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“Talvez o Exército devesse investigar Imran Khan, já que ele também não poupa ninguém, certo?”

FOTO METIN AKTAS/ANADOLU AGENCY/GETTY IMAGES

São consideradas as mais controversas eleições na história democrática do Paquistão dada a interferência cada vez menos discreta do Exército na política e na comunicação social e a violência de grupos terroristas que só na semana passada matou mais de 150 pessoas. Mais de 370 mil soldados (cerca de metade do contingente ativo) e paramilitares vão estar nas ruas no dia das eleições, marcadas para a próxima semana

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Era uma pergunta obviamente provocatória, mas ninguém esperava que tivesse aquelas consequências ou que as tivesse de todo. Ahmed Mansoor, repórter do canal televisivo paquistanês “Express News” e um dos muitos jornalistas presentes na conferência de imprensa naquele dia, perguntou: “Agora que Nawaz Sharif foi afastado, e que o antigo presidente Asif Zardari também está prestes a sê-lo, talvez o Exército devesse investigar Imran Khan, já que ele também não poupa ninguém, certo?”. Não sabemos o que o porta-voz do Exército, o major-general Asif Ghafoor, a quem se dirigia a pergunta, lhe respondeu, mas a verdade é que dias depois era anunciada a demissão do repórter paquistanês.

É este o estado em que se encontra a comunicação social no Paquistão nas vésperas daquelas que têm sido consideradas as mais controversas eleições alguma vez realizadas desde que o país elege os seus líderes de forma democrática, dada a interferência cada vez menos discreta do Exército paquistanês não só nos media mas também nas redes sociais, política e instituições. Um líder tribal e antigo chefe de Balochistan, maior província do Paquistão, no sudoeste do país, dizia recentemente à “Al-Jazeera” que há militares a intimidar eleitores e a oferecer incentivos em troca de lealdade, prometendo, por exemplo, instalar transformadores de eletricidade e tirar da prisão familiares alegadamente “desaparecidos”. As eleições, legislativas e provinciais, estão marcadas para a próxima quarta-feira. Há 272 lugares à disposição na Assembleia Nacional (os restantes 70 não são eleitos diretamente e estão reservados para mulheres e minorias religiosas) e 577 em quatro assembleias provinciais.

Críticos e alguns partidos políticos acusam os militares de estar a fazer uma verdadeira “engenharia política” que se traduz no apoio indireto a candidatos muito específicos e com os quais têm mais afinidade e interesses em comum - é o caso de Imran Khan, líder do Pakistan Tehreek-e-Insaf (PTI), que aparece em segundo nas sondagens, com 29% dos votos (Institute for Public Opinion Research), e de alguns candidatos com ligações a grupos extremistas islâmicos acusados de perseguir minorias como os xiitas - em desfavorecimento de outros que sabem não poder influenciar diretamente por ser grande a discórdia e clivagem ideológica entre eles, como é o caso da Liga Muçulmana do Paquistão (PMLN, centro-direita, conservadora), partido no governo há cinco anos e que, se as sondagens estiveram certas, assim continuará (32%). Nawaz Sharif, fundador da PMLN e ex-primeiro-ministro que foi preso na semana passada na cidade de Lahore, depois de ter sido condenado a 10 anos de prisão por corrupção, já veio a público acusar os serviços secretos paquistaneses de terem pedido de forma pouco amistosa a candidatos do seu partido para mudar de cadeira.

Apoiantes de Imran Khan, líder do Pakistan Tehreek-e-Insaf (PTI), em Charsadda, Paquistão

Apoiantes de Imran Khan, líder do Pakistan Tehreek-e-Insaf (PTI), em Charsadda, Paquistão

FOTO BILAWAL ARBAB/EPA

“Alguns palestinianos tendem a exagerar as ações do Exército”: o outro lado
Este é um lado da história. O outro, contado pelo Exército e por aqueles que o apoiam, diz que a interferência é nenhuma e que a PMLN estará apenas a arranjar um álibi para a sua falta de capacidade e estratégia para lidar com os problemas que o assolam, nomeadamente a corrupção. “O atual chefe do Exército, Qamar Bajwa, já disse várias vezes, e de forma inequívoca, que está comprometido com eleições livres e justas. O que chateia à PMLN é o facto de a justiça não ter favorecido Nawaz Sharif. A liga não tem protestado porque o Exército está contra si mas sim porque este desempenhado um papel neutro”, diz ao Expresso Anila Khawaja, porta-voz do PTI, negando as acusações de que o líder do seu partido esteja a ser favorecido.

Investigador no think tank Woodrow Wilson International Center for Scholars, sediado em Washington D.C., Michael Kugelman diz que há aqui “duas narrativas e que a verdade há de estar algures no meio delas”. Um apoiante de Imran Khan, Javed Khan, 39 anos e estudante de doutoramento, dizia-nos que não há provas da interferência dos militares e um apoiante de Nawaz Sharif, Imran Ali, jornalista de 34 anos, dizia-nos que não está provado que o ex-primeiro-ministro seja corrupto - e assim se percebe a polarização do discurso. “O Exército tem um claro histórico de interferência na política e é muito provável que esteja a tentar tirar o PML do poder. Pode ter, de algum modo, encorajado a justiça paquistanesa a adotar alguns procedimentos que visavam o PML”, sublinha Michael Kugelman ao Expresso. Por outro lado, “alguns palestinianos, políticos do PML e de outros partidos incluídos, tendem a exagerar as ações do Exército”.

Nawaz Sharif foi afastado pelo Tribunal Supremo do Paquistão antes de terminar o mandato, em abril deste ano - ele e vários membros da sua família foram acusados de corrupção no âmbito do caso Panama Papers. Nawaz foi posteriormente impedido de concorrer a cargos público, o que obrigou a uma transferência da liderança para o seu irmão, Shehbaz Sharif.

Michael Kugelman não acha que o Exército esteja a apoiar claramente Imran Khan mas não tem dúvidas de que, entre os restantes candidatos às eleições, este é o que “mais agrada” ao Exército, menos por causa da sua personalidade, “imprevisível e inconstante”, e mais por aquilo que defende. “Imran Khan e o seu partido estão muito focados em resolver o conflito em Caxemira com a Índia [região de maioria muçulmana que ambos os países disputam]. É a grande prioridade deles em termos de política externa e é também essa a prioridade do Exército”. Além disso, acrescenta o especialista, Imran tem uma “atitude de muita complacência para com os grupos terroristas tradicionalmente patrocinados pelo Exército, como os talibãs afegãos, e em momento algum da campanha criticou os militares”. “Ao Exército interessa ter um primeiro-ministro maleável e que aceda facilmente às suas exigências e pedidos. Não acho que Imran Khan seja essa pessoa mas é provável que seja tido como a única alternativa ao PML, que tem sido muito hostil ao Exército.” Anila Khawaja nega mais uma vez as alegações. “Não há um único grupo terrorista que seja tolerado pelo PTI.”

Nawaz Sharif, fundador da PMLN e ex-primeiro-ministro, foi preso na semana passada na cidade de Lahore, depois de ter sido condenado a 10 anos de prisão por corrupção

Nawaz Sharif, fundador da PMLN e ex-primeiro-ministro, foi preso na semana passada na cidade de Lahore, depois de ter sido condenado a 10 anos de prisão por corrupção

FOTO NARENDRA SHRESTHA/EPA

Mais de 370 mil soldados e paramilitares vão ser distribuídos por mais 85 mil assembleias de votos no dia das eleições. O Exército alega que a segurança está em risco e a realidade dá-lhe razão. Só na semana passada houve dois atentados suicidas em comícios eleitorais. Num deles morreram 149 pessoas, fazendo deste o segundo maior ataque na história do Paquistão depois do atentado de 2014 numa escola. Há, no entanto, quem veja nesta deslocação massiva de militares um motivo para preocupação. “Será a eleição mais suja na conturbada relação do país com o regime democrático”, afirmou o advogado e ativista de direitos humanos Ibn Abdur Rehman, citado pelo “New York Times”.

Acabar com a corrupção em 30 dias? “Claro que não”
Imran Khan fundou o PTI em 1996 e passou do críquete de alta competição para a política com a certeza de que iria acabar com a corrupção e criar um país “onde todos têm lugar”, apetrechando-se para isso daquilo a que se referiu como “uma nova classe de políticos limpos”. Não é claro, contudo, que o consiga. “Uma vez ele disse que ia acabar com a corrupção em 30 dias e ainda hoje é motivo de piadas por causa disso”, diz Michael Kugelman, como quem diz que tem de facto muitas dúvidas de que Imran Khan consiga resolver um problema que é “patológico” no país. “Há muita gente poderosa no Paquistão que não tem interesse nenhum em que as regras mudem. Se ele for eleito, creio que voltará atrás nessa promessa.”

Sendo o combate à corrupção a sua prioridade, Imran Khan tem outras preocupações como melhorar o acesso à educação e à saúde e apertar com a cobrança de impostos. A estas prioridades, Anila Khawaja acrescenta outra, a da “luta pelos direitos das mulheres” - o que não deixa de ser curioso se pensarmos que ainda recentemente o líder do seu partido afirmou que “as feministas são piores mães”. Os seus planos de construção focam-se nas pequenas infraestruturas mais do que nas grandes e é precisamente nisso ou só nisso que se distingue do PML, que passou o tempo todo de campanha a falar sobre quantas estradas tinha construído e quantos novos autocarros tinha posto a circular em várias cidades do país. Em termos sociais, há a ideia de que o PML é mais conservador do que o PTI, mas Michael Kugelman discorda. “Com algumas exceções, não houve um único momento em que tivesse condenado os ataques a minorias religiosas”, como os cristãos, xiitas e hindus, que estão habitualmente na mira dos grupos terroristas.

Uma coisa é certa - independentemente do vencedor, há problemas que pedem uma solução urgente, nomeadamente económicos. As reservas cambiais do país estão a esgotar-se e o défice externo a agravar-se, havendo já analistas económicos a apostar que o país terá de pedir um segundo resgate ao Fundo Monetário Internacional. E os jovens com menos de 30 anos, que nunca foram tantos no país como este ano e constituem a maior parcela da população paquistanesa (64%, segundo um relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), continuam a ansiar por oportunidades de trabalho. Isso é o que pesará mais, aliás, na escolha do candidato nestas eleições, ainda mais do que a corrupção que afeta o PML mas também o PPP. “As pessoas não estão assim tão preocupadas com isso. Preocupam-se mais com o emprego e com o preço dos alimentos”, diz Michael Kugelman. Além disso, o PML é um partido “muito maior e com mais dinheiro, com uma base de apoio mais ampla e uma poderosa máquina partidária”. Também para Madiha Afzal, investigadora da Brookings Institution e autora do livro “Pakistan Under Siege: Extremist, Society and the State”, a corrupção está em segundo plano. “É verdade que isso enfraqueceu o partido mas o regresso de Nawaz Sharif ao país e a sua detenção podem vir a garantir alguns votos de simpatia”.

Bilawal Bhutto Zardani, filho da ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto

Bilawal Bhutto Zardani, filho da ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto

FOTO BILAWAL ARBAB/EPA

Apesar de o partido de Nawaz Sharif estar à frente nas sondagens, Michael Kugelman antecipa resultados muitos próximos que vão obrigar o partido vencedor a fazer alianças para conseguir governar com partidos políticos mais pequenos, alguns deles conservadores e religiosos, outros mais liberais e seculares, como é o caso do Pakistan Peoples Party (PPP), liderado pelo filho da ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto, Bilawal Bhutto Zardani (em terceiro nas sondagens, com 13% dos votos, e sem grandes perspetivas de subir algum lugar). O partido já foi muito poderoso mas começou a desabar a partir de 2013, depois de um mandato pouco popular devido às acusações de corrupção e à sua incapacidade para lidar com a persistente crise energética. “Começou a afastar-se gradualmente do eleitorado, que passou a vê-lo simplesmente como partido dinástico e obsoleto”, diz o especialista, que acredita que o PPP poderá ainda assim “desempenhar um papel fundamental” numa coligação de governo e até chegar a 2023, às próximas eleições, totalmente recuperado. “Bilawal Bhutto, o líder, só precisa de tempo.”

Golpe de estado?
Os militares governaram o Paquistão durante quase metade da sua história de 70 anos, desde a independência da Inglaterra, em 1947. Mesmo quando não o fizeram diretamente, fizeram-no indiretamente. A alegada interferência não é, portanto, uma novidade, mas é agora, se quisermos, mais ampla. Ou mais desesperada. “O Exército está mais descontente com a liderança do PML e com a comunicação social e as redes sociais do que alguma vez esteve”, diz Michael Kugelman, que não acredita contudo que isso possa resvalar para um golpe de Estado, a não ser em circunstâncias muito específicas e improváveis. “A única coisa que os militares querem é um governo fraco e vulnerável que possam manipular à vontade atrás das cortinas. E como provavelmente é isso que vai acontecer, não me parece que tentem algo além disso.”

O Expresso tentou contactar a Liga Muçulmana do Paquistão mas até ao momento não obteve qualquer resposta.