa a ter que admitir que tem um problema.

Marcas começaram a cortar laços

Marcas tão sonantes como a Hertz, a MetLife, A FedEx ou a cadeia de hóteis Wyndham Worldwide cortaram laços com os sócios da NRA deixando de oferecer descontos a quem apresente o cartão. E vários bancos e seguradoras também estão a terminar os contratos com a associação de defesa do porte de armas, naquilo que constitui a parte mais danosa do boicote para a associação.

Quem está à frente desta espécie de bloqueio comercial à NRA é o governador de Nova Iorque Andrew Cuomo, que não faz segredo da sua oposição às campanhas “pró-armas” que a associação conduz nas centenas de comícios e feiras que realiza todos os anos. Cuomo tem encorajado bancos e seguradoras do estado de Nova Iorque a rever a relação que mantêm com a NRA porque essa colaboração pode ter um impacto na forma como os outros clientes veem as empresas que mantêm relações com esta. Por seu lado, a NRA diz, numa queixa apresentada em tribunal, estar a ser alvo de uma campanha “estatal” de “bloqueio de fundos” à sua atividade e, por este motivo, está a processar o governador.

Sem acesso aos mais básicos serviços bancários, lê-se na queixa da NRA, “será impossível existir como uma organização não-lucrativa e perseguir a nossa missão”. A queixa diz ainda que o governo de Nova Iorque “está a tentar silenciar um dos mais antigos defensores dos direitos constitucionais dos norte-americanos” e avisa que se os abusos deste tipo não forem sancionados, em breve terão sucesso em destruir a associação.

“Boicote” das seguradoras pode ser um golpe fatal

A perda da capacidade de comprar seguros está a mostrar-se particularmente prejudicial às suas operações na medida em que, sem as apólices, a NRA não pode, por exemplo, manter os seus meios de comunicação já que é o seguro que protege todos os meios de comunicação contra queixas de pessoas que se sintam ofendidas com o conteúdo e queixas de difamação, entre outras. Além disso, é difícil manter sucursais abertas sem seguro, como sucede com qualquer loja, tal como os seguros são essenciais para a realização de qualquer digressão, comício, campanha ou evento.

“Sem seguro, a NRA não poderá manter a sua estrutura física, convocar eventos e comícios fora da sua sede, conduzir programas educacionais, organizar convenções, conferências ou assembleias”, lê-se na queixa da NRA. As empresas que estão a deixar de trabalhar com a associação, acrescenta, fazem-no por medo de sanções financeiras ou por receio de investigações públicas.

Esta ação legal surje depois de a NRA ter sido obrigada a pagar sete milhões por vender seguros ilegais aos seus membros, que serviriam para os ressarcir de todos os custos legais se tivessem que se defender caso prejudicassem terceiros ao disparar armas (legais).

Andrew Cuomo disse, num comunicado em resposta à queixa, que esta é só mais uma “fútil e desesperada tentativa da NRA em avançar com a sua perigosa agenda e vender cada vez mais armas”, acrescentando que “em Nova Iorque ninguém se intimida com frívolas acções legais de um grupo de influenciadores políticos que tentam destruir leis de segurança na utilização de armas que são do mais puro senso comum - muitas delas apoiadas pelos seus próprios membros”.