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Eles vão pedir desculpa, sentem-se culpados pela morte de Saman e corrigem algumas notícias: os resgatados contam o resgate

Os rapazes resgatados homenageiam Saman Kunan, que morreu durante as operações de salvamento - foi a única vítima mortal

LILLIAN SUWANRUMPHA/GETTY IMAGES

Os 12 rapazes e o treinador resgatados da gruta tailandesa falaram juntos ao mundo pela primeira vez desde a operação que “não se sabe se foi milagre ou ciência”. As perguntas foram selecionadas previamente

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Entraram na sala de conferências vestidos com o equipamento dos “Wild Boars”, a equipa de futebol onde jogam, a dar toques em bolas de futebol, e sentaram-se dispostos a responder às perguntas dos jornalistas, naquela que foi a primeira conferência de imprensa do grupo desde que foi resgatado da gruta de Tham Luang, no norte da Tailândia.

O primeiro a falar foi um dos médicos que acompanharam a recuperação das crianças no hospital de Chiang Rai, para onde foram levadas depois de retiradas da gruta, entre 8 e 10 de julho. Esclareceu que os rapazes estão bem de saúde, que podem voltar agora a ter uma vida normal e que estão ansiosos por comer comida caseira. Outro médico presente garantiu que a saúde mental dos rapazes não é um motivo para preocupação. A conferência estava marcada para as 18h (11h em Portugal) mas começou um pouco mais tarde.

Adul Sam-on, de 14 anos, foi o primeiro de grupo a responder aos jornalistas presentes na sala, cujas perguntas foram selecionadas previamente pelos psiquiatras que acompanharam as crianças de modo a evitar que não seria colocada qualquer questão incómoda ou prejudicial. Questionado sobre a sua reação quando viu o mergulhador britânico a emergir da água, Adul Sam-on disse não ter percebido de imediato que havia alguém ali e que quando viu o mergulhador ficou surpreendido por não ser tailandês.

Ekkapol Chantawon, o treinador da equipa conhecido entre os rapazes por “Ake”, falou de seguida, esclarecendo que não é verdade que o grupo “não sabia nadar”, como foi dito pelas autoridades, até porque houve um momento, logo no início, em que tiveram de nadar quando o nível da água começou a subir. O treinador garantiu que foi decisão do grupo entrar na gruta naquele dia para explorá-la e não para festejar o aniversário de um dos rapazes, como foi sendo dito pela imprensa ao longo das últimas semanas.

Ekkapol Chantawon contou ainda como tudo aconteceu lá dentro. “Vimos a água a entrar na gruta e ponderámos abandonar o local. Não sabíamos quanto é que o nível da água poderia subir. Quando voltámos para trás, percebemos que estávamos encurralados.” Ake disse ainda que no início os rapazes tentaram escavar um túnel na rocha para tentar sair da gruta, usando pedras e revezando-se por turnos “para não desperdiçar energia”.

“Disse-lhes para não ficarem assustados porque a água iria diminuir no dia seguinte. Eu acreditava que isso iria acontecer, do mesmo modo que acreditava que haveria alguém que viria resgatar-nos.” Os rapazes e o treinador terão visto água a escorrer de uma das rochas e permaneceram junto desse local para poderem ir bebendo. Comida não havia nenhuma. Ekkapol Chantawon disse ainda que tentou confortar os rapazes e dar-lhes força, não deixar esmorecer a esperança deles.

A morte de Saman Kunan, o antigo membro das forças especiais da Marinha tailandesa que se voluntariou para ajudar nas operações de resgate e acabou por morrer dentro da gruta por falta de oxigénio, foi um peso para as crianças, disse o treinador. “Ficámos chocados quando soubemos que ele tinha morrido. Sentimo-nos culpados pela morte dele.” O treinador dos rapazes agradeceu ainda a “generosidade de todos” e disse ter aprendido com tudo isto “a ser mais cauteloso” daqui em diante. Já uma das crianças disse que tudo o que aconteceu a tornou “mais forte” e ensinou-a a ter “mais paciência” e “resistência”.

Questionado sobre quem decidiu qual seria o primeiro rapaz a sair da gruta, Ekkapol Chantawon respondeu simplesmente que ninguém “competiu” para sair primeiro e depois brincou dizendo que os que vivem mais longe foram escolhidos para sair primeiro. “Os rapazes foram considerados igualmente fortes”, completou um dos médicos presente na conferência. À pergunta - “o que é que vão dizer aos vossos pais?” - todos responderam em uníssono - “Pedir desculpa”. Muitos dos rapazes não terão dito aos pais que iam à gruta, apenas jogar futebol, e por isso sentem-se culpados. Um deles disse, aliás, que temia ser castigado pelo pai.