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Índia: 24 pessoas linchadas por causa de mensagens e vídeos falsos com histórias de raptos de crianças no WhatsApp

PRAKASH SINGH

Cerca de 250 milhões de pessoas usam a aplicação na Índia. Mensagens e vídeos virais estão a preocupar o Governo, polícia e Whatsapp, uma empresa detida pelo Facebook. No domingo, Mohammad Azam foi assassinado nas ruas de Hyderabad depois de oferecer chocolates a crianças

Num qualquer dia de maio, Rukmani, uma mulher de 65 anos, e quatro familiares enfiaram-se no carro e seguiram para o sul da Índia. O plano era simples: percorrer cerca de 200 quilómetros, entre Old Pallavaram (Chennai) e Thiruvannamalai, para visitar um templo na região de Tamil Nadu.

Perdidos, embora já perto do destino, pararam o Honda Sedan vermelho e pediram indicações. Uma local, já com uma idade avançada, achou suspeita aquela gente que vinha de fora, por isso chamou o filho, que acabaria por alertar a população. Rukmani e os familiares ficaram desconfortáveis e optaram por recuar, deixando cair o plano inicial.

Inesperadamente, na aldeia que vinha a seguir no mapa, a família foi interceptada na estrada por uma multidão enraivecida, que os esperava. Munidos de barras de ferro, varas de madeira, punhos cerrados e pontapés certeiros, aquela amostra de população começou a espancar os cinco elementos que apenas queriam visitar um templo e, agora, regressar a casa tranquilamente. Rukmani só saiu daquele lugar sem vida. Os outros ficaram gravemente feridos, sendo que o cunhado, Gajendran, ficou em coma no hospital durante algumas semanas.

A família de Rukmani foi confundida com raptores de crianças, depois de vídeos e mensagens falsos terem sido espalhados via WhatsApp. Esta história foi publicada esta quarta-feira no "New York Times” (NYT).

O jornal norte-americano informa que já foram mortas 24 pessoas inocentes desde abril depois desta vaga de mensagens virais sem fundamento. Rukmani foi uma das primeiras vítimas -- 46 foram detidos e outros 74 perseguidos depois deste crime.

Mohinidevi Nath mostra a fotografia da prima assassinada a 27 de junho, nos subúrbios de Ahmedabad. Shantedevi Nath foi acusada de raptar crianças

Mohinidevi Nath mostra a fotografia da prima assassinada a 27 de junho, nos subúrbios de Ahmedabad. Shantedevi Nath foi acusada de raptar crianças

SAM PANTHAKY

Apesar dos anúncios nos jornais e campanhas prometidas no terreno pelo Governo, polícia local e WhatsApp, estas histórias mentirosas que matam estão longe de estarem terminadas. Mohammad Azam terá sido o último a perder a vida pela mesma razão de Rukmani, contou no domingo o Daily Mail.

O engenheiro da Google, de 32 anos, e dois amigos estavam de regresso a Hyderabad depois de visitarem um conhecido em Bidar. Algures naquele trajeto pararam o carro e ofereceram chocolates a crianças de uma escola. A multidão, inflamada pelas mensagens falsas que recebera via WhatsApp, estava alertada e agiu com violência. Azam foi morto no local, espancado por uma multidão de 2000 pessoas. Os amigos ficaram feridos, tal como três polícias que tentaram travar o linchamento. Foram detidas 32 pessoas.

O “NYT” informa que há 250 milhões de utilizadores da aplicação de mensagens na Índia. O Governo indiano acusou a empresa norte-americana de não ter capacidade para travar estas mensagens falsas na plataforma. Os responsáveis pelo WhatsApp, detido pelo Facebook, dizem estar “horrorizados”. A empresa oferece 43 mil euros a quem tiver ideias para estancar este vírus que está a matar.