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A “mãe de todas as estradas” está em perigo. Será possível salvar a Route 66?

A autoestrada mais querida da América era um lugar perigoso nos dias da segregação racial. Agora está em declínio e há um plano para tentar reabilitar os seus icónicos negócios "de beira de estrada"

Richard Jordan/Getty

Imortalizada em dezenas de filmes, livros e peças musicais, a Route 66, uma das mais famosas estradas no mundo, que liga Chicago a Los Angeles, está em perigo. Degradada em vários pontos, com os seus negócios mais icónicos em declínio, as suas terras inóspitas compradas para a construção de arranha-céus, o que é que se pode fazer para reabilitar a mítica autoestrada?

Ana França

Ana França

Jornalista

São 2.400 milhas, ou 3.860 quilómetros, de misticismo e memória coletiva partilhada através de dezenas de peças musicais, filmes e livros que nos últimos 70 anos fizeram da Route 66 um sinónimo de rebeldia e liberdade. Mas a "mãe de todas as estradas", como lhe chamou John Steinbeck em "As Vinhas da Ira", não está a envelhecer bem.

Construída em 1926, sob o auspicioso sucesso dos carros de Henry Ford, a estrada apresenta as mazelas normais de um monumento com quase 100 anos por onde, no seu auge, passava tanta gente que, para conseguir atravessar a estrada, uma pessoa chegava a ter de esperar um quarto de hora. Hoje, como escreve na revista do Smithsonian Meghan Gambino, citando Michael Wallis, um dos maiores defensores da preservação da autoestrada, "poderíamos estender uma toalha aos quadrados no asfalto e fazer um piquenique".

É uma ideia como outra qualquer para a reabilitação da autoestrada que se deverá tornar em breve, oficialmente, uma "rota histórica" e, com isso, receber do Estado os fundos necessários à preservação daquilo que a torna única. As dezenas de motéis com anúncios em néon a dizer "totalmente refrigerado" ou simplesmente "TV" como se uma televisão e um ar condicionado continuassem a ser chamarizes mais do que suficientes para convencer os condutores a pernoitar. Os restaurantes com os seus bancos giratórios de cabedal vermelho, o seu cheiro a fritos que mesmo quem nunca tenha entrado nalgum consegue sentir através das séries norte-americanas que retratam as vidas de polícias durões mas, no fundo, muito carentes, obrigados a investigar crimes hediondos em "terras de um cavalo só". A Route 66 é a forma mais rápida de se chegar a Paris, Texas.

Todas essas coisas ainda existem, mas podem deixar de existir se o abandono desta estrada em prol de outras em melhor estado, ou de voos internos, forem deixando cada vez mais abandonados estes pequenos negócios que sobreviviam do imenso tráfego de há umas décadas. Com o primeiro quilómetro em Chicago, passando pelos estados de Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia, hoje o que mais se vê são estações de serviço abandonadas, tal como restaurantes e postos dos correios, por vezes mesmo vandalizados.

A história da Route 66 não é só sonho e deslumbramento - ou pelos menos não para todos os americanos. Durante os anos da segregação racial, 44 das 66 cidades principais ao longo desta autoestrada estavam classificadas como “sundown cities”, ou seja, cidades de onde os negros tinham que sair até ao pôr-do-sol. Dos 100 motéis em Albuquerque, apenas seis admitiam instalar pessoas negras. Viajar nesta autoestrada era tão perigoso como ser membro de um gangue.

O Fundo Nacional para a Preservação Histórica acabou de incluir a Route 66 nos seus “11 locais em maior risco” dos Estados Unidos. O fundo elege a negligência e a exploração imobiliária como os dois principais problemas da famosa autoestrada. Esta não é a primeira vez que há um esforço para preservar este longo e histórico percurso. No fim dos anos 1980, o senador do Novo México Pete Domenici, ao passar entre Albuquerque e Gallup sentiu o abandono daquelas zonas e apresentou uma lei para a sua reabilitação, que passou em 1999. O “Programa de Preservação da Route 66” envolveu quase uma centena de projetos e o fundo financeiro disponível estava próximo dos 10 milhões de dólares, mas apenas 300 mil têm sido entregues, em média, por ano, na última década.