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Internacional

13 mil migrantes sem água ou comida obrigados pela Argélia a atravessarem o Saara

DEA / G. MUSSA/ Getty Images

Um grande número de pessoas não sobrevive às caminhadas forçadas. “Havia pessoas que não conseguiam aguentar. Sentaram-se e nós fomos embora. Estavam a sofrer demasiado”, conta um adolescente que fez o caminho

Luís M. Faria

Jornalista

A Argélia abandonou milhares de migrantes no deserto ao longo dos últimos catorze meses, muitos deles sem água nem comida nem comunicações e sujeitos a temperaturas que se aproximam dos cinquenta graus centígrados. É o que conta uma reportagem da Associated Press, onde sobreviventes desse horror contam as suas histórias.

Um desses sobreviventes é Janet Kamara, uma liberiana que se encontrava grávida. "As mulheres caíam mortas, os homens... Outras pessoas perdiam-se no deserto por não conhecerem o caminho." O filho de Kamara acabou por ter a sua sepultura no meio do deserto.

Levados em camionetas e abandonados no deserto, aos emigrantes apenas era apontada a direção geral que deveriam seguir – o Níger. Um senegalês de 18 anos, Aliou Kande, cujo grupo originalmente teria cerca de mil pessoas às quais eram impostas marchas de quase doze horas, contou à AP que a certa altura havia pessoas que já não aguentavam e se sentavam, presumivelmente à espera de morrer.

Um dos principais fatores que levou a Argélia a expulsar migrantes em massa a partir de 2017 foi a pressão de países ricos para se controlar o fluxo humano que atravessa o Mediterrâneo em direção à Europa. A reação em países como a Itália é cada vez mais hostil, como se constata quase diariamente.

As pressões sociais e políticas que a acompanham ainda não conseguiram produzir sequer o esboço de uma solução global para o problema, mau grado as tentativas de líderes como Angela Merkel, que defendem a repartição do esforço entre a Europa inteira, ou a proposta de estabelecer "centros de acolhimento" nos países de origem.

Segundo números agora fornecidos, mais de 11 mil pessoas terão sobrevivido à viagem desde outubro passado, entre elas muitas mulheres e crianças. Quanto aos mortos, estima-se que por cada pessoa que se perde no mar haja duas que não sobrevivem ao deserto do Saara.