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Amelia Earhart pediu socorro mas não o conseguiu obter. Investigador tem uma nova teoria sobre o desaparecimento da mítica aviadora

Pioneira da aeronáutica norte-americana, a primeira mulher a tentar a circumnavegação e a primeira a voar sozinha de costa a costa nos Estados Unidos. O avião de Amelia Earhart desapareceu no oceano Pacífico a 2 de julho de 1937 e nunca se soube com detalhe como foram os seus últimos dias. Agora, um investigador diz ter encontrado vários pedidos de socorro emitidos por Earhart que ajudam a entender o que se passou

Ana França

Ana França

Jornalista

As transmissões atribuídas a Earhart mostram que a aviadora ainda passou alguns dias viva, perdida numa ilha do Pacífico

Bettmann/Getty

“Avião caído numa ilha que não está nos mapas. Pequena, desabitada. Parte do avião em terra, parte no mar”. Esta é uma das comunicações por rádio feitas pela aviadora norte-americana Amelia Earhart nos dias que se seguiram ao seu desaparecimento. Ou, pelo menos, é nisso que acredita Richard Gillespie, um especialista em aeronáutica que reuniu dezenas de transmissões feitas depois de o avião de Earhart desaparecer dos radares, marcando o fim abrupto da sua histórica viagem de circumnavegação e, eventualmente, a sua morte.

O eventualmente é importante porque uma das descobertas que Gillespie defende ter feito é a de que a aviadora, a primeira mulher a voar sozinha acima dos 4.000 metros e a primeira a voar de costa a costa, sem paragens, nos Estados Unidos, não terá morrido assim que o avião caiu, nem terá desaparecido no mar, as duas teorias dominantes até agora. Os pedidos de ajuda prolongaram-se ao longo de alguns dias e o desespero de Earhart é quase palpável nas suas últimas transmissões.

Aquela transmissão, emitida algumas horas depois de o seu avião ter feito uma aterragem atribulada na ilha de Garnder, a 2 de julho de 1937, no meio do Oceano Pacífico e a caminho da ilha de Howland, onde deveria aterrar, foi apanhada por uma mulher do Texas enquanto procurava uma outra frequência de rádio. Nessa comunicação, Earhart diz que o seu navegador, Fred Noonan, estava seriamente ferido e precisa de assistência médica.

Amelia Earthart faria esta terça-feira 121 anos e as circunstâncias da sua morte ainda não foram esclarecidas

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Bettmann

Pouco depois, de acordo com a colagem feita por Gillespie, um homem na ilha de Nauru ouviu a voz de uma mulher a dizer que conseguia ver navios a passar perto do local da aterragem. No dia 3, Nina Paxton, da cidade de Ashton, no Kentucky, ouviu aquela que é a mais credível gravação atribuída a Earhart: “Daqui KHAQQ [o código de identificação do seu avião], estamos na água, muito perto de uma ilha não identificada. O avião não tem combustível. Há água a toda à volta e está muito escuro. Temos que sair daqui, impossível permanecer muito tempo”. Paxton ligou ao seu jornal local a contar a história, mas apenas sete dias depois de ouvir aquela voz através do seu rádio.

No dia 4, uma adolescente de 16 anos, Dana Randolph, do estado de Wyoming, ouviu alguém dizer: “Quem fala é Amelia Earhart. Avião está um pouco a sul do equador”. Logo a seguir, segundo o relato de Randolph, Earhart começou a detalhar a sua localização, mas a voz perdeu-se.

Muito ruído e uma série de transmissões ininteligíveis continuaram durante esse dia antes de Howard Coons, em São Francisco, ter ouvido mais uma vez aquilo que Gillespie acredita ser a voz de Earhart: “Ainda vivos. Têm que vir rápido. Digam ao meu marido que estou bem”. Dia 5, Betty Klenk, em São Petersburgo, na Flórida, garantiu ter ouvido Earhart a pedir ajuda médica para o seu navegador porque o seu comportamento se teria tornado “irracional”. No dia 6 surgiu aquela que é a última mensagem perceptível atribuída a Earhart. Foi ouvida por Thelma Lovelace, em New Brunswick, no Canadá: “Alguém me consegue ouvir? Alguém me consegue ouvir aí? Daqui Amelia Earhart. Por favor respondam”.

Os investigadores consideram que os ossos e os sapatos encontrados na ilha de Gardner pertecem a Earhart

Os investigadores consideram que os ossos e os sapatos encontrados na ilha de Gardner pertecem a Earhart

Getty

“Apesar de nenhuma das pessoas se conhecerem entre elas, todas contam uma história bastante consistente sobre uma situação que se estava a deteriorar. A linguagem que Earhart usa muda ao longo dos dias, à medida que as coisas pioram”, disse o investigador citado pelo jornal USA Today.

Para Gillespie, diretor do Grupo Internacional para a Recuperação de Aviões Perdidos, esta é a primeira vez que é possível contar a história, ainda que em fragmentos, daquilo que terão sido os últimos dias da mítica aviadora. Esta terça-feira, Earhart faria 121 anos e foi este o dia que Gillespie escolheu para publicar um relatório com mais de 30 páginas onde expõe a sua investigação.

Para conseguir a informação, Gillespie juntou mais de 100 transcrições de pedidos de ajuda recebidos por entidades governamentais com aquelas que foram recolhidas por cidadãos anónimos mas, mesmo assim, nem toda a gente considera estas transmissões como uma prova irrefutável de que Earhart terá mesmo aterrado numa ilha inóspita e que terá permanecido viva durante mais de uma semana. Isto apesar de um grupo de antropólogos forenses da Universidade de Tennessee terem descoberto ossos humanos na ilha de Gardner - hoje Nikumaroro - “possivelmente” pertencentes a Earhart - e de, ainda nos anos 1940, também terem sido descobertos sapatos e um sextante que Earhart tinha levado consigo.

Para Tom Crouch, curador da secção de avião do Smithsonian, a tese de que Earhart e Noonan simplesmente caíram no mar é tão válida como outra qualquer. “Não creio que exista ainda alguém que tenha conseguido provar de forma irrefutável o que lhe aconteceu. É um grande oceano e eles estavam a tentar apontar a uma pequeníssima porção de terra. Acho que simplesmente se despenharam no mar”, disse Crouch ao USA Today. Este admirador prefere focar-se naquilo que Earhart foi em vida. “O que a Amelia queria dizer, essencialmente, é que as mulheres jovens não têm que se sentir limitadas. Têm a capacidade para fazer o que quiserem”.