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Uma coligação de estranhos

Apoiantes de Muharrem Ince, candidato pelo Partido Republicano do Povo, em Izmir, na Turquia

SEDAT SUNA/epa

O Presidente turco, Recep Erdogan, tem mais poder do que nunca mas nunca esteve tão perto de o perder. A primeira volta das eleições presidenciais realiza-se este domingo e coincide com as parlamentares, uma estreia na democracia turca. A oposição está unida numa coligação de estranhos, unidos contra Erdogan. O secularismo está em risco de erosão ou vai sair reforçado?

Depois de 15 anos no governo, Recep Tayyip Erdogan tem mais poder do que nunca mas chega agora às eleições presidenciais, cuja primeira volta se realiza este domingo, sem a certeza de que as vencerá. Se, por um lado, as sondagens mais recentes dão-no como provável vencedor, com 51,9% dos votos, também mostram uma variedade assinalável de candidatos às eleições. Nunca a oposição esteve tão unida na Turquia e pode parecer algo contranatura ver o Partido Republicano do Povo (CHP), de Mustafa Kemal Ataturk, o venerado líder secular e fundador do Estado turco, concorrer de braço dado com o fortemente islâmico Felicity Party (SP), mas os tempos assim o exigem e a mudança parece ter-se tornado mais importante do que o alinhamento ideológico. “É verdade que Erdogan tem uma agenda para criar uma geração de devotos fervorosos, para fomentar a importância da religião quer na esfera pública quer na esfera privada, mas o secularismo continua a ser um pilar da sociedade turca e não há vontade de mudar isto. O secularismo não está, para já, em risco de se perder”, diz ao Expresso Sinan Ülgen, investigador no Centro de Estudos Económicos e Relações Internacionais de Istambul. Também Kemal Kirisci, investigador e diretor de um dos grupos de trabalho da Brookings Institution sobre a Turquia, concorda que o secularismo não está em causa mas há um outro valor que sim. “A questão mais crítica é se a democracia turca vai sobreviver”, refere, mantendo-se, porém, otimista. “A democracia mostrou que está viva. A oposição conseguiu organizar-se para fazer frente ao Presidente turco.”

Erdogan pode sair vencedor da primeira volta mas seria imprudente não se preocupar com candidatos como Muharrem Ince, professor de física com o dom da oratória, que tem 54 anos e entrou na corrida às eleições a convite do Partido Republicano do Povo (CHP). A sondagem já aqui citada, realizada pela empresa privada turca Konda e divulgada quinta-feira, atribui-lhe 28% dos votos. “Ele foi muito eficaz na sua campanha eleitoral, mesmo tendo o jogo claramente virado contra si, nomeadamente em termos de acesso aos meios de comunicação”, avalia Kemal Kirisci. Muharrem Ince é conhecido por ir à mesquita regularmente, mas também por não dispensar uma bebida alcoólica quando a ocasião o chama. Em tempos fez do secularismo e da pouca amabilidade para com os muçulmanos e os curdos do país a sua principal arma, mas entretanto adotou um tom mais conciliatório e uma narrativa de apelo à diversidade étnica e social. Na prática, tornou-se um grande promotor do ensino curdo nas escolas do governo e garantiu que já não tem a intenção de voltar a proibir o uso do véu por parte das mulheres turcas. Isa Cal, arquiteto turco de 30 anos que vive em Antália, no sul da Turquia, reconhece-lhe essa abertura e “respeito pelas diferentes culturas” e é por isso, e também “pela proximidade” com a população, que vai votar nele. “Todos nós sentimos que é como se ele pertencesse à nossa família. Não se comporta como os outros políticos que mentem.”

Muharrem Ince

Muharrem Ince

reuters

A limpeza resultou?

Desde o golpe de Estado falhado de 2016, Erdogan tem vindo a conduzir purgas periódicas: nos meios de comunicação social, em escolas públicas, privadas e universidades e contra representantes religiosos, no aparelho de Estado e no Exército, por acreditar que foram os rebeldes seculares inspirados por Fethullah Gülen, um ex-aliado de Erdogan hoje exilado nos Estados Unidos, que tentaram depô-lo naquele dia de julho. Há cerca de 50 mil pessoas presas por suspeita de terem participado na organização desse golpe e mais de 100 mil perderam os seus empregos no sector público, segundo números oficiais corroborados por organizações não-governamentais como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch. Rose Anderson, diretora dos serviços de proteção da Scholars at Risk, que dá apoio a professores em todo o mundo, diz ao Expresso que chegaram à organização mais de 800 pedidos de ajuda de académicos desde que começou a purga. “Alguns estão agora na Europa ou nos EUA, onde conseguimos garantir-lhes um lugar, mas outros viram os seus passaportes confiscados pelo Governo e não puderam sair. Não podem nem trabalhar na Turquia nem procurar oportunidades noutros países.”

A., turco de 30 anos (nome aqui omitido por razões de segurança), saiu do país assim que viu o seu nome e o da sua mulher incluídos numa “lista de espiões e traidores” elaborada pelo Governo turco, em fevereiro. Não sabe como é que os nomes foram ali parar mas suspeita que foi por causa da cobertura crítica que fez sobre a situação em Afrin, cidade no norte da Síria que a Turquia ocupou recentemente, para o site de notícias turco para o qual trabalhava. “Dois dias depois de essa lista ter sido tornada pública, todos os que trabalhava comigo saíram do país. Se ficássemos íamos ser detidos e ficar na prisão indefinidamente.” À distância, A. vê nestas eleições uma oportunidade para a oposição, que se uniu “por conveniência, para evitar a concentração de poderes nas mãos de um único homem”, e também para si e para os milhares de turcos que foram obrigadas a sair do país. “Em nenhuma outra circunstâncias estes candidatos ter-se-iam entendido. Mas entenderam-se e se as coisas de facto acalmarem, creio que poderei regressar.”

Economia em regressão: “conspiração externa” ou “más políticas económicas”?

A economia turca está perto do colapso devido à queda acentuada do valor da lira - facto que Erdogan atribui a “conspirações externas” e não são poucos, entre aqueles que o apoiam, que também acreditam nisso. A inflação e o desemprego ultrapassam ambos a marca dos 10% e o défice subiu 58% no último ano. Em vez de tentar estancar a crise, Erdogan tem optado por canalizar o seu ódio para as altas taxas de juro exigidas pelos seus credores e recentemente prometeu ter um papel mais interventivo junto do Banco Central da Turquia.

Kemal Kirisci compara a situação à que se viveu em países como a Argentina, Grécia e Espanha antes da crise financeira. “Erdogan continua a injetar dinheiro barato na economia e os potenciais investidores têm muitas dúvidas sobre a saúde da economia da Turquia e sobre a sua capacidade para pagar as dívidas.” Ao mesmo tempo que a economia contrai, o Presidente turco parece disposto a investir em grandes projetos de obras públicas. “Há só casas e mais casas, centros comerciais, túneis, tudo, mas não há dinheiro para usufruir desses bens. O Estado é obrigado a arcar com os prejuízos e isso só tem vindo a piorar a situação. É um círculo vicioso.” Muharrem Ince, ao contrário de Erdogan, defende como caminhos para equilibrar a economia turca uma maior aproximação aos aliados transatlânticos e à União Europeia (restaurando o processo de acesso ao bloco) e uma maior aposta na produção de bens de alta tecnologia. Medidas que, na opinião de Kemal Kirisci, são “muito importantes”, ainda que façam parte de um pacote que não está isento de “populismo” e do qual constam promessas como a do aumento das bolsas de estudo e das pensões.

Meral Akşener, líder do partido Iyi (Partido Bom, de centro-direita), é a única mulher na corrida

Meral Akşener, líder do partido Iyi (Partido Bom, de centro-direita), é a única mulher na corrida

FOTO OSMAN ORSAL/REUTERS

Os refugiados têm medo dela

Em terceiro lugar na sondagem da Konda aparece Meral Akşener, com 10,2% dos votos. Tem 61 anos, é líder do partido Iyi (Partido Bom, de centro-direita), que fundou em 2017 após deixar o MHP (Partido de Ação Nacionalista que se coligou com o AKP de Erdogan para as eleições que se avizinham) e é a única mulher na corrida. É também a única de entre os restantes candidatos de direita capaz de desafiar o Presidente turco pelo tom nacionalista com que pintou o manifesto. Os refugiados sírios, 3,5 milhões deles segundo o ACNUR, preferem o atual Presidente: “É verdade que ele não nos apoia como antes, mas pelo menos não nos quer deportar”, diz ao Expresso Hussain Kasom, sírio de 31 anos que vive em Istambul há mais de cinco e trabalha numa rádio local. Refere-se à promessa feita recentemente por Meral Akşener de deportar todos os refugiados sírios que vivem no país. Também Muharrem Ince já disse que se os sírios podem ir ao país deles “de férias” é porque “é seguro e é lá que deviam ficar”, perguntando ironicamente na CNN turca: “O que é isto? Uma sopa dos pobres?”. “Eu e todos os refugiados sírios temos medo destas eleições porque independentemente dos resultados haverá consequências negativas para nós. Todos os candidatos da oposição usaram a questão dos refugiados como trunfo para conquistar os eleitores”, diz Hussain Kasom.

A Meral Akşener chamam-lhe “dama de ferro” da Turquia e há quem a conheça pelo nome “Asena”, uma mítica loba azul que afastava as tribos turcas do perigo - e o perigo, neste caso, é Erdogan. O seu “Iyi” pode conseguir os 10% dos votos que lhe permitem a entrada no parlamento. Akşener defende mais parcerias entre a Turquia e a Europa, mas tem criticado esta última por ter conduzido as negociações para a adesão do seu país ao bloco europeu para “um beco sem saída”.

O quarto e quinto candidatos

Carismático ao ponto de já ter sido considerado a versão curda de Barack Obama, Selahattin Demirtaş candidatou-se às eleições a partir da cela numa prisão na cidade de Edirne, onde se encontra detido desde novembro de 2016, acusado de “terrorismo” pelo Governo turco. Fazer campanha é complicado pelos canais oficiais. Uma pesquisa da agência Associated Press mostra que o canal público de televisão turco deu a Erdogan 68 horas de emissão desde o início da campanha, o que contrasta com as sete para Ince e os 13 minutos de Aksener. Os candidatos tiveram então de se tornar bastantes inventivos. As redes sociais são a ferramenta principal da oposição mas para Demirtaş, que está preso, as coisas tornam-se ainda mais complicadas. Recentemente, tem entregue os seus discursos políticos através dos telefonemas para a sua mulher, a que tem direito duas vezes por semana. Há quem ainda veja os curdos como terroristas dentro do Estado turco a lutar por um território independente, mas Muharrem Ince, o homem na melhor posição para derrotar ou pelo menos dissolver a aura de intocável de Erdogan, visitou o líder curdo na cadeia, um estreia na política turca, sujeitando-se a ser preso por associação terrorista. É apenas um episódio que mostra bem que o jogo desta vez é outro.

O último da lista de adversários de Erdogan é Temel Karamollaoğlu, líder de uma formação conservadora e pró-islâmica chamada Partido da Felicidade, que também escolheu juntar-se à coligação e é mais um ponto a favor desta: os mais religiosos, que veem em Erdogan alguém tão devoto quanto eles, podem ver em Karamollaoğlu uma espécie de garantia de que a religião não será aniquilada pelo regresso do “secularismo em estado puro” do Partido Republicano do Povo.

elahattin Demirtaş, líder do Partido Democrático do Povo (HDP, pró-curdo)

elahattin Demirtaş, líder do Partido Democrático do Povo (HDP, pró-curdo)

fOTO BURAK KARA/GETTY IMAGES

À exceção de Selahattin Demirtaş, líder do Partido Democrático do Povo (HDP, pró-curdo), todos os candidatos da oposição já disseram estar dispostos a apoiar um nome único se nenhum partido assegurar os 50% de votos na primeira volta e houver uma segunda. Se vão conseguir fazê-lo, dadas as diferenças abissais entre eles, é também uma das mais prementes questões neste momento. Sinan Ülgen acredita que sim. “Acho que há motivação suficiente para superar as diferenças e trabalhar em conjunto.”

Dogan Akhanli, conhecido ativista turco dos direitos humanos e crítico de Erdogan que esteve preso na Turquia entre 1985 e 1987, não sabe se a oposição conseguirá entender-se mas espera que sim. “Isso poderia ser o início de um processo de democratização da sociedade turca a longo prazo”, diz ao Expresso. Mesmo que o Presidente turco “não abandone o poder voluntariamente, também não será capaz de mantê-lo por muito mais tempo. O tempo acabou para Erdogan. Perdeu muito apoio, até dentro do próprio partido.”

Dogan Akhanli vivia na Alemanha até ter sido detido em Espanha, no ano passado, por ordem do Governo turco. Ficou em liberdade condicional depois de ter sido ouvido por um tribunal espanhol, mas impedido de sair de Madrid. Autor de uma trilogia sobre o genocídio arménio, Dogan Akhanli denuncia a “completa arbitrariedade” do sistema judicial turco, que “poderá ser fatal para adversários de esquerda e para todos”. “Há mais pessoas detidas na Turquia do que na China ou noutro país qualquer. Erdogan é o último elo de uma longa história de violência na Turquia.”

Um parlamento destruído ou semiunido?

Além da novidade que é ter uma oposição tão forte e variada, estas eleições presidenciais acontecem ao mesmo tempo que as parlamentares - e é a primeira vez que isso acontece. A prioridade dos candidatos da oposição é precisamente obter a maioria no Parlamento e, se o conseguirem, o passo seguinte é tentar implementar a sua agenda comum, que inclui o levantamento do estado de emergência, o restabelecimento do Estado de direito, o reforço das liberdades fundamentais e o regresso ao sistema parlamentar. A perda da maioria dos lugares no Parlamento por parte do AKP é um cenário que Erdogan quase admitiu, assumindo, pela primeira vez e de forma surpreendente, estar preparado para discutir coligações. “Se Erdogan for eleito presidente e perder o parlamento tem de se tornar mais consensual e adotar novo um modus vivendi com a oposição. Se não o fizer, a Turquia acabará num beco sem saída e podemos desde já esperar novas eleições”, diz Sinan Ülgen. Kemal Kirisci concorda e antecipa outro cenário, “verdadeiramente louco”, em que Erdogan “escolhe simplesmente ignorar os resultados usando como pretexto o estado de emergência que continua em vigor no país desde o golpe de Estado”. Uma parte da população suspeita que possa haver fraude nas votação mas o investigador da Brookings Institution está descansado quanto a isso. “Se as eleições não fossem reais, Erdogan não teria feito tudo para antecipá-las.” As eleições estavam marcadas para 3 de novembro de 2019 mas foram antecipadas para este domingo, numa decisão que foi muito criticada pela oposição. Muitos acusaram Erdogan de querer apenas beneficiar do estado de emergência e de querer evitar que os números negros da economia danificassem ainda mais a sua popularidade.

As eleições vão permitir a entrada em vigor da maioria das alterações à Constituição turca que foram aprovadas no referendo realizado em abril de 2017 e reforçam o poder presidencial. O atual sistema parlamentar dará lugar a um sistema presidencialista em que o cargo de primeiro-ministro é abolido e o presidente deixa de ter um papel cerimonial para se tornar o chefe do aparelho executivo, podendo nomear ministros e vice-presidentes, promulgar leis por decreto e dissolver o Parlamento. Todos os partidos da oposição prometeram reverter estas alterações caso vençam mas ninguém sabe como o pretendem fazer porque eles próprios não explicaram. “A minha resposta sincera é: não sei. O referendo não pode ser ignorado. É um pouco como o Brexit. Se a oposição fará outro referendo? É provável, mas não tenho a certeza”, diz Kemal Kirisci.