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O ex-rei, a sua amante e as gravações dela

Corinna seguiu de perto o então rei Juan Carlos I em viagens como esta, à Alemanha, em 2006

FOTO PETER BISCHOFF/GETTY IMAGES

Corinna zu Sayn-Wittgenstein revela que Juan Carlos a usou como testa de ferro em negócios obscuros. Caso pode chegar ao Parlamento

Angel Luis de la Calle

Angel Luis de la Calle

Correspondente em Madrid

Juan Carlos I, rei de Espanha durante 39 anos (1975-2014), poderá ser investigado pelo Supremo Tribunal e obrigado a comparecer perante uma comissão parlamentar para explicar questões relativas às suas finanças pessoais. Desde que abdicou, há quatro anos, o ex-soberano perdeu a imunidade que o trono garante. No seio da esquerda espanhola consolida-se um amplo movimento contra a monarquia, que pretende que o monarca jubilado responda às gravíssimas acusações formuladas por uma antiga amante.

A mulher em causa é Corinna zu Sayn-Wittgenstein, nascida Larsen. Segundo esta empresária alemã de origem dinamarquesa, o pai do atual rei Filipe VI terá acumulado contas secretas na Suíça, cobrado comissões por obras adjudicadas ao Estado espanhol por governos estrangeiros e obtido bens de origem ilícita. A Casa Real sofre as consequências da quebra do pacto de silêncio, não escrito, sobre as atividades da família real, com que políticos e jornalistas protegiam a Coroa. Essa quebra ajudou a levar à cadeia Iñaki Urdangarín, genro de Juan Carlos. O marido da infanta Cristina cumpre pena de cinco anos, numa prisão perto de Madrid, por crimes de suborno e desvio de fundos públicos.

Caçadores de elefantes
Tudo começou com gravações misteriosas, realizadas em 2015, em Londres, no decorrer de uma conversa em que participaram Corinna, José Manuel Villarejo, ex-comissário principal da polícia espanhola, e Juan Villalonga, ex-presidente da multinacional Telefónica. Nelas a alemã — que conheceu o então rei numa caçada, em 2004, e se tornou sua “amiga íntima”, acompanhando-o em viagens oficiais e privadas — garante que o rei-emérito a utilizou como “testa de ferro” em operações financeiras pouco claras, que sabia das muitas contas bancárias que o monarca possuía na Suíça (de que seria titular um primo em segundo grau, Álvaro de Orléans y Borbón) e da cobrança de percentagens significativas sobre o valor de obras em que Juan Carlos interveio indiretamente, como as do comboio de alta velocidade de Riade a Meca, já entregue aos sauditas, embora ainda não inaugurado oficialmente.

Corinna, que se autointitula princesa por ter sido casada com o aristocrata alemão Casimir zu Sayn-Wittgenstein-Sayn, não nega que é a sua voz que se ouve nas gravações, mas diz-se alvo de uma “campanha de descrédito com fins políticos”. Quando o episódio se tornou público, o seu primeiro marido, Philip Adkins, qualificou-a de “sociopata narcisista”. Este britânico acompanhou Corinna e Juan Carlos numa célebre caçada ao elefante no Botswana, em 2012, no auge da crise e quando muitos espanhóis sofriam com medidas de austeridade. A viagem tornou-se pública e causou escândalo quando o então monarca fraturou a anca. Juan Carlos dirigiu um inédito pedido de desculpas ao povo.

O conteúdo das gravações, divulgado pelos jornais digitais “El Español” e “OK Diario”, veio a lume porque o comissário Villarejo as utiliza como elemento de pressão e chantagem para alterar a sua situação atual de prisão preventiva. Foi acusado de crimes graves de branqueamento de capitais e pertença a associação criminosa. Este polícia terá montado um negócio lucrativo que consistia em fornecer a figuras públicas e empresários informações comprometedoras, literalmente roupa suja, sobre concorrentes e adversários, obtidas através de investigações policiais secretas.

Não é dada qualquer explicação para o facto de Juan Villalonga, amigo íntimo do antigo primeiro-ministro, José María Aznar, que o colocou à frente da mais importante empresa espanhola, ter participado nas conversas gravadas. Refere-se uma putativa amizade da sua mulher, fotógrafa de fama, e Corinna. Nas gravações ouve-se ainda o nome do chefe dos serviços secretos espanhóis, general Félix Sanz Roldán, que Corinna afirma tê-la ameaçado. O militar irá explicar estas alusões aos deputados, à porta fechada.

Incómodo para o Governo
O Governo socialista de Pedro Sánchez fica numa situação delicada. Empenhado em fortalecer o círculo de segurança em torno de Filipe VI (que o primeiro-ministro dissocia das acusações contra o pai), não tem interesse em promover um debate público sobre a monarquia, apesar da sua clara e manifesta vocação republicana. Tal poderia conduzir a uma crise institucional inédita.


Sucede que partidos que apoiam o Executivo, como o Unidos Podemos (esquerda) e formações separatistas catalãs e bascas (a quem Sánchez deve a aprovação da moção de censura que o levou ao poder) estão decididos a levar o caso até às últimas consequências, forçando a criação de uma comissão parlamentar de inquérito, instando o Supremo a intervir e defendendo a notificação do próprio Juan Carlos para prestar declarações. Com apenas 84 deputados num total de 350, o socialista não pode dispensar aliados.

Os defensores da instituição monárquica esforçam-se por demonstrar que toda esta “telenovela” não passa de montagem organizada por uma ex-amante desprezada e por um polícia presumível delinquente, visando ambos minar as bases do Estado. O prestigiado diário “El País”, considera num extenso editorial, que “os tribunais têm que tomar medidas nos dois casos: por um lado, defendendo os cidadãos contra este tipo de extorsão; por outro, preservando o sistema constitucional, através da eliminação, em conformidade com as suas próprias regras, de eventuais comportamentos ilícitos daqueles que tinham, e ainda hoje têm, o dever de o representar com dignidade”.