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“Homicídio como este só em filmes de James Bond”. Mulheres acusadas de matar irmão de líder norte-coreano ouvidas em tribunal

MOHD RASFAN

De um lado a acusação e do outro a defesa. A acusação argumentou que Siti Aisyah e Doan Thi Huong, acusadas de ter assassinado o meio-irmão de Kim Jong-un, sabiam o que estavam a fazer e tinham sido “treinadas” para isso. Em resposta, a defesa reiterou que as duas mulheres estavam apenas a participar numa brincadeira de um programa de televisão

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

“Homicídios como este só em filmes de James Bond”. Foi desta forma que o procurador Wan Shaharuddin, presente esta quinta-feira no julgamento da indonésia Siti Aisyah e da vietnamita Doan Thi Huong, se referiu à morte do meio-irmão de Kim Jong-un em fevereiro de 2017, no aeroporto internacional de Kuala Lumpur, na Malásia.

As duas mulheres são acusadas de terem praticado o crime. “Não tenho dúvidas de que foram treinadas para fazer o que fizeram, não havia margem para erro”, acrescentou Wan Shaharuddin. A defesa, no entanto, reiterou que as duas mulheres estavam apenas a participar numa brincadeira de um programa de televisão e que não sabiam que tinham em mãos uma substância letal como o agente neurotóxico VX.

O juiz responsável pelo caso tem um prazo até 16 de agosto para decidir se absolve as duas mulheres ou se, pelo contrário, manda chamar novamente a sua defesa. Se forem consideradas culpadas, podem ser condenadas à pena de morte.

Referindo-se a imagens que foram captadas por câmaras no interior do aeroporto, o procurador sugeriu que as duas mulheres conheciam a substância em causa, uma vez que, depois de terem lançado o líquido em direção ao rosto de Kim Jong Nam, se dirigiram de imediato a uma das casas de banho para lavar as mãos e evitar assim serem contaminadas. Se os vestígios do agente tóxico forem retirados no prazo de 15 minutos, deixa de haver perigo para a saúde, conforme testemunhou um especialista no julgamento.

“Se foi uma brincadeira, porque é não o atingiram apenas na cara ou nas pálpebras, mas diretamente nos olhos?”, questionou também. o procurador. Os advogados de defesa, por sua vez, alegaram que, se assim fosse, e se as duas mulheres soubessem que teriam apenas alguns minutos para evitar serem contaminadas, teriam corrido de imediato para a casa de banho mais próxima em vez de simplesmente caminhar, como mostram as imagens a que ambas as partes tiveram acesso.

Kim Jong Nam era muito crítico do regime dinástico da sua família e, segundo a Coreia do Sul, Kim Jong-un já teria emitido uma ordem de execução do irmão. Também os EUA consideram que se tratou de um assassínio politicamente motivado, mas Pyongyang já negou essas alegações em mais do que uma ocasião.

Durante o julgamento, o advogado de Siti Aisyah considerou as provas da acusação “frágeis e circunstanciais”, uma vez que se baseiam apenas em imagens captadas no aeroporto e em vestígios do agente neurotóxico VX encontrados na camisola da sua cliente. O momento em que as duas mulheres se aproximaram de Kim Jong Nam não foi captado por nenhuma câmara.

Os advogados das duas mulheres afirmaram, ainda, que estas deveriam ser absolvidas uma vez que foram privadas de um julgamento “justo” e acusadas com base em investigações “superficiais”.