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Mais de 56 milhões de turcos vão hoje à urnas

Um homem prepara-se para votar numa assemblei de voto em Ancara

STOYAN NENOV

Mesmo tendo antecipado as eleições legislativas e presidenciais em 16 meses, o presidente Erdogan ante poderá não ser eleito à primeira volta. O duplo escrutínio é acompanhado por 195 mil observadores e as urnas fecham às 15 horas de Lisboa.

Mais de 56 milhões de eleitores são hoje chamados a eleger o Presidente e o parlamento da Turquia, num duplo escrutínio em que o Presidente cessante, Recep Tayyip Erdogan, poderá não ser eleito à primeira volta.

Para estas eleições, presidenciais e legislativas, estão convocados 56,3 milhões de eleitores, enquanto os três milhões de turcos no estrangeiro exerceram o seu direito entre 07 e 19 de junho.

A votação começa às 08:00 locais (06:00 em Lisboa) e dura até às 17:00 (15:00 em Lisboa) em 181 mil assembleias de voto.

Estas eleições, antecipadas em 16 meses, são as primeiras desde as mudanças constitucionais adotadas após o referendo de abril de 2017, menos de um ano após escapar a uma tentativa de golpe de Estado fomentada por uma fação de militares em julho de 2016.

Ao vencedor das eleições presidenciais de hoje serão por isso atribuídos poderes reforçados.

Na campanha eleitoral, Erdogan confrontou-se pela primeira vez com uma inesperada união de diversos partidos da oposição e um candidato presidencial, Muharrem Ince, apresentado pelo Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata), com capacidade para rivalizar com o seu carisma, prevendo-se duas votações arduamente disputadas.

Seis candidatos e duas coligações

No total, seis candidatos confrontam-se no escrutínio presidencial, incluindo Selahattin Demirtas, do Partido Democrático dos Povos (HDP, pró-curdo e de esquerda), detido desde finais de 2016 e que dirige a campanha desde a prisão.

Apesar de o presidente cessante surgir de novo como favorito, poderá não garantir os 50% de votos necessários para garantir a eleição à primeira volta, enquanto o AKP se arrisca a perder a maioria absoluta, como sucedeu em junho de 2015.

Devido à reforma constitucional de abril de 2017, vão ser eleitos 600 deputados para a Grande Assembleia Nacional (parlamento), contra 550 no anterior hemiciclo.

Para as legislativas, foram formadas duas coligações. A “Aliança do povo” inclui o AKP, no poder, e o MHP de Devlet Bahçeli, que dirige o partido desde 1997. O partido da Grande União (BBP) apresenta candidatos nas listas do AKP.

A segunda coligação, “Aliança da nação”, integra o CHP, o Iyi Parti (Bom Partido, direita nacionalista, dirigido pelo antigo ministro do Interior Meral Aksener), e o Saadet (Partido da Felicidade, islamita conservador e dirigido pelo veterano Temel Karamollaoğlu). O Demokrat Parti (DP, centro direita), apresenta candidatos nas listas do Yiy Parti.

Já o HDP e o Hüda-Par (islamita curdo) optaram por se apresentar sozinhos às legislativas.

ONG e partidos organizam-se para impedir fraude eleitoral

Os partidos opositores turcos e várias organizações não-governamentais (ONG) que receiam irregularidades nas eleições presidenciais e legislativas de domingo e na contagem de votos organizaram-se para vigiar as urnas.

A Plataforma de Justiça Eleitoral, uma organização de formações da oposição, sindicatos e ONG, apresentou esta semana um plano para distribuir observadores eleitorais pelas 81 províncias do país.

"Claro que há perigo de fraude, mas se se fizer um acompanhamento de perto, junto das urnas, documentando todas as contagens e centralizando os dados para poder impugnar, pode impedir-se que ocorra", comentou Onursal Adigüzel, deputado do partido social-democrata CHP e um dos impulsionadores da plataforma, citado pela agência espanhola Efe.

O movimento conta com 415.000 elementos de mesa e 195.000 observadores em toda a Turquia e desenvolveu uma aplicação para telemóvel para atualizar a recontagem de votos à boca das urnas e compará-la com os números das autoridades eleitorais.


As mesas de voto turcas fechasm às 15horas de Lisbo

As mesas de voto turcas fechasm às 15horas de Lisbo

UMIT BEKTAS

A agência de notícias Dokuz8Haber lançou uma iniciativa no âmbito da qual os jornalistas investigarão possíveis notícias falsas que surjam durante a jornada eleitoral.
Os cidadãos também poderão alertar a Dokuz8Haber do aparecimento desse tipo de notícias através de uma 'etiqueta' ('hashtag') na rede social Twitter.

Os ativistas deram o alarme relativamente a duas decisões da Junta Eleitoral (YSK) que poderão facilitar as irregularidades durante o ato eleitoral.
Uma delas é admitir como válidos votos que não estejam devidamente selados pelas mesas eleitorais, uma decisão que desencadeou já uma grande controvérsia no referendo constitucional de abril de 2017, quando a Junta Eleitoral validou 2,5 milhões de boletins de voto sem selo.

Problemática é também a decisão da YSK de relocalizar algumas assembleias de voto do sudeste do país, de maioria curda, alegando "motivos de segurança".

Ayhan Bilgen, porta-voz do partido esquerdista e pró-curdo HDP, que é a força mais votada no sudeste da Turquia, está preocupado com o facto de alguns cidadãos terem de percorrer mais de cinco quilómetros para poderem votar.

"Cerca de 144.000 votantes ver-se-ão afetados por esta medida. É uma quantidade numérica que poderá influenciar o resultado das eleições", disse recentemente Bilgen à imprensa em Istambul.

São muitos também os que creem que autarquias e empresas próximas do partido governante AKP, no poder desde 2002, estão a pressionar os seus trabalhadores para que votem nele e assistam aos seus comícios, embora até agora ninguém se tenha atrevido a denunciá-lo publicamente.

"Nota-se que os cidadãos recebem pressões. Têm medo. Nas sondagens, não se atrevem a falar da sua intenção de voto", comentou Onursal Adigüzel.
A Oy ve Ötesi ("Voto e Não Só"), uma organização não vinculada a nenhum partido que se dedica desde 2013 a observar jornadas eleitorais, também terá 50.000 voluntários em todo o país.

Para a ocasião, também desenvolveu uma aplicação móvel para que observadores e cidadãos possam denunciar em tempo real possíveis irregularidades.

"A Oy ve Ötesi não faz parte da Plataforma de Justiça Eleitoral, mas apoiamo-nos mutuamente. Compararemos os resultados das eleições", indicou Adigüzel.

Além do destacamento de voluntários e observadores nacionais, as eleições serão observadas por uma missão de delegados do Parlamento Europeu e da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que na segunda-feira dará a conhecer em Ancara as primeiras conclusões do seu trabalho.

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