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Mortes, pobreza, má economia. O México que vai a eleições no domingo, as “maiores da história do país”

PEDRO PARDO/GETTY IMAGES

Em vésperas de eleições presidenciais, consideradas “as maiores na história do México”, o número de políticos assassinados no país continua a aumentar e já vai na casa das centenas, mas nenhum dos candidatos parece ter um plano convincente para acabar com a violência. Também não se sabe como pretendem combater a pobreza e incentivar o crescimento económico, outros dois dos grandes problemas do país

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

“É como se eles achassem que não é importante falar sobre isso ou tivessem medo de o fazer”. A frase, dita ao jornal britânico “Guardian” por um especialista em segurança que passou a última década a monitorizar crimes no México, Eduardo Guerrero, diz muito sobre as preocupações dos mexicanos a três dias das eleições presidenciais, consideradas por muitos “as maiores do país”. Houve mais homicídios em 2017 do que em qualquer ano dos últimos 20 - quase 30 mil, segundo dados divulgados recentemente pelo próprio governo. A somar a isto, há ainda a morte de mais de 100 políticos desde o início da campanha eleitoral, em setembro. Nenhum dos candidatos, porém, parece ter um plano convincente para acabar com a violência.

No próximo domingo, a população mexicana vai escolher o novo presidente do país e terá como hipóteses Andrés Manuel López Obrador, candidato de esquerda do Movimento Regeneração Nacional, que se apresenta às eleições em coligação com o Partido do trabalho (PT, esquerda) e o Partido Encontro Social (PES, direita soberanista) e segue à frente nas sondagens, Ricardo Anaya, candidato do conservador Partido Ação Nacional (PAN), que integra uma coligação com o Partido da Revolução Democrática (PRD, centro-esquerda) e o Movimento Cidadão (MC, social-democrata de esquerda), e José Antonio Meade, aliado do Partido Verde Ecologista do México (PVEM) e da Nova Aliança (PANAL). Além destes, está na corrida às eleições enquanto independente o governador de Nuevo León, Jaime Rodríguez, que, dizem as sondagens, dificilmente obterá uma percentagem significativa dos votos.

Pesará e muito na escolha dos cerca de 88 milhões de eleitores mexicanos a questão da segurança e criminalidade, mas nenhum dos candidatos apresentou propostas muito concretas sobre o assunto. Andrés Obrador, visto por alguns como um populista e por outros como uma “verdadeira alternativa”, propôs conceder uma amnistia a alguns dos criminosos e prometeu estar presente em reuniões de segurança que quer se realizem todos os dias, às seis da manhã.

Ricardo Anaya, que assumiu a luta contra a corrupção como uma das suas prioridades, quer que a campanha militar em curso contra os cartéis da droga - que vários estudos mostraram já estar a ter um impacto muito reduzido sobre o problema - continue, e José Antonio Meade também está preocupado com os cartéis mas em particular com aqueles que os financiam, estratégia que alguns analistas políticos consideram que até poderá resultar a longo prazo, mas no imediato provocará ainda mais violência. Jaime Rodríguez, por sua vez, fez uma proposta um pouco mais ousada, sugerindo “cortar as mãos aos criminosos”.

Oito mil pessoas assassinadas em três meses

Só nos primeiros três meses de 2018 já foram assassinadas oito mil pessoas, números que espelham uma crise em contínuo que o México ainda não conseguiu estancar - é o crime organizado e é também a infiltração de criminosos nos governos locais e nas instâncias judiciais. Os assassínios, sequestros e violência cometidos por gangues começaram durante o governo do ex-presidente Felipe Calderón, que lançou uma guerra contra os cartéis de droga. As atividades criminosas diversificaram-se e além do tráfico de droga tornaram-se mais frequentes os roubos, extorsão, homicídio e corrupção. Nem o apoio financeiro dos EUA evitou que o México se tornasse a cada dia mais perigoso.

Particularmente vulneráveis ao crime organizado são os políticos, sobretudo aqueles que se recusam a fechar os olhos a atividades ilegais nos municípios ou territórios que governam. Uma das vítimas, Fernando Puron, candidato ao congresso pela cidade fronteiriça de Piedras Negras, foi atingido a tiro enquanto tirava uma selfie. Mais de 130 políticos já foram assassinados desde que começou informalmente a campanha eleitoral, em setembro de 2017. Durante um debate dias antes de ser atingido, Fernando Puron havia dito: “O crime é para enfrentar - não é para temer”.

Além do flagelo que é o crime organizado no país, há outros assuntos em discussão, nomeadamente as negociações em torno do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), que Donald Trump, Presidente norte-americano, considerou “calamitoso” e quer substituir por acordos separados com o Canadá e o México. As três partes estão de acordo quanto à necessidade de renegociar o tratado original, que tem quase um quarto de século, para tomar em consideração a evolução do contexto social e ambiental.

Também a imposição, por parte de Washington, de taxas aduaneiras às importações de alumínio e aço provenientes da União Europeia, Canadá e México, e a resposta do México à decisão de Washington, através da imposição de tarifas sobre produtos dos EUA - como a carne de porco, aço, whisky e queijo - é um assunto corrente e que manterá bastante ocupado o candidato vencedor, que terá além disso de implementar medidas para incentivar o crescimento económico e combater a pobreza. Segundo a OCDE, sete em cada 10 mexicanos vivem numa situação de pobreza ou vulnerabilidade, e os 20% mais ricos da população ganham 10 vezes mais do que os 20% mais pobres.

Além ser escolhido o substituto do atual presidente Enrique Pena Nieto, serão também eleitos a 1 de julho 500 deputados e 128 senadores do Congresso Federal, bem como as autoridades locais em 30 dos 31 estados do México.