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Londres acautela saída sem acordo

DANIEL LEAL-OLIVAS // Getty Images

Secretário de Estado do ‘Brexit’ acredita num pacto, mas frisa que o tempo é escasso e pede atitude construtiva à UE

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Robin Walker não vai armazenar comida. Responsável pelos direitos dos cidadãos e relação futura com a UE no ministério do ‘Brexit’, compreende o anúncio feito pelo ministro Dominic Raab, terça-feira, de que o Reino Unido tem planos de contingência para assegurar “reservas alimentares adequadas” em caso de saída da UE sem acordo a 29 de março de 2019, mas crê que não vai haver necessidade. “Parece-me bem que um Governo se prepare para vários desfechos, mas o nosso objetivo é um acordo que funcione para o Reino Unido e a UE”, diz ao Expresso, de passagem por Lisboa.

O discurso de Raab não significa que a saída “dura” seja provável, ressalva Walker. Sucede, porém que “o relógio vai avançando”. À medida que se aproxima outubro — prazo para um acordo que permita a saída ordeira em março —, “as empresas pedem pormenores sobre os planos do Governo para a hipótese de o acordo falhar, os quais vêm a ser elaborados há dois anos”.

Para que tais planos fiquem na prateleira, o governante conservador defende uma “parceria alargada” com os aliados europeus, destacando a antiguidade dos laços com Portugal. Londres quer sossegar tanto os 40 mil britânicos que vivem em terra lusa como os 400 mil portugueses e os demais cidadãos da UE que habitam no Reino Unido, num total de quatro milhões. “Queremos que as pessoas cá fiquem”, repete ao longo da conversa.

As negociações seguem o princípio de que “nada está acordado até tudo estar acordado”. Se falharem, fica em em risco o que já se pactuou (80%, calcula Walker): a fatura do divórcio (Londres pagará a Bruxelas €44 mil milhões por compromissos assumidos até 2020) e reciprocidade nos direitos dos cidadãos. O secretário de Estado crê que, na pior das hipóteses, Londres garantiria direitos de permanência aos cidadãos comunitários.

Confia, todavia, em fumo branco “a breve trecho”. Só com um esboço de relação futura poderá o Parlamento britânico aprovar os termos da saída negociados e pagar a fatura, avisa. Comércio, segurança, ciência são áreas prioritárias para Walker, para quem uma “mentalidade certa” é condição para chegar a bom porto. “A nossa é muito construtiva.” Isso quer dizer que a da Comissão Europeia é punitiva? “Compreendo que para Bruxelas o Reino Unido não possa obter um acordo melhor do que aquele que teria permanecendo na UE”, reconhece, mas realça que “a relação britânica com a União foi sempre um pouco diferente” e que “o referendo de 2016 germinou durante décadas”. Julga que o preço do divórcio será dissuasor suficiente para outros Estados-membros.

Ministro despromovido

Theresa May assumiu esta semana a liderança do ‘Brexit’, relegando Raab para “vice”, no seu dizer. “É o reconhecimento da realidade que sempre existiu”, explica Walker, para quem a importância do dossiê exige a chefia da primeira-ministra. “O ministro está confortável com isso”, assegura. Apesar da agitação por que o Executivo passou — Raab substituiu, a 9 de julho, David Davis, que saiu por discordar da abordagem de May; Boris Johnson demitiu-se de MNE, acusando a líder de ter capitulado perante a UE —, Walker está convicto de que o acordo final terá apoio maioritário em Westminster.

Uma das primeiras missões de Raab foi defender em Bruxelas, quinta-feira (dia em que o Expresso falou com Walker), o Livro Branco para o ‘Brexit’, que preconiza um alinhamento regulatório entre o Reino Unido e a UE para evitar repor a fronteira entre as Irlandas, uma linha vermelha assumida por ambos os lados. Ao seu lado, o negociador-chefe europeu, Michel Barnier, disse ter “dúvidas de que tal possa ser feito sem pôr em risco a integridade da união aduaneira, política comercial comum, política regulatória e receita fiscal” da UE. Walker, que outrora assessorou o ministro para a Irlanda do Norte, crê que as propostas de May são “praticáveis” e mostram que os britânicos não vão “nivelar por baixo as exigências regulatórias relativas aos bens trocados”, como temia a UE. “Ninguém no Reino Unido quer reduzir as condições de segurança alimentar”, exemplifica.

“Barnier fez perguntas. Gostamos disso e temos resposta para muitas delas. Ele receia um acréscimo de burocracia, mas isso não existe no sistema aduaneiro que propomos. Só afetaria firmas britânicas que quisessem importar de países terceiros ao abrigo de acordos futuros”, explica Walker. Exprimindo pressa, diz que não vale a pena perder tempo a “chorar a relação passada” e muito menos a discutir a putativa reversão do ‘Brexit’. A comunicação social britânica tem discutido essa possibilidade, defendida por figuras políticas (“sobretudo do passado”, remata), mas a ideia “não está a ganhar força”, sustenta. “O que os meus eleitores perguntam, mesmo os que eram pela permanência, é: ‘Porque é que ainda não saímos?’”

O próprio Walker, que fez campanha pelo remain em 2016, votaria pela saída na tal nova consulta que julga impossível. Porquê? “O resultado de 2016 impede que o Reino Unido tenha um papel de liderança na UE, pelo que deixa de ser interessante ficar.”