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Dungay não conseguia respirar, mas não foi levado a sério. Polícias australianos respondem pela morte de um recluso aborígene

Cartazes junto à entrada do tribunal onde esta segunda-feira aconteceu a primeira sessão de julgamento

JOEL CARRETT/ EPA

Pela primeira vez foi mostrado o vídeo dos momentos que antecederam a morte de David Dungay, o recluso aborígene que faleceu quando os polícias o trocavam de cela. Esta segunda-feira começou o julgamento

“Não consigo respirar”, disse David Dungay. E repetiu o aviso pelo menos 12 vezes. As imagens do vídeo que testemunha os últimos minutos de vida do recluso aborígene mostram vários guardas em cima dele, a evitar que se mova ou reaja com agressividade. “Não consigo respirar”, insistiu “Se consegues falar, consegues respirar”, respondeu-lhe um dos polícias. Tudo isto pode ser visto e escutado nas imagens que esta segunda-feira foram transmitidas durante a primeira audiência em tribunal, em Sidney, na Austrália, destinada a julgar os agenmtes da autoridade envolvidos no caso.

Na sala de audiência, quando chegou o momento de mostrar o vídeo, os familiares e amigos de David Dungay saíram. Ficou apenas a mãe que, segundo a estação pública australiana ABC, teve de limpar várias vezes as lágrimas. As imagens mostram os guardas a prepararem a mudança de cela de David Dungay, condenado por tentativa agravada de violação e por participar num assalto.

Mesmo tendo em conta os vários desafios inerentes à manutenção de Dungay num ambiente corretivo, há uma série de questões que precisam de resposta relativamente à decisão de mudar o prisioneiro de cela e ao envolvimento dos guardas dos Serviços Corretivos. Há provas de que no passado existiram momentos em que foi complicado lidar com Dungay e que enfermeiras, outros reclusos e delegados aborígenes conseguiram falar com ele e acalmá-lo”, sublinhou Jason Downing, assistente do processo, citado pela ABC. “Se essa era uma opção que devia ter sido tentada a 29 de dezembro de 2015? É algo que será explorado no decorrer do julgamento.”

Primeiro, foi dado um minuto a Dungay para se preparar para mudar, pediram-lhe que parasse de comer bolachas e que se aproximasse para ser algemado. Dungay demorou mais do que o tempo que lhe foi dado. Do lado de fora, a polícia começou a fazer pressão, insistiu para que se despachasse. “Então venham”, desafiou o recluso, no vídeo publicado pelo jornal “The Guardian”. E os agentes foram, atiraram-se para cima do recluso e imobilizaram-no. A seguir, o que se vê e ouve são momentos tensos e agressivos e, também, gritos. David Dungay foi arrastado para a nova cela, enquanto cospia sangue.

Já na nova cela, continuou: “Não consigo respirar”. Um enfermeiro surgiu e, através de uma injeção, administrou-lhe um forte sedativo, segundo a ABC. Não muito depois, David Dungay morreu.

Morte a três semanas de sair em liberdade condicional

David Dungay, 26 anos, era aborígene. Morreu na unidade de saúde mental da prisão de Long Bay, em Sidney, a três semanas de sair em liberdade condicional, depois de já ter cumprido oito anos de pena. Foi em dezembro de 2015. Agora, três anos depois, começou o julgamento dos polícias que o tentaram mudar de cela no dia em que morreu.

“É homicídio. Mataram o meu filho. Têm de ser responsabilizados por isso. Têm de ser presentes à Justiça, independentemente de quem tenha feito isto ao meu filho”, disse Leetona Dungay, mãe de David, citada pela ABC, na primeira entrevista após a morte do filho.

A autópsia, refere o “Guardian”, revelou que a pressão feita no torso e pescoço de David Dungay enquanto estava a ser imobilizado pode ter contribuído para a asfixia, que pode “resultar e hipóxia cerebral [oxigénio insuficiente no cérebro] e/ou em paragem cardíaca.” Mas não foi possível determinar ao certo a causa de morte. A ABC acrescenta que, após ter sido sedado, o rosto do recluso ficou roxo e o homem deixou de respirar. Os guardas e o pessoal médico tentaram reanima-lo durante 40 minutos, mas sem sucesso.

O mesmo relatório revela que os guardas mandaram os enfermeiros limpar “uma pequena quantidade de sangue” que estava no chão da cela ainda antes de a equipa de investigação chegar ao local.

Dungay cresceu em Kempsey, na Nova Gales do Sul, a pouco mais de 400 quilómetros de Sidney. Desde a sua morte, a mãe, familiares e amigos têm organizado uma série de manifestações a favor da condenação dos responsáveis pela morte de David.

O caso assume outras proporções devido ao facto de David ser aborígene, ou seja, descende dos habitantes originais do continente australiano. Hoje, a Austrália – e apesar de já terem sido aprovadas pelo Governo uma série de medidas antidiscriminatórias – continua a ser alvo de críticas pelo modo como lida com a população indígena, lançadas até pelos Estados membros do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. Embora, segundo as Nações Unidas, os aborígenes e ilhéus do Estreito de Torres representem apenas 3% dos 23 milhões de pessoas que vivem na Austrália, apresentam taxas de suicídio, abuso de álcool, violência doméstica e detenções desproporcionalmente altas quando comparadas com a restante população.

Diagnóstico de diabetes tipo 1 e problemas mentais

No dia em que morreu, foi o facto de David se ter recusado a parar de comer umas bolachas que desencadeou a situação e aumentou tensões. Segundo a ABC, o recluso sofria de diabetes tipo 1, ou seja, o corpo não produz insulina suficiente para manter um nível de glicose no sangue considerado normal.

A mãe de David contou ao “Guardian” que o diagnóstico da doença foi feito quando David tinha seis anos. Desde então, disse, cada vez que os níveis de açúcar do jovem disparavam, os comportamentos mudavam radicalmente. “Acho que foi por isso que lhe foi diagnosticada a esquizofrenia.”

Na prisão, David Dungay era acompanhado pelo serviço de saúde mental. Além de esquizofrenia, sofria de psicose aguda, circunstâncias que também foram nesta segunda-feira referidas em tribunal, onde foi colocada a possibilidade de os “sérios e significativos” problemas mentais do recluso terem levado a que este deliberadamente administrasse de forma deficiente a medicação para o controlo da diabetes.