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Internacional

Reino Unido subestimou o número de mulheres e crianças com ligações ao Estado Islâmico

O Daesh chegou a deter uma vasta área no norte do Iraque e da Síria

John Moore/Getty

Um novo estudo do King's College, em Londres, mostra que há mais mulheres envolvidas em actividades terroristas do que aquilo que se sabia até agora e que estão a adquirir posições mais interventivas nas estruturas do Daesh. O regresso destas mulheres, bem como dos jovens, alguns menores, que se juntaram ao “califado”, pode siginificar um perigo para o qual o Reino Unido não está preparado

Ana França

Ana França

Jornalista

O número de mulheres e crianças com ligações ao auto-proclamado Estado Islâmico (Daesh) é subestimado pelas autoridades britânicas e, por isso, os potenciais perigos associados ao seu regresso também.

O aviso é feito num novo estudo do King’s College que alerta para a falta de dados do governo britânico no que toca às famílias dos combatentes do Daesh que saíram do Reino Unido para lutar, principalmente, na Síria e no Iraque. Isto porque não se sabe exatamente qual o número de mulheres ou crianças que terão acompanhado os homens que se juntaram ao grupo terrorista ou que tipo de atividade, mais ou menos perigosa, tinham dentro da organização. O Reino Unido é um dos países que mais jihadistas “exportou” para o "califado".

Há, por exemplo, um significativo envolvimento de mulheres, avançam os investigadores, no planeamento de vários ataques terroristas um pouco por todo o mundo durante o pico do terror do Daesh. Além disso, lê-se também que as mulheres perfazem 13% dos 41.490 cidadãos estrangeiros que terão sido recrutados, em diferentes momentos, para o Daesh. São mais de 4.700. Outros 12% (ou 4.600) são menores.

Dois dos principais investigadores da universidade londrina, Joana Cook e Gina Vale, escrevem que 850 cidadãos britânicos ter-se-ão envolvido com o Daesh e, destes, 145 são mulheres e 50 são menores. Apenas metade regressou ao país e, nessa metade, as autoridades confirmaram apenas duas mulheres e um menor como cidadãos previamente afiliados com os terroristas.

“Acreditamos que as mulheres impõem-nos agora um elevado nível de risco por várias razões. Uma delas é o intenso treino militar para fins terroristas que receberam e que podem facilmente transmitir para outras localizações ou até para os seus filhos”, disse Cook citada pelo diário “The Guardian”. A mesma investigadora foca países como França, Marrocos, Quénia ou Tunísia como locais onde as autoridades descobriram a influência de jihadistas mulheres no planeamento de ataques.

Em outubro de 2016, por exemplo, 10 mulheres foram presas por estarem a planear um ataque durante as eleições legislativas: quatro delas tinham casado com membros do Daesh na Síria e no Iraque. Em 2017, os serviços de informações britânicos neutralizaram um ataque ao British Museum que estava a ser planeado por uma célula de terroristas exclusivamente feminina.

“Do Daesh à Diáspora”, assim se chama o estudo, foca-se principalmente na ameaça das mulheres precisamente por não serem o foco das autoridades. “O papel das mulheres nesta estrutura terrorista evoluiu bastante e continua a evoluir. As suas atividades espalham-se agora em três campos principais: células terroristas só de mulheres, células constituídas pelo agregado familiar e mulheres a conduzirem sozinhas ataques terroristas”, lê-se no estudo.

Além dos tradicionais papéis de uma mulher num regime fortemente islâmico, as mulheres dos jihadistas tinham funções essenciais dentro da estrutura como o recrutamento (e aliciamento através da internet), gestão de esforços para angariar dinheiro, disseminação de propaganda, entre outras atividades que legitimavam o movimento terrorista.

Em 2015, quando quatro raparigas do leste de Londres, ainda adolescentes fugiram para a Síria para casar com jihadistas, o Reino Unido acordou para uma grave realidade: até em sociedades profundamente liberais e onde o acesso à informação é livre, as narrativas de coragem, libertação feminina e rebeldia por um ideal são fatores suficientemente aliciantes para que muitos jovens tivessem escolhido ir lutar numa guerra longe da sua realidade. Até agora, nenhuma das adolescentes regressou. Também não se sabe se continuam vivas.

Pelo menos 730 crianças, com pelo menos um progenitor de nacionalidade europeia, nasceram no interior do suposto califado.