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Kirstjen Nielsen, de (quase) ilustre desconhecida a ‘Madam Secretary’

Alex Wong/Getty Images

Tem sido o rosto mais visível na defesa da política migratória nos EUA, que até esta quarta-feira incluía a separação das crianças dos seus familiares quando chegavam à fronteira em situação ilegal. Não lhe reconhecem um currículo relevante, mas é unânime o elogio à sua dedicação e capacidade de trabalho. Na atual Secretária do Departamento de Segurança Interna, destaca-se, sobretudo, a lealdade a Trump

A agora Secretária do Departamento de Segurança Interna dos EUA, Kirstjen Nielsen, chegara há pouco tempo à Administração Trump (entrou em janeiro de 2017) quando contraíu uma gripe severa. De tanto tossir, a então chefe de gabinete daquele que foi seu antecessor - o general John Kelly - partiu uma costela. Mas nem isso lhe abrandou o ritmo ou reduziu a capacidade de trabalho. Em vez de apresentar uma baixa médica, Nielsen enfaixou o tronco, para conseguir suportar as dores, e continuou a apresentar-se ao serviço, recorda o “Politico”.

A atitude não impressionou apenas o seu superior mais direto. Mesmo entre os que posteriormente haveriam de confessar estupefação quando foi ela a ocupar o cargo de Secretária de Segurança Interna - onze meses mais tarde - não houve voz que se atrevesse a questionar a sua dedicação.

É esse o seu maior mérito, insistem os críticos, que apontam o dedo ao magro currículo, mas essa dedicação é também considerada a sua qualidade mais perigosa. Vários representantes do departamento que Nielsen agora dirige descrevem-na como alguém mais motivado pelo “oportunismo” do que ao serviço de uma “ideologia”, determinada em “agradar” e empenhada em compensar a inexperiência deixando-se guiar. Em suma, Kirstjen Nielsen parece disposta a ser um mero peão da Casa Branca, concluem as fontes citadas pela revista “The New Yorker”.

É por isso que, apesar da crueza com que tem defendido a tão polémica “tolerância zero”, a política migratória norte-americana que choca o mundo e tem permitido separar os filhos dos pais que cruzam as fronteiras dos Estados Unidos como migrantes ilegais, há quem não a acuse apenas a ela. Veem na sua inflexibilidade a defesa inabalável das diretrizes do seu antigo ‘patrão’, John Kelly, e de Stephen Miller, conselheiro senior da Casa Branca e considerado o verdadeiro arquiteto da ideia.

Estóica perante as acusações e as críticas

“Estamos apenas a cumprir a lei”, garantiu no púlpito da sala de conferências quando confrontada com a pergunta dos jornalistas sobre se não estava em causa uma forma de abuso contra as crianças. Uma prestação “robótica”, como escreveu Arick Wierson, produtor televisivo e antigo colega de universidade de Kirstjen Nielsen, que se repetia na noite de terça-feira, em que aguentou estoicamente e sem emoção visível a contestação que a visou quando jantava num restaurante mexicano e foi rodeada por manifestantes gritando “vergonha, vergonha”.

A Secretária de Segurança Interna tem dado o corpo às balas. E insiste em “defender o indefensável”, escreveu ainda o ex-colega, que lhe apontou a porta de saída como única solução: “A única boa opção é demitir-se”.

Não parece provável. De Nielsen, 46 anos, espera-se lealdade absoluta a Donald Trump, como aliás evidenciou esta quarta-feira, mantendo-se ao lado do Presidente norte-americano enquanto este anunciava ter assinado uma ordem executiva que impedia as crianças de serem separadas dos familiares. Depois de Trump lhe dar a palavra, Nielson fez questão de terminar com um muito reverente “obrigado senhor Presidente pela sua liderança”.

MANDEL NGAN/Getty Images

No seu perfil (incluindo a postura física) sobressai também a tendência para agir de acordo com a disciplina militar que impõe aos outros - o que lhe valeu ser conhecida como “enfermeira Ratched”, numa alusão ao autoritarismo da personagem de “Voando sobre um ninho de cucos” - mas que parece também ser capaz de aplicar a si própria.

Não se sabe muito sobre a sua vida pessoal, cujos factos mais relevantes só vieram a público depois de a nomeação a ter colocado sob escrutínio. Filha de dois médicos do Exército, nasceu no Colorado e cresceu na Florida, sendo a mais velha de três irmãos. Os pais divorciaram-se quando era uma estudante de Direito e perdeu a mãe em 2011. O pai, oftalmologista, abriu o seu próprio consultório em Tampa, depois de deixar de prestar serviço na instituição militar.

Solteira, sem filhos, não se lhe conhece qualquer relacionamento atual. O nome denuncia parte da sua ascendência estrangeira: dinamarquesa pelo lado do pai, italiana pela costela da mãe. A única exceção à forma discreta como tem gerido a sua privacidade foi, talvez, a presença da família na sua tomada de posse, a que assistiu o pai, um dos irmãos, os tios e um primo.

Aproximar-se das pessoas certas

A trajetória profissional inclui uma passagem pela Administração para a Segurança dos Transportes (TSA) durante o Governo de George W. Bush (2001-2009). Licenciada em Direito pela Universidade da Virginia e em serviço público pela de Georgetown, Kirstjen Nielsen criou na década passada a sua própria consultora na área da gestão de riscos e foi consultora num centro de cibersegurança, sem que o papel lhe tenha valido grande afirmação como especialista.

A ascensão deveu-se mais ao facto de se ter sabido aproximar das pessoas certas, insistem os críticos, havendo quem os contrarie dizendo que a competência em certas funções acarreta não se conquistar simpatias.

“Sólida, firme, competente”, garantem os seus defensores. Foi o que demonstrou ao recusar pedir “desculpa” pela separação de crianças, durante um discurso na Associação Nacional de Xerifes em Nova Orleães? Ou terá sido um laivo de autoritarismo, mais ao estilo “enfermeira Ratched”?