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“Eu, se fosse a menina, lia esse bilhetinho. Eu tenho aqui uma bomba”: investigadores dizem ter descoberto quem é D.B. Cooper

As autoridades norte-americanas ainda não sabem quem foi o homem que desviou um avião em 1971 pedindo 200 mil dólares para libertar os passageiros mas teorias não faltam

Getty

Mantém-se até hoje como o único caso por resolver de sequestro de um avião comercial. Em 1971, um homem que se identificou como Dan Cooper adquiriu um bilhete só de ida para Seattle e, em pleno voo, exigiu dinheiro, um avião com o tanque cheio e quatro paraquedas. Terá saltado do avião, como planeado, mas nunca foi encontrado. Um grupo de investigadores garante agora, ter encontrado resposta para um dos maiores mistérios da história da aviação norte-americana

Ana França

Ana França

Jornalista

Florence Schaffner era a assistente de bordo sentada mais perto da porta traseira daquele Boeing 727-100, voo 305, que ia partir de Portland com destino a Seattle, nos Estados Unidos. Poucos assentos à sua frente sentava-se Dan Cooper, camisa bem passada, colete, colarinho entretelado e um alfinete de gravata de madrepérola. Poucos minutos depois de o avião levantar voo, acendeu um cigarro, pediu um whisky e uma água com gás e chamou-a para lhe entregar um pedaço de papel. Tudo se passou na véspera do Dia de Ação de Graças do ano de 1971.

Schaffner recebeu o bilhete, possivelmente um de tantos que lhe eram passados por homens solitários e bem educados, e colocou-o na bolsa que trazia consigo, sem o ler. Cooper fez-lhe sinal que chegasse mais perto:

“Eu se fosse a menina lia esse bilhetinho. Eu tenho aqui uma bomba”, disse Cooper, que, na verdade, não se chamava Cooper porque esse era um nome falso que deu na altura em que comprou o voo. O homem em causa, procurado há quase 50 anos, pode ser vários nomes. E há dois que surgiram recentemente, em duas investigações diferentes. Cooper pode ser um veterano da Guerra do Vietname ainda vivo ou um ex-paraquedista já falecido.

Schaffner leu a nota e Cooper disse-lhe que se sentasse ao seu lado. Ela obedeceu e pediu-lhe para ver o seu saco. Cooper abriu a mala e lá estava o que parecia ser, de facto, uma bomba. Oito cilindros vermelhos ligados entre si por vários fios e uma bateria igualmente cilíndrica também de tamanho considerável.

Cooper fechou a mala. Queria 200 mil dólares (cerca de 1,2 milhões de dólares hoje), quatro paraquedas (dois de reserva) e um camião de gasolina pronto a reabastecer o avião assim que este aterrasse em Seattle, no estado de Washington, para que ele pudesse fugir sem demoras. Schaffner dirigiu-se ao cockpit e informou os pilotos que, por sua vez, contactaram o controlo de tráfego aéreo do aeroporto de Seattle-Tacoma. Daqui, os operadores comunicaram a situação à polícia. Estavam outros 36 passageiros a bordo e William Scott, o piloto, informou-os que por uma “pequena falha técnica” o avião iria demorar um pouco mais a aterrar.

Executivo da companhia aérea não quis correr riscos

O diretor executivo da companhia aérea, Donald Nyrop, autorizou o pagamento e deu indicações a todos os membros da sua equipa para que acedessem a todas as exigências de Cooper.

O avião “planou” sobre Seattle durante mais de duas horas, até o FBI conseguir reunir tudo aquilo que Cooper pedia. As notas foram recolhidas de vários bancos da zona. Cooper rejeitou os paraquedas militares e em vez disso obrigou o FBI a encontrar uns que fossem manuais e não automáticos - coisa que as autoridades conseguiram numa escola de paraquedismo amador.

Às 17h39, o avião aterrou em Seattle, Cooper mandou todos os assistentes de bordo fechar as persianas do avião para evitar tiros de potenciais snipers e tudo o que exigiu foi entregue a uma outra assistente de bordo, Tina Mucklow. Depois de reabastecido, de combustível e de dinheiro, e com os seus paraquedas civis a bordo, Cooper disse aos passageiros para saírem do avião.

Perto das 19h40, o Boeing 727 voltou a voar, desta vez apenas com cinco pessoas: o próprio Cooper, o piloto e o copiloto, a assistente de bordo que recebeu as suas exigências e o engenheiro aeronáutico. Dois caças foram imediatamente enviados para seguir o voo, sem que Cooper os pudesse ver. Outros aviões militares foram enviados para o mesmo propósito, mas nenhum dos cinco conseguiu ver Cooper a tentar a proeza que tinha planeado: atirar-se do avião e fugir para sempre à polícia. O que é certo é que se atirou para o vazio e conseguiu fugir às autoridades. Para sempre.

Uma luzinha no cockpit e um pirata no ar

Depois de levantar voo, Cooper disse a Tina Mucklow para ir para o cockpit e fechar a porta. Mas, enquanto obedecia, contou ela mais tarde, reparou que Cooper estava a apertar qualquer coisa à volta da cintura. Por volta das oito da noite, uma luzinha no cockpit indicou aos pilotos que uma porta tinha sido aberta. Às 22h15 o avião aterrou em Reno, Nevada, e foi invadido por polícias, convencidos, dadas as informações - ou falta delas - prestadas pelos pilotos dos caças que não viram nenhum vulto a atirar-se do avião, que Cooper ainda estaria lá dentro. Não estava porque tinha desasparecido no ar. Neste caso, literalmente.

O resto da história são 45 anos de algumas das mais imaginativas teorias de conspiração que a América já fabricou. O mistério ainda não foi resolvido e permanece como o único caso de “roubo de avião” ainda por solucionar em toda a história da aviação norte-americana. Em 2016, o FBI encerrou o caso depois de mais de 60 volumes de folhas de papel produzidos sobre o mistério. Um grupo de ex-investigadores daquela agência garantem ter encontrado a verdadeira identidade de Cooper: será, segundo dizem, Robert Rackstraw, um veterano da Guerra do Vietname atualmente com 74 anos. A prova está alegadamente escondida numa série de cartas enviadas por Rackstraw nos meses que se seguiram ao seu desaparecimento, escreve a revista “Rolling Stone”

Rackstraw chamou a atenção das autoridades como “possível Cooper” em fevereiro de 1978 depois de ter sido preso no Irão e deportado para os Estados Unidos por estar na posse de explosivos. Alguns meses depois, Rackstraw tentou fingir a sua própria morte emitindo sinais de alerta alegadamente de dentro de um avião em queda. Foi preso pela polícia e o avião “em queda” também foi encontrado, com uma pintura nova. A descrição física de Rackstraw é muito parecida com aquela que os assistentes de bordo e os passageiros deram às autoridades.

Rackstraw é o homem certo?

Segundo Thomas Colbert, líder de uma equipa de mais de 40 pessoas, muitas delas ex-investigadores federais, Rackstraw é o homem que as autoridades procuram. Ex-paraquedista das Forças Especiais, especialista em explosivos e dono de mais de 22 pseudónimos, já tinha sido um dos suspeitos, mas o FBI acabou por nunca o intimar, coisa que até na altura foi uma decisão controversa. “Há um encobrimento, estão a por-nos a parede à frente. É um escândalo à moda antiga”, disse Colbert, agora escritor e realizador de filmes, ao Seattle Post - Intelligencer.

Colbert acredita que o FBI protegeu Rackstraw por ele ter estado alegadamente envolvido com os serviços secretos, nomeadamente a CIA, e ter feito parte de várias equipas que lidaram com assuntos sensíveis e material altamente secreto. A equipa acredita que a verdade esteve sempre nos arquivos do FBI, escondida em duas cartas que a agência nunca revelou - apesar de ter mostrado outras quatro. Mas através de um pedido de informação (Freedom of Information Act), também essas duas foram entregues aos investigadores - e o que se lê nelas, garantem, é elucidativo.

Depois de conseguir as cartas, Colbert chamou Rick Sherwood, um antigo agente dos serviços secretos militares e supervisor de Rackstraw em duas unidades secretas desses mesmos serviços, para que ele ajudasse a equipa a decifrar o que vinha escrito nas missivas que Rackstraw terá enviado para vários meios de comunicação social depois da sua fuga.

Sherwood disse ao “New York Daily News” que decifrou o código de Rackstraw porque tinha lido muitas vezes outras comunicações secretas dele. O sistema de letras e números não foi um mistério para Sherwood. “Li aquilo duas ou três vezes e disse logo: ‘Isto é trabalho do Rackstraw’”, disse o ex-agente. “Esta carta serve para vos informar que não estou morto mas muito vivo e de volta das Bahamas, então, seus militares imbecis, podem parar de me procurar. É mesmo incrível o quão estúpido este governo realmente é. Gosto dos vossos artigos mas o D.B. Cooper não é real”, terá escrito Rackstraw, de acordo com o seu ex-chefe.

Uma forma de "sair do sistema"

Num outro parágrafo, Rackstraw alegadamente escreve que queria sair “do sistema” e viu uma forma de o fazer através de um ‘good old unk’, expressão que os investigadores garantem ser sinónimo de “sequestro de um avião”. A frase: “E digam a esses polícias subservientes que eu não sou o Cooper” foi traduzida para “Sou o Tenente Robert Rackstraw e não o D.B. Cooper” por Sherwood. Ainda assim, o ceticismo que envolve este caso é muito e, como não há impressões digitais na carta, o FBI continua a recusar-se a reabrir o caso por não ter provas físicas que façam valer as teorias da conspiração.

Rackstraw é apenas um dos muitos nomes já avançados para o papel de Cooper. Um documentário recente (“D.B. Cooper: The Real Story”) elege Walter Reca, ex-paraquedista do Exército norte-americano, como o verdadeiro D.B. Cooper. As testemunhas ouvidas para o documentário garantem ser os fiéis depositários das confissões de Reca, que lhes terá confessado ter sido ele a saltar do Boeing com um quarto de milhão de dólares atado ao peito. As suas declarações foram gravadas por um amigo, Carl Laurin, que prometeu não as revelar até à sua morte, que aconteceu em 2014.

Robert Rackstraw vive atualmente em San Diego e já negou ser D.B. Cooper. Mas as teses da conspiração não cessaram e até envolvem conhecidas séries televisivas, como "Mad Men" e o protagonista Don Draper. Vários fãs da série associaram a vida do galã da publicidade, que se reinventou após a Guerra da Coreia, ao percurso de Cooper. E houve, durante algum tempo, a teoria de que a série acabaria por revelar a personagem como sendo o sequestrador.