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Ministro de Trump recusa comparação com os nazis. “Na Alemanha eles queriam evitar que os judeus partissem”

Reuters

Comentário desajustado e historicamente falso foi um dos momentos que marcou um desastre político a que o presidente Trump pôs termo (para já) com uma ordem executiva

Luís M. Faria

Jornalista

Numa entrevista sobre a situação das crianças filhas de emigrantes ilegais que os Estados Unidos estavam a deter separadas dos pais, nalguns casos literalmente em jaulas - uma política que causou enorme indignação no país e fora dele - o procurador-geral (ministro da Justiça) norte-americano, Jeff Sessions, foi confrontado com um paralelo em relação aos que os nazis faziam com as famílias nos campos de concentração. A sua resposta foi que não havia comparação possível. "É um autêntico exagero, claro. Na Alemanha nazi, eles estavam a evitar que os judeus deixassem o país".

Implicitamente, Sessions estava a dizer que a administração Trump, por contraste, quer é que os emigrantes vão embora. Mas este também era o objetivo original dos nazis, que chegaram a discutir planos para uma deportação maciça dos judeus para Madagascar, uma ilha ao largo da costa leste de África, antes de optarem finalmente por os exterminar em massa. O erro histórico de Sessions veio depois de ele ter tentado justificar a sua muito contestada política com uma citação bíblica que teólogos imediatamente notaram não dizer aquilo que ele lhe atribuía. A própria igreja a que Sessions pertence o criticou. Ainda por cima, a citação foi em tempos usada para justificar a escravatura nos EUA.

Entretanto, a política mudou. A divulgação de vídeos com meninos a chorar e a chamar pelos pais, somada à pressão de igrejas, organizações humanitárias e até congressistas republicanos, tornou-se demasiado onerosa em termos políticos (vêm aí as eleições intercalares para o Congresso), obrigando Trump a emitir uma ordem executiva que anula a decisão de Sessions. As crianças emigrantes que são detidas com os seus pais depois de atravessarem ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos vão deixar de ficar separadas deles enquanto esperam por uma decisão final sobre o seu estatuto. Mas a linha dura em matéria de emigração ilegal continua, bem como os problemas de base que alegadamente a justificam, pelo que não devem tardar novos episódios.