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Do sonho sandinista ao terror

Marcha contra Daniel Ortega, na passada terça-feira, em Manágua

FOTO JORGE TORRES/EPA

Contestação reprimida já causou quase 300 mortos, mas Daniel Ortega não larga o poder

Daniel Lozano, correspondente em Caracas

Os apoiantes da equipa francesa ainda comemoravam a segunda vitória no Mundial quando, libertado da anestesia coletiva e da hipnose futebolística, o mundo se lembrou da revolta popular em curso num pequeno país da América Central, contra os abusos dos governantes. A Nicarágua, com seis milhões de habitantes, sofre há 100 dias horrores semelhantes aos das ditaduras militares latino-americanas do século XX.

Confirmam-no as estimativas da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH): 295 vítimas mortais e mais de 2000 feridos, na sequência da repressão e da violência orquestradas sobretudo por polícias e paramilitares, um pequeno exército armado até aos dentes pelo Governo e com licença para matar. A situação é corroborada pela CIDH, Amnistia Internacional, Human Rights Watch e organizações locais de direitos humanos, que indicam um número de mortos superior a 350.

A tragédia nicaraguense contém elementos idênticos aos que, em 1979, levaram ao triunfo da revolução sandinista. Esquadrões da morte arremetem contra barricadas erguidas (e derrubadas) por todo o país, atiradores furtivos disparam até contra menores e as listas de detidos e desaparecidos aumentam todos os dias. Grandes manifestações, como a das mães, no fim de maio, são atacadas, provocando mais de dez mortes. Ninguém está livre dos ataques das chamadas hostes sandinistas, incluindo os bispos católicos. As igrejas já não servem de refúgio e muito menos as universidades, bastiões dos revoltosos.

40 anos são uma eternidade

Em 1979 foi o atual Presidente, Daniel Ortega, quem entrou em Manágua à frente das tropas rebeldes e ao som dos gritos do povo, para derrotar o ditador Anastasio Somoza e tornar-se herói da esquerda, uma espécie de Che Guevara centro-americano. Passados quase 40 anos, 22 dos quais com Ortega no poder, a epopeia dos sandinistas do século XX é protagonizada pelos jovens rebeldes que resistem nas ruas com o apoio de bispos corajosos, a recordar monsenhor Óscar Romero.

Envelhecido pelo tempo e pelo poder, Ortega está cada vez mais parecido com o déspota que derrubou. É um fracasso do grande aliado de Nicolás Maduro: empenhado em ficar na História como um Fidel Castro dos primeiros tempos, luta agora para não ser comparado com o rei haitiano Henri Christophe, que o escritor Alejo Carpentier rotulou de tirano enlouquecido.

Tudo começou a 18 de abril. Grupos de universitários saíram à rua contra a reforma da segurança social, onerosa para empresários e trabalhadores. O ‘orteguismo’ queria tapar os buracos de milhões do seu regime, gerados pela corrupção e pela redução da ajuda venezuelana, crucial desde o seu regresso ao poder, em 2007.

O líder revogou a decisão, mas era tarde. O sangue derramado acordou um país que suportara estoicamente a tomada do poder pelo clã Ortega. O Presidente Daniel, a vice-presidente Rosario Murillo (sua mulher), e os seus oito filhos dividem entre si canais de televisão (comprados em parte com capital chavista), empresas públicas e verbas dos acordos internacionais.

“Ortega pretende alterar a correlação de forças, apostando no terrorismo de Estado como principal e quase único recurso. Quis impor o estado de emergência pela via da força”, resume ao Expresso o ex-comandante sandinista Hugo Torres, que em 1974 participou num assalto que fez reféns dirigentes somozistas, forçando a ditadura a libertar Ortega.
Como outros sandinistas, Torres juntou-se aos dissidentes, que incluem intelectuais, do escritor Sergio Ramírez (prémio Cervantes deste ano) à poetisa Gioconda Belli, passando pela antiga comandante guerrilheira Dora María Téllez. Ex-aliados, como os empresários e a própria Igreja, abandonaram o velho líder, que trocou o uniforme militar por vestes brancas, como símbolo de paz. As suas palavras de ordem pouco diferem das repetidas por messias evangélicos.

“Os protestos sociais pedem justiça, democracia, eleições antecipadas e o afastamento da dupla Ortega-Murillo”, conclui o analista Óscar René Vargas. A Mesa do Diálogo, em que a Igreja Católica participa como testemunha e mediadora, não avança um centímetro. Ortega recusa-se a antecipar para 2019 as presidenciais de 2021, apesar de negociações com a Organização de Estados Americanos e a embaixada dos EUA.

Caracas oferece sangue

Segundo a Gallup, em maio, 70% dos nicaraguenses queriam que a família Ortega abandonasse o poder. Na última sondagem, publicada em julho, 79% defendem eleições gerais “em breve” e apenas 28% apoiam o Presidente. Ortega, é claro, não vê a coisas assim. Antecipar a ida às urnas “criaria instabilidade e insegurança e pioraria a situação”, alegou esta semana. Chamando aos manifestantes “terroristas e golpistas”, lembra que foi democraticamente eleito.

Os mesmos argumentos eram usados por Maduro durante os protestos de 2017, na Venezuela. Ortega copiou o guião repressivo do chavismo. O seu aparelho de propaganda conta com a generosa ajuda de jornalistas venezuelanos e órgãos de comunicação social chavistas. Só Havana e Caracas mantêm apoio absoluto ao sandinista. O ministro dos Negócios Estrangeiros venezuelano, Jorge Arreaza, garantiu na semana passada que os chavistas estão dispostos a “oferecer o seu sangue”, lutando nas montanhas da América Central.

As polémicas presidenciais de 2016, semelhantes às vividas este ano na Venezuela, forçaram a permanência nos cargos do casal presidencial e dos seus oito filhos. No entanto, a inesperada revolta de abril colocou o líder diante de um espelho grotesco. Nas paredes de Manágua, um cartaz funde-lhes as imagens e proclama: “Ortega e Somoza são a mesma coisa”.