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Ministro do Interior italiano ameaça retirar proteção a jornalista que investigou a Camorra

Antonio Masiello/Getty

“Vão ser as instituições competentes que vão avaliar se corre algum risco, já que me parece que passa muito tempo no estrangeiro”, disse Matteo Salvini

O ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, afirmou nesta quinta-feira que "as instituições competentes vão avaliar" se o jornalista Roberto Saviano ainda precisa de guarda-costas, "uma vez que passa muito tempo no estrangeiro", numa entrevista à televisão pública RAI3.

"Vão ser as instituições competentes que vão avaliar se corre algum risco, já que me parece que passa muito tempo no estrangeiro. Veremos como gasta o dinheiro dos italianos, mas esse é o último dos meus problemas", disse Salvini, cujas declarações provocaram protestos imediatos por parte da oposição.

Saviano tem guarda-costas desde que publicou em 2006 o livro "Gomorra", em que revela o mundo da Camorra, no seguimento do que foi ameaçado pelo clã dos Casaleses, tendo o então ministro do Interior, Giuliano Amato, sugerido que abandonasse Nápoles e se instalasse em local secreto.

O jornalista e escritor napolitano, que passa períodos prolongados em Nova Iorque, tem sido um dos mais fortes críticos de Salvini, que também é vice-primeiro-ministro e líder do partido de extrema-direita Liga, pela sua anunciada "mão dura" contra a imigração e a recusa de entrada num porto italiano do navio 'Aquarius', que tinha 630 imigrantes, que acabaram por desembarcar em Espanha.

Hoje, Saviano divulgou um vídeo nas redes sociais em que classificou Salvini de "ministro da Má Vida", que "não faz outra coisa que não seja ameaçar, fazer propaganda, dizer mentiras e alimentar o ódio e o desprezo". Saviano perguntou ao líder da extrema-direita se entende que ele vive "feliz" com guarda-costas "desde há mais de 11 anos" e recusou que este o possa ameaçar ou intimidar.

"Salvini tem como inimigos os imigrantes, tem como inimigos as pessoas do sul da Itália, que insultou antes de lhes pedir o voto, tem como inimigos os ciganos, de quem diz 'nós, italianos, não temos de ficar com eles'. Eu estou feliz por estar entre os seus inimigos", disse. Saviano acusou também Salvini de "fazer teatro" e não política, apelando a que as pessoas mostrassem a sua recusa pelas posições radicais deste político. "É necessário dialogar não com Salvini, mas quem votou nele, com quem o apoia. Há que falar com quem, como eu, se dá conta de que a situação é grave", acrescentou.

As críticas às declarações de Salvini vieram também de opositores, como a eurodeputada do partido Democrata Pina Picierno, que considerou "intoleráveis" as "mensagens intimidatórias" dirigidas a Saviano por um ministro. "Expor desta forma Saviano, uma personalidade reconhecida em todo o mundo pelo seu envolvimento na luta contra a mafia, é vergonhoso", disse Picierno.