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Obama fez um (longo) discurso e Trump foi o alvo implícito: “As estruturas da opressão nunca foram totalmente desalojadas”

Getty Images

Num dos seus maiores discursos desde que deixou a presidência dos Estados Unidos, Barack Obama esteve na África do Sul para assinalar os 100 anos do nascimento de Nelson Mandela, um dos nomes que mais influnciou o ex-Presidente dos Estados Unidos. Sem mencionar Trump, Obama fez críticas claras ao chamado “estado de coisas” e restaram poucas dúvidas quanto ao destinatário dos reparos. Numa aula de História sobre os últimos 100 anos, Obama avisou que as estruturas da repressão de antigamente ainda subsistem

Ana França

Ana França

Jornalista

Barack Obama, antigo Presidente dos Estados Unidos, conta entre as suas ocupações atuais a crítica clara e direta à Administração de Donald Trump, que o substituiu no cargo, sem mencionar o nome do atual Presidente. A CNN diz que “ele fez disto uma arte”. Esta terça-feira, em Joanesburgo, na África Sul, durante uma conferência realizada para honrar a vida de Nelson Mandela, voltou a fazê-lo. E isto apenas um dia depois de Trump ter chocado o mundo ao dizer que acreditava em Vladimir Putin quando este lhe garantiu que a Rússia não interferiu nas eleições norte-americanas de 2016, declaração que foi vista como uma desautorização dos próprios serviços secretos norte-americanos, que já confirmaram que a questão deixou de fazer parte do domínio da opinião.

O discurso de Obama foi uma aula de História. Nelson Mandela nasceu há 100 anos e Obama pegou nesse número redondo para falar da evolução das liberdades civis no último século, um período que, na sua opinião, foi moldado pela mente de homens e mulheres como Mandela.

Começou por dizer que “vivemos em tempos estranhos e incertos - e se são estranhos e se são incertos” - e que “cada ciclo noticioso nos traz mais reviravoltas à cabeça com títulos cada vez mais perturbadores”. Antes de explicar como se chegou aqui, Obama disse que o mundo está à beira de “voltar a ser um lugar onde se privilegia uma forma mais brutal, mais perigosa de relacionamento” entre os países e criticou a "total perda de vergonha" dos líderes políticos que mentem como sistema. Obama 1 - 0 Trump.

Quando Mandela nasceu, a África estava sob controlo colonial. “A inferioridade da raça negra, o desrespeito pela cultura, educação, tradições e aspirações dos negros era moeda corrente”, disse Barack Obama, acrescentando que “essa visão do mundo, na qual certos grupos eram inerentemente superiores a outros e a coerção formava a base da governação, não estava confinada à relação da Europa com África. Os brancos não tinham problemas em explorar outros brancos, nem os negros tinham problemas em explorar outros negros”.

O próprio país onde Obama nasceu, os Estados Unidos da América, que foram criados com base numa das mais progressistas cartas de independência que o mundo tinha visto na altura, pecaram desta mesma forma. “Fundado sob o princípio que todos os Homens nascem iguais, a discriminação sistémica era lei em metade do país e normal no país todo. Isto foi há cem anos. Há pessoas vivas hoje que se lembram desses tempos. É difícil subestimar os progressos que se fizeram”, disse Obama.

Num estádio com cerca de 15 mil pessoas na audiência, Obama passou depois a explicar os progressos que a humanidade alcançou após a Segunda Guerra Mundial - altura em que “milhões de pessoas por todo o mundo começaram a lutar contra os totalitarismos, pelo Estado de Direito e pela dignidade de cada indivíduo”, disse o ex-Presidente, que foi recentemente eleito por uma maioria de cidadãos norte-americanos como “o melhor Presidente de sempre”. Obama 2 - 0 Trump.

Entrelaçando sempre o percurso de Mandela com a luta pelos direitos civis e das minorias, Obama disse ainda que a influência de “Madiba” foi muito além da área geográfica onde vivia, até porque viveu numa cela durante 27 anos. “A luta pelo fim do Apartheid foi uma particularidade da sua terra, mas, através do seu exemplo moral, Nelson Mandela liderou um movimento muito maior e capturou as aspirações de todas as pessoas desprotegidas pelo mundo todo. Fê-las acreditar na possibilidade da transformação moral dos governantes”, disse Obama, ele mesmo um dos confessos discípulos de Mandela.

“A sua luz brilhou tanto nos anos 70 que conseguiu inspirar um jovem a reexaminar as suas próprias prioridades e a acreditar que poderia ter um papel no processo de mudança legislativa”, disse sobre a influência do trabalho de Mandela na sua juventude.

Obama pôs o dedo na ferida da globalização, da expansão tecnológica e da cavalgada rápida do capitalismo ,dizendo que retirou “mil milhões de pessoas da pobreza”, mas também que criou uma “enorme desigualdade e ressentimento” entre as pessoas que agora “têm medo de perder o que conquistaram” e “medo do outro, que de si é diferente, tem uma cor diferente e fala de forma diferente”. E, chegados aqui, temos que admitir, considera Obama, “que as estruturas da opressão nunca foram totalmente desalojadas”. Obama 3 - 0 Trump.

“As disparidades monetárias e no acesso à educação, à segurança, ao crédito; o sistema de castas que ainda oprime os indianos, a etnia e a religião que ainda determinam as oportunidades em vários países do Médio Oriente, as mulheres e as meninas que continuam a ser o alvo principais de discriminação e violência, muitas sem podem aceder à educação”, elencou Obama, agora com 56 anos, como exemplos das desigualdades que ainda subsistem. Tudo isto, admitiu numa espécie de mea culpa, porque os “governos e as elites foram incapazes de acautelar os falhanços das políticas de globalização”.

Criticou a classe política por fomentar “políticas de medo, ressentimento e isolamento” e disse que o avanço do populismo é de tal forma veloz que seria “inimaginável apenas há uns poucos anos”. Atacou, de seguida, o culto da “política dos homens fortes”, talvez a mais clara referência a Trump e Putin, que se encontraram na segunda-feira numa das mais criticadas páginas da Administração Trump até agora, dizendo que “aqueles que hoje estão no poder chegaram lá através de eleições, mas depois o que fazem é retirar significado a todas as instituições que mantêm a democracia”.

Alarmismo? Obama diz que não. “Não estou a ser alarmista, estou só a partilhar factos. É só olharmos em volta”. Numa tirada digna dos socialistas que a América tanto teme, Obama disse que estes movimentos populistas, que colocam as pessoas umas contra as outras, são financiados por “magnatas de direita” que esperam, em retorno, “menos restrições aos seus negócios” depois de terem ajudado a eleger um determinado governo. Obama 4 - 0 Trump.

Mais uma vez sem nomear Trump ou Putin, Obama falou diretamente da Rússia que, “depois da humilhação da queda do bloco soviético, voltou ao ataque”, e da China que, segundo Obama, classifica qualquer reparo aos abusos contra os direitos humanos como “novo imperialismo”. Com o sobrolho franzido, Obama ironizou: “Quem é que precisa de liberdade de expressão quando a economia está a crescer?”. Obama 5 - 0 Trump.

Cem anos passados sobre os progressos alcançados e recentes recuos, mas também sobre o nascimento de Nelson Mandela, Obama diz que o mundo tem que escolher entre “duas visões, duas narrativas muito diferentes” para o futuro da Humanidade. Para o ex-Presidente, a decisão é clara: “Eu acredito na visão de Nelson Mandela. Eu acredito na visão de Ghandi e de King e de Abraham Lincoln. Acredito numa visão de igualdade e justiça e liberdade e numa democracia multiracial construída sobre a premissa de que todos somos criados iguais”.