Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Jornalistas mortos na República Centro-Africana investigavam empresa russa Wagner

Mikhail Khodorkovsky

Matej Divizna/Getty

Os três jornalistas russos trabalhavam para o Centro de Gestão de Investigações, um projeto lançado pelo ex-oligarca e oposicionista russo no exílio, Mikhail Khodorkovsky

Os três jornalistas russos assassinados na República Centro Africana investigavam a presença da Wagner, empresa paramilitar russa, no país, disse nesta quarta-feira o organismo de investigação financiado por Mikhail Khodorkovski. De acordo com fontes ligadas às autoridades da Rússia e da República Centro Africana, o repórter Orkhan Djemal, o documentarista Alexandre Rastorgouiev e o repórter de imagem Kiril Radtchenko, foram assassinados, segunda-feira à noite, perto de Sibut por homens armados.

Os três jornalistas russos trabalhavam para o Centro de Gestão de Investigações, um projeto lançado pelo ex-oligarca e oposicionista russo no exílio, Mikhail Khodorkovsky. Os três homens "foram enviados no dia 27 de julho para a República Centro Africana para captar imagens das atividades da empresa privada Wagner no país", explica hoje o organismo de investigação através da página que mantém na rede social Facebook.

O grupo Wagner foi criado pelo russo Dmitri Outkine, antigo oficial do GRU, serviços secretos militares da Rússia. De acordo com a imprensa ucraniana, a Wagner que não está legalizada porque as empresas militares privadas são proibidas na Rússia esteve muito ativa na Ucrânia, onde terá apoiado os separatistas pró-russos, em 2014. As atividades da Wagner foram também detetadas no conflito sírio, desde 2015, onde as forças regulares russas apoiam o regime de Damasco.

A France Presse refere que, de acordo com especialistas, a Wagner é composta por milhares de mercenários que desempenham um papel relevante nas operações militares de Moscovo na Síria tendo participado nomeadamente na reconquista da cidade de Palmira. As mesmas fontes indicam que muitos dos elementos da Wagner integraram o Exército russo passando depois a servir interesses privados.

O grupo Wagner foi referido no passado mês de fevereiro pela Administração norte-americana que anunciou ter abatido uma centena de combatentes que apoiavam o regime de Damasco na região síria de Deir Ezzor em resposta contra um ataque ao quartel-general dos combatentes curdos e sírios apoiados pelos Estados Unidos.

Na altura e após alguns dias de silêncio, Moscovo reconheceu que no ataque morreram cinco cidadãos russos e que "dezenas tinham ficado feridos" sublinhando que eram "aliados" que se encontravam na Síria por iniciativa própria.

A imprensa publicou um balanço de mortos diferente daquele que foi anunciado por Moscovo, tendo algumas notícias indicado que morreram pelo menos 200 elementos da Wagner na Síria. Evegueni Prigojine é o empresário russo identificado como principal financiador da Wagner e é apontado como próximo do presidente Vladimir Putin.

Prigojine fez fortuna no setor da restauração antes dos contratos que estabeleceu com o Exército e vários serviços da administração de Moscovo. Atualmente, o empresário é apontado pela justiça dos Estados Unidos pelas alegadas ligações às empresas tecnológicas envolvidas nas supostas operações informáticas através da internet que beneficiaram a candidatura de Donald Trump nas eleições para a presidência norte-americana, em 2016.

Na cadeia de televisão Dojd, Anastasia Gorchkova, redatora chefe do centro de gestão de investigação (financiado por Khodorkovsky) disse hoje que os três jornalistas russos foram assassinados depois de terem tentado, no domingo, aceder a uma base militar onde se encontravam mercenários da Wagner. O acesso ao local terá sido recusado porque os jornalistas não eram portadores das autorizações do Ministério da Defesa da República Centro Africana.

A porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, disse que os três homens não tinham informado as autoridades de Moscovo sobre a deslocação à República Centro Africana. "Esta viagem tinha sido declarada como turística", disse Zakharova ao canal de televisão Rússia 24.

No início de 2018, a Rússia enviou instrutores militares para República Centro Africana e que asseguram também a segurança do presidente Faustin-Archange Touadéra, que tem um conselheiro russo. Por outro lado, Moscovo tentou obter autorizações para vendar armas ao governo da República Centro Africana.

Oficialmente, o programa militar russo visa o reforço de um Exército que se encontra em grandes dificuldades num país onde a maior parte do território é controlado por grupos armados.