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Os apoiantes de Trump têm uma nova teoria da conspiração. Quem é "Q" e de onde vem o seu poder?

Um homem veste uma T-shirt com a letra "Q", um sinal de apoio a uma estranha teoria a nascer no centro dos apoiantes de Trump

Joe Raedle/Getty

As teorias da conspiração costumam ser “das franjas”, mas há uma nova a espalhar-se entre os apoiantes mais acérrimos de Donald Trump e que já mereceu análises detalhadas de vários meios de comunicação norte-americanos. Quem acredita em "Q", supostamente alguém com acesso a informação secreta, acredita, por exemplo, que vários democratas são líderes de uma rede mundial de pedofilia e que Trump foi eleito para limpar Washington desses abusadores de crianças

A meio de junho deste ano, um homem armado parou a sua carrinha “pick-up” na barragem de Hoover, na fronteira entre os estados de Nevada e do Arizona, bloqueando o trânsito e exigindo apenas a libertação de informação. “Libertem o relatório da OIG”, dizia o cartaz que exibiu.

O relatório a que se referia Matthew Wright, entretanto a aguardar julgamento por indícios de atos terroristas, já foi publicado. O Departamento de Justiça escreveu um relatório em que critica as ações do FBI durante a investigação aos emails publicados à revelia de Hillary Clinton durante a campanha para as presidenciais de 2016. Quando o relatório saiu, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse imediatamente que o seu conteúdo o “exonerava” de qualquer conluio com os russos - possibilidade que neste momento está a ser investigada por Robert Muller, procurador especial para o caso.

Num vídeo aparentemente gravado dentro da sua carrinha enquanto bloqueava o trânsito, Wright, de apenas 30 anos, demonstra a sua frustração em relação à inércia de Trump no que à quantidade de democratas presos por minuto diz respeito. “Nós, o povo, exigimos a totalidade da informação. Elegemos-te por uma razão. Disseste que ias prender certas pessoas se fosses eleito e ainda não o fizeste. Cumpre o teu julgamento”, diz o jovem.

A única “revelação” que poderia sustentar as acusações dos apoiantes de Trump de que o FBI tenha tentado impedir o atual Presidente de ser eleito é uma mensagem, que consta no relatório, enviada por um agente do FBI, Peter Strzok: “Nós vamos pará-lo”, lê-se.

Fazendo sentido do incompreensível

E é aqui que surge o ou os “Q” e os seus seguidores, os “QAnon”, sigla que entretanto tem aparecido como sinónimo para a teoria da conspiração que deveria ser apenas mais um rodapé nas notícias, mas que se tornou abertura de telejornais quando, no último comício de Donald Trump, pessoas com T-shirts a dizer “Somos Q” apareceram nas câmaras de televisão.

Quem segue esta complicada escola de pensamento acredita que há mais no relatório, mais informação que o público ainda não conhece - e exigem a informação toda que garantem existir. Os subscritores desta teoria dizem que Donald Trump tem na sua posse um outro documento, com acusações sérias aos democratas e com provas concretas de que o FBI, o Departamento de Justiça e pesos-pesados do Partido Democrata, quebraram várias leis na tentativa de impedir Donald Trump de chegar à Casa Branca.

Alguns analistas ligam o surgimento desta teoria a uma necessidade que alguns apoiantes de Trump sentem em retirar algum sentido das acções aparentemente descoordenadas do Presidente, que em muitos aspetos age de forma oposta àquela que é habitual num Presidente. "Q oferece esperança real aos apoiantes de Trump: está tudo bem, Trump tem tudo sob controlo e todos os que se lhe opuserem acabarão na prisão", escreve Jane Coaston na página "Vox"

Fóruns anónimos

Tudo começou em outubro de 2017 quando um anónimo, de seu nome apenas “Q”, começou a escrever publicações em fóruns obscuros na internet - como o 4chan ou o 8chan - dizendo ser um membro da Administração com acesso a informação secreta (daí o “Q”, que se refere a um nível de acesso máximo) e capaz de provar a existência de uma rede criminosa a nível mundial.

Os cabecilhas, segundo “Q”? Hillary Clinton e Barack Obama. Os crimes? A organização de um anel de pedofilia com sedes em vários pontos do globo. Outro crime? Conluio com o Kremlin, por exemplo.

Para os "QAnon" - "Anon vem de "Anónimos" - o procurador especial Robert Mueller não está de facto a investigar se houve ou não conluio danoso para a democracia norte-americana entre membros da equipa de campanha de Donald Trump e russos com ligações ao Kremlin, mas sim os crimes de Clinton, Obama e outros democratas, como John Podesta, ex-diretor de campanha de Hillary Clinton, cujos e-mails foram publicados pela página WikiLeaks e mostram um suposto democrata com pouco interesse pelos problemas das pessoas e muito mais próximo da alta finança e dos jantares em resorts.

Estas pistas, apropriadamente apelidadas de “migalhas” pelos seguidores de “Q”, parecem levar à conclusão de que Trump controla de facto tudo à sua volta e até conseguiu pôr toda a gente a falar de uma investigação que de facto se debruça sobre os seus oponentes e não sobre si mesmo.

Supostamente, a completa extensão dos crimes dos democratas será revelada em breve e todos os prevaricadores serão enviados para a prisão num evento a que os conspiradores chamam “a tempestade” - uma referência a um comentário de Trump durante uma reunião com altas patentes militares e que deixou toda a gente a pensar qual seria a tempestade que Trump estaria a cozinhar com os mais altos membros do Exército.

É que quem segue “Q” está convencido que os militares estão do lado de Trump e foram eles que levaram Trump à Casa Branca porque só o multimilionário poderia limpar esta ampla rede criminosa encabeçada por figuras do Partido Democrata.

Porque é que esta teoria pode ser perigosa?

O ou a “Q” já tentou provar que tem de facto acesso a informação real. Recentemente, a conta referente a “Q” publicou, no Twitter, imagens que alegadamente confirmam a sua presença no avião do Presidente, o Air Force One. Alguns seguidores acreditam que “Q” é Trump, enquanto outros acham que John Kennedy Jr fingiu a sua morte em 1999 e que, de facto, é ele que é “Q”.

As migalhas do “Q” estão algures entre a poesia profundamente abstrata e aqueles bilhetes a pedir um resgate que aparecem nas séries policiais. Eis um exemplo, na tradução possível:

Modo de ataque ativado (força bruta)

Falsa narrativa de violência

Pergunta-te a ti mesmo: “Porquê?”

Goza do espectáculo

Q

Há vários exemplos igualmente crípticos aos quais os utilizadores do Twitter e dos próprios fóruns entregam incontáveis horas do seu dia, mas o que tem chamado a atenção das autoridades não são estas mensagens - já que é impossível saber se “Q” é ou não membro da Administração ou um tipo com muito tempo e muita frustração acumulada - mas sim os episódios da vida real inspirados por estas teorias.

Em Abril, centenas de pessoas reuniram-se em Washington exigindo “transparência” ao Departamento da Justiça e dizendo adorar "Nunes", David Nunes, o republicano lusodescendente próximo de Trump. Muitas envergavam T-shirts com a letra “Q”.

Em dezembro de 2016, Edgar Maddison Welch, de 28 anos, dirigiu-se a uma pizzaria em Washington - a Comet Ping Pong - pedindo a imediata libertação dos escravos sexuais ali presos. Estranho? Sim. Mas, uns dias antes, centenas de pessoas partilharam a suspeita de que, entre as palavras escritas por John Podesta nos emails libertados pelo WikiLeaks, estava de facto a prova da existência de um anel de pedofilia que alegadamente funcionava na localização da pizzaria. Welch disparou contra o estabelecimento três rajadas de balas, mas ninguém ficou ferido.