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Thiago foi separado da mãe na fronteira do Novo México. Voltou diferente para casa

O menino de cinco anos, filho de mãe brasileira, esteve 50 dias longe de Ana Carolina Fernandes, que foi detida pela polícia de fronteira. Foi uma das quase 3.000 crianças separadas dos familiares por causa da política migratória “zero tolerência” de Donald Trump. Entre as que foram entretanto reunidas, muitas mostram sinais de ansiedade e trauma

Thiago esteve 50 dias separado da mãe, mas não a recebeu com euforia quando a voltou a encontrar. Pelo contrário, manteve-se impávido no aeroporto, junto à zona de recolha de bagagens, quando Ana Carolina Fernandes correu para o abraçar, com lágrimas nos olhos e o coração a bater descompassado. Como muitas outras crianças migrantes, separadas dos pais na fronteira, ao abrigo da política norte-americana de “zero tolerância” defendida por Donald Trump, o menino de cinco anos evidencia sinais compatíveis com as típicas sequelas de quem viveu uma experiência traumática. Se vão ou não passar, é uma questão, por enquanto, sem resposta.

Ao “The New York Times” a mãe constatou apenas as marcas deixadas pelo período em que os dois foram forçados à separação, contando a sua história. Detidos pela polícia na fonteira do Novo México, no dia 22 de maio, a mulher, brasileira, foi informada no dia seguinte que teria de entregar o filho, que lhe foi tirado dos braços, ensonado e num pranto. Outro menino teve um ataque de pânico e teve de ser hospitalizado, contou também Ana Carolina.

Thiago foi então enviado para um abrigo e posteriormente colocado ao cuidado de uma família de acolhimento, em Los Angeles.

A mãe foi transferida para uma prisão federal, de onde saiu semanas depois, no dia 10 de junho, quando provou ter familiares nos Estados Unidos. Rumou para junto deles, em Filadélfia, e a primeira coisa que fez foi ligar para o número gratuito que lhe tinha sido fornecido, para saber do paradeiro de Thiago. Para o conseguir ter de volta, valeu-lhe a ajuda de um advogado de Boston, mas o reencontro só aconteceu no dia 13 de julho.

Ansiedade, regressão e outras dificuldades emocionais

Os dois dão agora os primeiros passos para o que esperam ser uma nova vida, mas Thiago voltou diferente, mais calado, introvertido e temperamental. Tornou a querer beber leite num biberão, deixou de gostar de brincar com as miniaturas dos ‘minions’ - que adorava - e refugia-se muitas vezes no sofá para não ter de interagir com ninguém. Reage, sobretudo, muito mal à ausência da mãe, mesmo que ela apenas saia da sala por breves momentos.

Tanto os especialistas em psicologia infantil, como os voluntários a trabalhar junto dos migrantes afetados pelas separações (quase 3.000 crianças foram retiradas aos familiares) reconhecem estes comportamentos. Mesmo depois de as famílias estarem juntas de novo, persistem nos miúdos sinais de ansiedade, regressão e outros sintomas reveladores de dificuldades emocionais, disse ao “The New York Times” Joanna Franchini, coordenadora de rede nacional de voluntariado da associação Togheter & Free.

O facto de serem expostos a uma experiência traumática em tão tenra idade agrava as consequências, dizem os estudos sobre esta matéria, sublinhando os pedopsiquiatras que há muitas crianças que acabam por assimilar as separações deste género como um castigo. Pode parecer que o afastamento não foi muito longo, mas “nestas circunstâncias parecerá que durou uma eternidade. A maior ameaça ao bem estar de uma criança pequena é ser privada do seu principal cuidador”, afirmou ao mesmo jornal a professora de psicologia da Universidade de Houston, Johanna Bick.

A boa notícia é que as crianças são resilientes, e uma intervenção especializada a tempo ajuda a superar o trauma, lembram também os especialistas. Ana Carolina está a pensar em procurar um terapeuta para o filho, preocupada por ver que os dias passam e não lhe trazem de volta o Thiago que conhecia. Incomoda-o que agora um dos seus jogos preferidos, quando se dispõe a brincar com o primo, seja colocar-lhe os braços atrás das costas, fingindo algemá-lo, tal como provavelmente via fazer aos agentes da polícia de fronteira.