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Internacional

Governo da Nicarágua despede 40 num hospital por tratarem opositores. Um deles, a meio de uma operação

O número de mortos nas manifestações antigoverno já vai em mais de 300 e terão sido dadas ordem para não tratar certas pessoas. Governo desmente

Luís M. Faria

Jornalista

Com a crise política na Nicarágua a agravar-se e os cadáveres já às centenas - quase todos de manifestantes vítimas das forças de seguranças oficiais e de milícias próximas do governo - agora surgiu outra prova de até onde pode ir o presidente Daniel Ortega e os seus aliados. No hospital Oscar Danilo Rosales Arguello, em Leon, 40 profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório foram despedidos de uma vez. Motivo: trataram de manifestantes feridos, contra a ordem (não oficial, aparentemente, mas clara) que lhes tinha sido dada.

Os 40 souberam do despedimento sexta-feira, quando chegaram ao trabalho (um ou outro já tinham ouvido na rádio enquanto se dirigiam para o hospital). Um dos médicos é Javier Pastora, chefe de cirurgia e endoscopia. "Somos médicos, não terroristas", disse ele. Vários dos seus colegas são igualmente responsáveis por áreas essenciais do hospital. "Não sei se as autoridades do ministério têm claro o que esta decisão significa para a qualidade da atenção às pessoas e o treino dos médicos", acrescentou ele.

Outro dos médicos despedidos, Aaron Delgado, estava a meio de uma operação quando lhe disseram para comparecer imediatamente nos recursos humanos do hospital. "Nem me deixaram terminar a operação. Tudo isto porque há um mês, fora do hospital, tratámos os feridos de um massacre perpetrado pelos paramilitares do governo contra cidadãos que estavam na barricadas dos bairros de Leon".

A ministra da Justiça garantiu que "jamais, fosse quando fosse", se negou tratamento a alguém. Ortega reforçou essa ideia, afirmando: "É totalmente falso que tenha sido negada atenção a alguém nos hospitais".

Pela sua parte, o hospital recusa fazer declarações. Mas os médicos e outros profissionais não vão parar com as manifestações de protesto, nem com as declarações públicas.