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Grécia. “Um homem contou-me ter visto uma rapariga subir a um penhasco para escapar às chamas. Caiu e morreu à frente dele”

Anadolu Agency/Getty Images

Quando se viram rodeadas pelas chamas em áreas nos arredores de Atenas, várias pessoas correram para a praia e daí foram transportadas para o porto de Rafina, a 40 quilómetros da capital, Atenas. Maria Papavlachou, jornalista do canal televisivo grego “Alpha TV”, esteve lá na madrugada desta terça-feira e conta ao Expresso o que viu - e o que lhe contaram. Leia aqui o relato de momentos dramáticos

Testemunho recolhido por Helena Bento

Maria Papavlachou, jornalista do canal televisivo grego “Alpha TV” já só viu as pessoas chegarem de barco ao porto de Rafina, na Grécia, “a chorar, com frio e muito assustadas”, resgatadas de zonas a arder pela guarda costeira, pescadores e outros voluntários. Mas, ao falar com algumas delas, percebeu o que haviam passado até chegar ali. Houve mães que “se viram aflitas para segurar os filhos nos braços enquanto tentavam ao mesmo tempo manter-se à tona” e pessoas que “ficaram dentro de água durante quatro horas, à espera de ser resgatadas”. Mas há mais. Leia o testemunho de Maria Papavlachou sobre aquilo a que assistiu numa tragédia que provocou pelo menos 79 vítimas mortais (o último balanço segundo as autoridades):

Vi vários barcos a chegar ao porto de Rafina na terça-feira de madrugada. Traziam pessoas que estavam em risco e que a guarda costeira, pescadores e outros voluntários haviam resgatado em praias perto de Rafina, como Kokino, Limanaki e Mati. O primeiro barco que vi chegar trazia um homem com queimaduras por todo o corpo. As equipas de socorro tentaram tirá-lo dali o mais rápido possível porque ele estava em grande sofrimento. O segundo barco transportava sobretudo crianças e idosos, mas também um homem que se afogara. Foi a primeira pessoa morta a chegar ao porto.

Vi outros barcos chegar depois disso, com pessoas muito assustadas, com frio e a chorar, sobretudo os mais novos. Muitas delas traziam no corpo apenas a roupa de dormir porque o fogo chegou muito rápido às suas casas e não tiveram tempo para se vestir nem para pegar nas suas coisas, dinheiro, nada. Em dez minutos, viram-se rodeadas de chamas. Limitaram-se a fugir e a correr na direção do mar para se salvar. Houve quem, no entanto, mesmo estando já na praia, decidisse pegar no carro para tentar fugir, mas foi má ideia.

A estrada encheu-se de carros, uma fila enorme que não permitia a ninguém avançar. Essas pessoas acabaram por deixar os seus carros e correr para a praia. Algumas pessoas disseram-me ter visto corpos no chão, entre eles o corpo de um bebé, enquanto corriam na direção do mar. Um homem disse-me ter visto crianças no cimo de um penhasco a tentar chegar ao mar. E outro homem contou-me ter visto uma rapariga também a subir a um penhasco. Quando chegou ao cimo, caiu e morreu à frente dele.

Na água, muitas mães viram-se aflitas para segurar os filhos nos braços e evitar que se afogassem, enquanto tentavam elas próprias manter-se à tona. Imagino o sofrimento que terá sido para elas ficar ali, sem saber o que fazer. Houve pessoas que ficaram dentro de água durante quatro horas, à espera de serem resgatadas. Vi o alívio no rosto de muitas delas ao chegarem ao porto. Sentiam-se finalmente seguras, embora continuassem a chorar. Abraçavam-se entre si e choravam. Muitas delas tinham vindo em barcos diferentes e era em Rafina que voltavam a encontrar-se.

Também vi pais a percorrer o porto de uma ponta à outra, várias vezes, verificando em cada barco se o seu filho estava ali. Mati é uma zona balnear, tem muitas casas de férias, e alguns destes pais haviam deixado os filhos ali com os avós. Quando o fogo começou, não conseguiram obviamente deslocar-se até lá para ir buscá-los, sendo obrigados a esperá-los no porto de Rafina. De cada vez que chegava um barco, lá iam eles a correr à procura dos filhos. Foi assim até às quatro da manhã, hora a que pararam de chegar barcos ao porto.

[Notícia atualizada às 9h30 de quarta-feira]

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