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Moscovo diz ser absurdo ligar assassínio de jornalistas russos na RCA a mercenários

Moscovo não esconde a presença de instrutores militares russos na zona, garante o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo

O Governo da Rússia afirmou nesta quarta-feira que é absurdo ligar o assassinato dos três jornalistas russos na República Centro-Africana à presença de mercenários russos no país, lembrando que Moscovo não esconde a presença de instrutores militares russos na zona.

"Não há nenhuma novidade na presença de instrutores militares russos na República Centro-Africana (RCA). Nada que tenha sido ocultado", escreveu a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, na rede social Facebook, pouco depois da confirmação da morte dos três russos na RCA.

A porta-voz não clarificou se os instrutores militares a que se referia pertenciam a uma companhia militar privada como o Grupo Wagner, que, de acordo com ativistas russos, foi criada durante o conflito no leste da Ucrânia e que também atuou na Síria.

O jornalista russo Orhan Dzhemal, o repórter de imagem Kirill Radtchenko e o documentarista Alexandre Rasstorgouïev foram encontrados mortos na segunda-feira, perto de Sibut, cidade localizada 300 quilómetros a norte de Bangui, capital da RCA. Vários jornalistas russos amigos dos falecidos, a mulher de Dzhemal e um centro de investigações que colaborava com as vítimas, confirmaram que o objetivo da viagem dos três era gravar um documentário sobre mercenários russos que combatem no país.

Dzhemal "ia fazer um documentário sobre os Wagner", disse o repórter Maxim Shevchenko ao jornal da oposição Novaya Gazeta, conhecido pelas investigações regulares sobre o grupo de mercenários.

No passado mês de fevereiro, Ruslan Leviev, diretor de um grupo que investiga as campanhas militares russas desde 2014, declarou à agência espanhola Efe que o grupo Wagner "é, na realidade, uma unidade criada e financiada pelo Governo russo".

A versão que as autoridades da RCA apontam como mais provável até agora, aponta que o assassinato não estava relacionado com a atividade profissional das vítimas, que os analistas russos consideram ser mais o mais viável. De acordo com uma nota dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o porta-voz do Governo da RCA, Ange Maxime Kazagui, disse que "nove sequestradores que não falam francês ou sango (língua franca do país)", confiscaram o veículo dos jornalistas a 23 quilómetros de Sibut, pouco antes de os executar a tiro.

O Governo da RCA soube destes factos através do testemunho do motorista dos três jornalistas, que conseguiu escapar, apesar dos ferimentos que sofreu. O portal de investigação na Internet TsOuR - cujo proprietário é o ex-magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, um dos principais adversários do Presidente russo, Vladimir Putin - confirmou ter pedido um documentário aos três jornalistas.

Os RSF pediram hoje às autoridades do país e às autoridades russas uma investigação "séria" para identificar os autores do triplo assassínio. As autoridades russas na RCA confirmaram que os jornalistas viajaram com visto de turista e não comunicaram à embaixada russa em Bangui sobre o propósito da viagem.
"Sobre o objetivo da viagem, deve responder quem os enviou para lá (...) O que faziam na realidade na RCA e quais os seus objetivos é uma questão aberta", assinalou Zakharova.

Os RSF denunciaram o "reforço considerável" da presença militar de Moscovo na RCA desde a retirada do exército francês em outubro de 2016 e enfatiza que os militares russos se ocupam da segurança do Presidente Faustin-Archange Touadéra. O exército russo também oferece formação para as forças armadas da RCA e o Governo de Putin entregou-lhes "importantes suprimentos de armas" entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2018, em pleno conflito interno, que sucede desde 2013, segundo os RSF.