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A Inteligência Artificial vai determinar as relações internacionais?

Estudo da Chatham House descreve o que aí vem usando a expressão “disrupção antecipada”

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Habituados aos cenários que a literatura e a ficção científica têm vindo a descrever há tempos mais que longínquos, somos facilmente levados a imaginar a vida no futuro enquadrada pela luz abafada da poluição que o Homem não conseguiu evitar, já praticamente habitado apenas por criaturas androides cuja ação é determinada por sofisticadas formas de Inteligência Artificial (IA).

Não é bem assim. Para o bem e para o mal, o que nos vem lembrar o relatório “Artificial Intelligence and International Affairs — Disruption Antecipated”, lançado há uma semana pela Chatham House — The Royal Institute of International Affairs, é que a IA já está no meio de nós.

Quer dizer que os humanos e formas limitadas de IA já coexistem. Basta pensar em gestos de todos os dias como seguir direções fornecidas pelo GPS, usar o Google Translate para entender outra língua ou usar motores de busca para encontrar voos baratos, para perceber que estas já são atividades emblemáticas “daquele” futuro que será um dia radicalmente transformado.

Mesmo assim, M. L. Cummings, Heather M. Roff, Kenneth Cukier, Jacok Parakilas e Hannah Bryce, os autores do relatório, previnem: “A natureza da IA em 2018” — e muito provavelmente num futuro previsível — é ainda “muito mundana”.

Para já, o relatório examina alguns dos desafios originados pelo avanço e crescente aplicação da IA que os legisladores podem vir a encontrar a curto ou médio prazo. “A mudança tecnológica não tem de ser profunda nem súbita para criar alterações significativas no equilíbrio de poder ou nas estruturas sociais”, lê-se no estudo.

No entanto, seria necessário um avanço em cada um dos aspetos da IA para que “um sistema construído” fosse capaz de operar “a um nível comparável com o cérebro humano”. Aqueles aspetos seriam o hardware, o software e, mais interessante, “até a nossa compreensão daquilo que a cognição é”.

O estudo destina-se, assim, aos legisladores cujo horizonte possa ser ensombrado pela crescente utilização de IA. Nesta fase, abrange um horizonte temporal de dez, 15 anos, aproximando linhas de pensamento que estão normalmente separadas e aplicando-se especificamente a áreas selecionadas das relações internacionais, a saber, o domínio militar, a segurança humana e as perspetivas económicas.

“Máquinas e humanos têm capacidades diferentes e, igualmente importante, fazem erros diferentes baseados em arquiteturas de tomada de decisão fundamentalmente divergentes”, escrevem Jacob Parakilas e Hannah Bryce, os responsáveis diretos pelo capítulo referente às relações internacionais. Tanto quanto possível, parece-lhes “seguro assumir” que os sistemas artificialmente inteligentes “não substituirão os humanos” no nível de topo dos processos decisórios. Porém, esses sistemas vão ser “parte cada vez mais significativa do contexto no qual os decisores humanos operam”.

Diferentes papéis à vista

Parece desde já anunciado o perigo de o desenvolvimento do raio de ação da IA poder aumentar as possibilidades de desigualdade, seja ela no acesso à tecnologia ou na produção e acesso à riqueza. Os autores identificam três papéis que a IA poderá vir a desempenhar no âmbito das relações internacionais: análise e utilizações preditivas e operacionais. Na análise, os sistemas de IA podem permitir que um número menor de humanos tome decisões de alto nível e a automatização das tarefas repetitivas. Os sistemas preditivos poderão ter um impacto mais profundo ao alterarem, num tempo mais longo, o modo como os legisladores e os Estados entendem os potenciais resultados de alterações de curso. Por fim, as utilizações operacionais da IA não são de prever para já. A ética regulatória e os desafios tecnológicos são de tal ordem que o recurso comum a assistentes pessoais robóticos ainda vai demorar. Mas vai certamente chegar!