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A Coreia do Norte enviou de volta restos mortais de soldados norte-americanos. Como é que os cientistas sabem quem é quem?

A Coreia do Norte entregou 55 corpos aos Estados Unidos que serão agora analisados para comprovar que são de facto soldados norte-americanos mortos durante a Guerra da Coreia

Getty Images

A Coreia do Norte aceitou enviar de volta aos Estados Unidos os corpos de 55 soldados norte-americanos mortos na Guerra da Coreia. Ainda estarão em solo norte-coreano outros 5.300 e há quem espere há décadas por notícias dos seus familiares. Segue-se o complexo trabalho de identificação dos restos mortais, que pode levar vários anos

A Coreia do Norte enviou para os Estados Unidos 55 caixões que alegadamente contêm os restos mortais de soldados norte-americanos mortos durante a Guerra da Coreia. Neste momento estão a caminho do Hawai, depois de terem sido expedidos na Coreia do Sul e de um exame prévio, realizado por um patologista forense, parece indicar que os restos mortais “pertencem de facto a americanos”, escreve a BBC.

Mas a análise aos corpos pode demorar anos e são vários os passos necessários até se saber, sem qualquer dúvida, a quem pertencem os cadáveres. Há famílias norte-americanas que esperam há várias décadas pelo regresso dos seus entes queridos. Pelo menos 5,300 soldados norte-americanos ainda estarão na Coreia do Norte.

A televisão norte-americana CNN diz que alguns responsáveis do Exército norte-americano já fizeram uma “análise prévia” dos restos mortais e, para já, não têm razões para duvidar de que saerão, de facto, os de 55 soldados norte-americanos. Mas a Coreia do Norte já anteriormente tinha enviado de volta o corpo de um britânico que depois se provou ser o de um animal.

Agora, os especialistas deverão olhar com mais atenção para os restos mortais que estão a caminho do Hawai, onde está sediado o maior laboratório de análise antropológica forense e onde já antes se analisaram os cadáveres de soldados mortos durante a Guerra do Vietname, Guerra da Coreia e Segunda Guerra Mundial.

Faltam amostras de ADN para 99% dos casos e o processo será demorado e complexo. Primeiro, os antropólogos forenses irão começar por realizar perfis biológicos a partir dos esqueletos. A consistência óssea humana pode dar-lhes pistas sobre os antepassados, sexo, idade e altura. À BBC, Helen Langstaff, antropóloga forense da Universidade de Dundee, disse que “uma das formas de determinar de onde são provenientes os soldados é através da análise do tamanho do crânio”. Também a largura da pélvis pode “ajudar a determinar o sexo” e “o tamanho dos ossos dos braços e pernas servirá para aferir a altura de uma pessoa”.

Mas os níveis de expectativa estão controlados porque, em outras ocasiões, os restos mortais libertados pelo regime norte-coreano acabaram por não corresponder ao que tinha sido inicialmente acordado.

O regresso dos soldados foi um dos pontos acordados entre o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, quando se encontraram em junho, em Singapura. Um dos outros pontos do documento foi a progressiva desnuclearização da Coreia do Norte, mas esta semana surgiram notícias de que o regime pode estar a reforçar os seus arsenais balísticos.

“Não temos razão para duvidar, para já, de que estes sejam mesmo os restos mortais dos soldados perdidos na Guerra da Coreia", disse John Byrd, um antropólogo forense a trabalhar na identificação dos cadáveres. Mas, apesar disso, apenas um dos 55 corpos trazia uma identificação e Byrd confirmou que a família desse soldado já foi notificada - isto apesar de ser demasiado cedo para saber se aquela chapa de facto corresponde àquele corpo. Vários especialistas concordam que pode demorar anos até que todos os soldados sejam identificados. Ao todo, foram 326 mil os norte-americanos que combateram ao lado das tropas sul-coreanas e das forças da NATO contra o Norte. Desses, 33 mil continuam desaparecidos, presumivelmente mortos.

Entre 1990 e 2005, foram devolvidos aos Estados Unidos 229 corpos, mas quando os problemas com o programa de desenvolvimento de armas nucleares por parte do regime norte-coreano se agravaram, as relações entraram numa fase de gelo e a cooperação nessa área também acabou.

Outro caminho é o de procurar por “identificadores específicos” de cada pessoa como por exemplo os dentes, marcas de cirurgias, cicatrizes ou ossos partidos. Depois de identificadas estas “marcas” é preciso ir procurar registos de dentistas e outros documentos como raios-x, para entender a quem pertencem. Neste caso, o problema é o de aceder a estes registos, meio século depois de terem sido produzidos, quase todos à mão.

A análise de ADN é também uma ferramenta disponível mas o próprio processo de fazer equivaler material biológico com marcadores genéticos é relativamente novo e há vários fatores que podem dificultar essa identificação. Idealmente, o ADN deve ser retirado de zonas do corpo que não tenham estado em contacto com outros elementos, por exemplo o solo, o que é possível neste caso. Vários corpos enterrados juntos também podem provocar contaminação e, neste caso, será mais difícil retirar material “puro” para análise.

“Podemos encontrar ossos em perfeita condição com milhares de anos e depois outros que só estiveram uma década em contacto com o solo e estão deteriorados. Depende do solo, se for acídico por exemplo, vamos ter apenas pequenas farpas que são muito frágeis”, disse Langstaff.