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Eis Alexandria: a socialista de 28 anos, filha de imigrantes, que derrotou um dos mais influentes democratas dos EUA

Alexandria Ocasio-Cortez, se vier a ser eleita, será a mais jovem mulher a ser eleita para o Congresso

Scott Heins/Getty

Alexandria Ocasio-Cortez tem 28 anos e conseguiu, em Nova Iorque, retirar ao veterano democrata James Crowley a possibilidade de concorrer à Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de novembro. Se vencer o seu oponente republicano, será a mulher mais jovem de sempre a ser eleita para o Congresso dos Estados Unidos

Ana França

Ana França

Jornalista

Um ano antes de se ter tornado a nova estrela da ala progressista dos Democratas norte-americanos, Alexandria Ocasio-Cortez estava a servir cocktails, com fortes doses de tequila nas receitas, num bar mexicano. Agora, a sensação política de 28 anos vai concorrer nas eleições intercalares de novembro pelos democratas, em vez de Joe Crowley, 56 anos, um veterano do partido que era indicado como próximo líder da bancada democrata na Câmara dos Representantes ou mesmo como Presidente da Assembleia.

Esta era a décima vez que Crowley tentava a nomeação democrata pelos distritos do Bronx e Queens, em Nova Iorque - conseguiu as outras nove e segurou o seu assento por dez mandatos. Mas depois chegou Alexandria com os seus auscultadores nos ouvidos, MacBook debaixo do braço e vídeos virais que a mostram na sua rotina diária, de metro para todo o lado.

A jovem que só estudou numa escola de classe alta porque não conseguiu vaga na do seu bairro é parte de um movimento maior dentro do partido democrata. Não só um que privilegia a eleição de mulheres como concorrentes pelas cores do partido como também um que se está a alinhar a uma esquerda “europeia”, a esquerda de Bernie Sanders, sem tanto medo quanto aquele que ainda há nas fileiras democratas centristas da palavra “socialismo”.

Mas as conotações que o termo tem na América já não dizem muito a “millenials” como Alexandria que, depois de se ter recomposto do completo choque da vitória disse à MSNBC que “começou a campanha com um saco de papel, apenas com um registo das pessoas de cada comunidade, panfletos e batendo a todas as portas”.

Filha de uma empregada de limpeza porto-riquenha e de um pequeno comerciante nova-iorquino nascido também no Bronx, formou-se, depois, em Economia e Relações Internacionais pela Universidade de Boston e voltou ao seu bairro após completar os estudos para tentar ganhar algum dinheiro enquanto procurava emprego na sua área. Foi aí que começou a servir à mesa e o salário não era só para as suas coisas.

Alexandria contribuia para a casa tanto quanto a mãe que, depois da morte do pai, de cancro, teve que encontrar um segundo emprego: motorista de autocarro. A sua história de vida contaminou a sua visão política, como a própria admitiu na mesma entrevista. “A minha mãe limpava casas e guiava autocarros escolares e quando a minha família estava quase a apresentar falência eu fui servir à mesa. Entendo bem o sofrimento dos americanos das classes mais baixas porque foi aí que cresci”, disse a jovem.

Em 2016, Alexandria participou na organização da campanha de Bernie Sanders, o Independente de Vermont à nomeação democrata à Casa Branca, que ele perdeu para Hillary Clinton. As suas ideias contudo, criaram raízes, e foi com elas que a jovem se bateu nesta eleição conta Crowley, alguém que ela considera “um democrata do sistema”. Dizendo sempre que “os democratas não são todos iguais”, Alexandria pediu o fim da Agência de Controlo de Imigração (ICE, em inglês) que é bastante criticada pela forma como trata os imigrantes que ficam nas suas instalações, pediu o fim das propinas nas Universidades e o chamado “emprego universal” que prevê que o governo federal encontre um emprego para cada cidadão. Ideias bem socialistas, até para os países nórdicos desde lado do Atlântico.

Em 2017, a braços com os pesadíssimos empréstimos que a maioria dos americanos pedem para poderem estudar, decidiu candidatar-se contra Crowley nas primárias democratas para governadora de Nova Iorque. Venceu com quase 60% dos votos. “Não é suposto haver mulheres como eu a tentar chegar ao governo”, dizia um dos seus cartazes.