Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Mayor londrino disse que consumir cocaína “em festas da classe média” não é um “crime inocente” e há um estudo que lhe dá razão

RAUL ARBOLEDA/GETTY IMAGES

Estudo divulgado pelo governo britânico aponta para um aumento significativo do consumo de cocaína por pessoas com idades entre 16 e os 24 anos. Especialistas dizem que o problema é transversal a todas as classes sociais e que “mais do que o contexto social, influencia o consumo aquilo que as pessoas fazem no seu tempo livre”

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

O presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, disse há precisamente uma semana que consumir cocaína “em festas da classe média” não é um “crime inocente” e um relatório divulgado recentemente sobre o consumo de droga em Inglaterra e País de Gales dá-lhe razão. Isto porque dá conta de um aumento significativo do consumo por pessoas com idades entre os 16 e os 24 anos, com 6% dos jovens a admitir ter consumido cocaína no ano passado.

No geral, o consumo desta droga subiu de 2,4%, no período entre 2013 e 2014, para 2,6% em 2017/2018, um aumento que, segundo o grupo de especialistas que analisou o relatório a pedido da BBC, explica-se pelo facto de “a cocaína estar cada vez mais disponível, por haver cada vez menos rusgas e apreensões policiais e mais produção”. Ainda assim, são poucos os que a consomem com grande frequência, independentemente da idade - mais de metade dos inquiridos afirmou consumir apenas uma ou duas vezes por ano e 13% disseram fazê-lo mais do que uma vez por mês.

O relatório aponta para que o consumo de cocaína aumente conforme os rendimentos, sendo portanto mais frequente entre aqueles que pertencem à classe média e classe alta. No entanto, e como refere o grupo de especialistas, esse grupo não é assim tão vasto, uma vez que apenas 5,4 milhões da população total do Reino Unido ganha de facto mais de 50 mil libras por ano (cerca de 56 mil euros).

“O consumo é transversal às diferentes classes, sendo mais provável em setores específicos da sociedade e não tanto entre aqueles que têm mais rendimentos”, afirmam os especialistas, referindo que 3,6% da população desempregada admitiu ter consumido cocaína no último ano, bem como 4,2% dos estudantes. No geral, o consumo de cocaína é mais baixo entre as pessoas que nunca trabalharam, que têm menos qualificações e cujo rendimento está entre as 30 mil libras (cerca de 34 mil euros) e as 40 mil libras por ano (cerca de 45 mil euros).

“Mais do que o contexto social, influenciará o consumo de cocaína aquilo que as pessoas fazem no tempo livre. Alguém que visite um bar quatro ou mais vezes por mês tem 10 vezes mais probabilidade de consumir cocaína do que aqueles que não o fazem”, dizem os mesmos especialistas, acrescentando “que todo o tipo de pessoas consomem esta droga”. Ainda de acordo com o relatório, o consumo é mais frequente em zonas descritas como “cosmopolitas” (5,8%) em comparação com regiões descritas como “mais desfavorecidas” (2,6%).

Quando o relatório foi divulgado, Cassidy Dick, chefe da Polícia Metropolitana de Londres, afirmou que “o problema é que há um grupo de pessoas da classe média que se preocupam com o aquecimento global e o comércio justo mas acham que não há problema nenhum em consumir cocaína”, ecoando assim as palavras de Sadiq Khan, “mayor” de Londres, que na sexta-feira passada afirmou que o uso de cocaína em “festas da classe média” está a contribuir para o aumento da violência de gangues nas ruas da capital britânica. Sadiq Khan disse ainda que consumir droga não é um “crime inocente” e afirmou ter provas de que há uma clara ligação entre o consumo desta droga e o aumento da violência.