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“A Europa está a ver estas pessoas a perderem-se lentamente”: a história de mais um navio proibido de chegar à terra prometida

HERMINE POSCHMANN / MISSION LIFELINE / HANDOUT

Portugal vai receber parte das pessoas resgatadas pelo navio Lifeline, garantiu do ministro da Administração Interna. Antes, os migrantes vão desembarcar supostamente em Malta, disse o primeiro-ministro italiano, embora a Missão Lifeline diga que não tem autorização para o fazer. Estão 234 pessoas a bordo, paradas há cinco dias no Mediterrâneo depois de terem sido resgatadas. Quem são? De onde vêm? Pouco se sabe. Onde querem chegar? Esta é única pergunta que já tem resposta

Pararam na sexta-feira. Ninguém lhes queria dar terra. Chegou e foi-se embora o fim-de-semana, continuaram parados. Então, veio a segunda-feira e nada. Só esta terça-feira surgiram as primeiras notícias: vão desembarcar em Malta. Pelo menos é o que diz o primeiro-ministro italiano.

Há cinco dias que o navio de resgate Lifeline está sem saber para onde ir. A bordo tem 234 pessoas. O navio é pequeno e está há cinco dias sem se mexer no Mar Mediterâneo apesar de se encontrar muito próximo de um pais europeu, que se recusou recebê-lo. Itália fez o mesmo. E, uma vez mais, a história repete-se: um navio de uma organização não-governamental com centenas de pessoas resgatadas do Mediterrâneo barrado à entrada da Europa porque ninguém as quer acolher.

Há dias que temos de ler no Twitter sobre o que nos vai acontecer. Dificilmente recebemos uma mensagem direta. Agora acabámos de ler que fomos autorizados a entrar em Malta. Agradecemos o apoio de Malta, mas precisamos da ajuda dos países da União Europeia para receber estas pessoas. Foi isso que Malta pediu, e é também isso que pedimos”, a Missão Lifeline, a organização-governamental alemã que opera o navio, nas redes sociais. As notícias davam conta que o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, tinha falado ao telefone com o homólogo maltês, Joseph Muscat, e que juntos tinham encontrado uma solução: o navio ia desembarcar em Malta e, posteriormente, os migrantes seriam transportados para vários países, incluindo Portugal – o anúncio foi feito pelo ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita esta terça-feira durante a comissão parlamentar dos Assuntos Constitucionais.

No entanto, ao final da tarde desta terça- feira, a Missão Lifeline não confirmava as notícias: “não tivemos autorização para entrar em águas territoriais de Malta”.

O primeiro resgate aconteceu quase há uma semana, no dia 20. Entretanto, na sexta-feira, foi-lhes pedida ajuda porque estavam próximos de um barco de borracha com mais algumas dezenas de pessoas. O Lifeline aceitou e resgatou mais essas pessoas. No total, estão agora 234 migrantes num navio de salvamento e resgate que não está preparado para manter tanta gente a bordo durante tantos dias (nenhuma embarcação deste género está).

“Temos mais de 200 pessoas no navio - mulheres, crianças e homens. Cada zona do convés está cheio de cobertores e pessoas a dormirem no chão. Cada um deles tem uma história para contar. E cada um deles está à procura de um pedacinho de segurança”, informa a ONG através das redes sociais. A maioria são homens de origem africana. Há quatro crianças com menos de três anos a bordo. Pouco se sabem sobre quem são ou de onde vieram. Sabe-se apenas para onde queriam ir: a Europa. Por isso, arriscaram a vida e compraram a passagem pelo Mar Mediterrâneo, que custa pelo menos mil euros.

Esta terça-feira, uma pessoa já teve de ser retirada do Lifeline devido à degradação do estado de saúde.

Itália recusou recebê-los. Estão parados a cerca de 56 quilómetros de Malta, que também os recusou. “A Europa está aqui ao lado a ver estas pessoas a perderem-se lentamente”. As palavras eram do cofundador da Lifeline à Associeted Press quando lhe pediram para comentar o que se estava a passar com a embarcação. Primeiro foi o Aquarius, agora o Lifeline e ainda há o Seefuch (da ONG See-Watch), que ainda não tem um porto seguro atribuído.

Um problema de bandeira

O Lifeline foi proibido de atracar em Itália. Após o Aquarius, que acabou por atracar em Valência, as autoridades italianas têm imposto barreiras às chegada de navios operados por ONG, que acusam de estarem a colaborar com os traficantes que trazem os migrantes em barcos de borracha para o Mediterrâneo. Quando Giuseppe Conte anunciou que o desembarque do Lifeline ia acontecer em Malta, deixou a garantia de que o país que lidera “iria fazer a sua parte e acolher uma quota dos imigrantes, com a esperança de que outros países europeus façam o mesmo”.

Felix Weiss / HANDOUT/ EPA

“O navio ilegal da Lifeline está nas águas de Malta. Pela segurança da tripulação e passageiros, pedimos a Malta para abrir os seus portos”, dizia Matteo Salvini, ministro do Interior de Itália numa entrevista publicada no domingo no “Der Spiegel”. “Não podemos aceitar nem mais uma pessoa. Pelo contrário: queremos mandar algumas embora.”

No caso do Lifeline, o confronto com Conte teve também que ver com a questão da bandeira do navio, que está registada como holandês, mas que Itália acusa – tal como acontece com o navio Seefuch – de estar em situação irregular. “Resgatamos dentro de toda a legislação aplicável”, nega a ONG.

Quem se encontra nas praias da ilha de Malta consegue ver, ao fundo, o Lifeline parado. Por agora, há comida e água que cheguem. O tempo melhorou, apesar de tripulantes e passageiros terem vivido dias em que o mar esteve agitado e piorou o estado de saúde de quem estava a bordo.

A ONG começou a atuar em outubro de 2015, primeiro na rota dos Balcãs. Na altura, um grupo de cidadãos saiu de Dresden, na Alemanha, para levar bens e trabalhar em regime de voluntariado na Grécia. “Finalmente, esta rota acabou por ser travada e as pessoas tiveram de encontrar uma nova forma de chegar. Uma nova rota nasceu no Mediterrâneo.” Enquanto parte do grupo continuou nos campos de refugiados gregos, mais gente se juntou, e então arrancaram os salvamentos no mar. Em abril de 2016, nasceu a Missão Lifeline.