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Obama não é Mandela

Barack e Michelle Obama

MICHAEL REYNOLDS/EPA

O ex-Presidente dos EUA é o orador convidado pela Fundação Mandela para proferir a conferência anual da instituição, este ano agendada para a véspera do 100.º aniversário de “Madiba”. Mas a escolha de Obama está a motivar críticas

Margarida Mota

Jornalista

Nas vésperas de viajar até Portugal — onde a 6 de julho dará uma conferência no Coliseu do Porto sobre alterações climáticas —, Barack Obama está confrontado com uma contestação pouco habitual.

O 44.º Presidente dos Estados Unidos — o primeiro negro a ocupar a Casa Branca — é o orador convidado pela Fundação Mandela para proferir a sua palestra anual, agendada para 17 de julho, em Joanesburgo. A escolha de Obama para homenagear “Madiba”, como é carinhosamente tratado pelos sul-africanos o líder da luta contra o “apartheid” falecido em 2013, não é, porém, consensual.

Numa carta aberta endereçada à Fundação Mandela, a organização CAGE Africa — que trabalha no sentido de reverter as narrativas da “guerra contra o terrorismo” que prevalecem no continente africano — apela a que seja “retirado o convite” a Barack Obama.

“Várias notícias e relatórios independentes, investigações criminais e processos em tribunal relacionaram Obama, enquanto comandante-chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos entre 2009 e 2017, com crimes de guerra, incluindo tortura, prisões arbitrárias e rendição, e execuções extrajudiciais através de indiscriminados ataques aéreos e com recurso a drones que provocaram a morte de milhares de civis inocentes, sobretudo muçulmanos, em nome do ‘combate ao terrorismo’”, lê-se na carta com data de 5 de junho.

“Isto é especialmente pertinente dado o legado de Nelson Mandela como um indivíduo que também foi, em tempos, designado de ‘terrorista’ e foi torturado e preso, e que agora é visto como uma das figuras proeminentes para a justiça em todo o mundo.” Nos EUA, o nome de Mandela apenas foi retirado da lista negra de terroristas em 2008 — 15 anos após receber o Nobel da Paz.

Erros e arrependimentos

Durante os oito anos de Barack Obama na Casa Branca, os Estados Unidos intervieram militarmente em pelo menos seis países. “Obama, ao contrário da sua imagem pacífica, realizou 10 vezes mais ataques com drones do que o seu antecessor [George W.] Bush, matando milhares de civis no Afeganistão, Iémen, Paquistão, Síria, Iraque e Somália durante o seu mandato presidencial.”

Em declarações à Al-Jazeera, o porta-voz da Fundação Mandela, Lunga Nene, disse que o ex-Presidente sul-africano tinha um “grande respeito” por Obama e que o próprio legado de Mandela tem sido objeto de contestação “particularmente por parte dos mais jovens”. Nene disse que a Fundação pediu a Obama que abordasse as suas reflexões pós-presidência “relativas a erros e arrependimentos”.

Tributo musical em Matosinhos

A palestra da Fundação Mandela deste ano é a 16.ª desde o começo da iniciativa, em 2003, ano em que um antecessor de Obama, Bill Clinton, foi o orador convidado. A edição de 2018 é especial já que se realiza na véspera do 100.º aniversário do nascimento de “Madiba”, a 18 de julho de 1918.

Em Portugal, a efeméride será assinalada em Matosinhos, num tributo musical na Praia do Aterro. Entre 18 e 20 de julho, subirão ao palco Bob Geldof, Pablo Alborán, Kaiser Chiefs, Steven Tyler, Rui Veloso, Youssou N’Dour, entre muitos outros. E também o Soweto Gospel Choir.